Desde a última sexta-feira, Juliano Almeida da Silva, 22 anos, sobrevivente da tragédia na Kiss aproveita o conforto do lar, em Santa Maria, ao lado da família e da namorada que também sobreviveu ao incêndio.
O jovem que teve alta na última quinta-feira, estava internado há 39 dias no Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre, e passou 24 dias na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Natural de Santa Maria, Juliano é vendedor da imobiliária Reside e conta que não vê a hora de voltar a rotina.
Entre os grandes amores de sua vida, o futebol parece ser um dos maiores. Horas depois de sair do hospital, o gremista visitou o Estádio Olímpico, onde foi recebido com carinho pelos jogares e pela equipe técnica e até fez fotos com o treinador Vanderlei Luxemburgo.
Na sexta, quando chegou em Santa Maria, o clima era de festa, com direto a churrasco e faixa de boas-vindas que dizia:"Às vezes a gente tem que ficar longe pra perceber que tinha que estar perto".
Na tarde deste domingo, enquanto "secava" o jogo do Internacional pela final da Taça Piratini, acompanhado de amigos e familiares, Juliano recebeu a reportagem do Diário de Santa Maria para contar como está sendo a sua recuperação.
Confira, na íntegra, a entrevista:
Diário - Vocês costumava sair bastante a noite?
Juliano Almeida da Silva - Não, foi a primeira vez que sai a noite. Fui porque era uma festa do curso da minha namorada. Nunca imaginei que fosse acontecer isso tudo. Uma prima dela faleceu.
Diário - Você se lembra de alguma coisa aquela noite?
Juliano - Lembro de ter visto um tumulto, achei que era uma briga. A gente estava em cima, perto da área VIP. Quando surgiu aquela fumaça preta, não pensei em outra coisa, peguei a minha namorada pela mão e corri com ela para fora. Não dava pra ver nada, só ouvia o barulho das mãos batendo nas portas e nas paredes. Aí fui e puxei ela até onde deu, então ela soltou a minha mão, e eu não consegui mais puxá-la. Quando cheguei lá fora, senti uma ardência no braço, sentei na calçada e desmaiei. Aí já não lembro de mais nada. Só quando acordei no hospital.
Diário - Você chegou a pensar que a Ana Carolina (namorada) poderia ter morrido?
Juliano - Sim, não consegui puxar ela de volta, mas graças a Deus, alguém conseguiu puxá-la para fora.
Diário - Do que você lembra quando estava em coma?
Juliano - Quase nada, só sei que tive muitos pesadelos. Não sei explicar direito.
Diário - Como ficou sabendo que tanta gente morreu?
Juliano - Foi no hospital, quando eu estava no quarto já, eu vi pela TV, fiquei meio apavorado.
Diário - Como está a sua recuperação, tem alguma limitação?
Juliano - Me sinto bem, mas não estou 100%, estou meio fraco, sabe. Tive queimaduras no rosto, orelha, braço ombro esquerdos, fiz enxerto, inclusive nos dedos e no ombro. Ainda não consigo fechar a mão, tenho de fazer fisioterapia. O médico também indicou que eu faça exercício físico para fortalecer, academia, natação. Por enquanto não posso tomar sol, tenho que usar bastante protetor, também faço nebulização duas vezes por semana. Na próxima quinta tenho uma consulta em Porto Alegre, das queimaduras. Sobre a respiração é aqui em Santa Maria.
Diário - Ficou com alguma trauma, medo?
Juliano - Estou meio que com pânico de fumaça. Quando estávamos indo pro Olímpico me senti mal com o cheiro de fumaça no carro. Não sei o que me deu, mas eu me senti estranho.
Diário - O que você quer fazer nesses próximos dias?
Juliano - Comer e ver televisão (risos). Ontem fizeram um churrasco pra mim, eu estava com vontade, depois de tanto tempo. Também queria dar uma volta de carro já, mas é bom ir com calma.
Diário - Alguma coisa mudou na sua vida depois disso tudo?
Juliano - Olha, acho que vai mudar, mas mais pra frente, quem sabe, por enquanto não sei, só sei que não vou sair conseguir sair para noite por um bom tempo.
Diário - Você tem alguma religião ou passou a acreditar em alguma coisa depois do incêndio?
Juliano - Sou católico, tenho o meu santinho embaixo do meu travesseiro. Faço aniversário no dia 19 de abril, dia Santo Expedido, por isso sou apegado a ele, rezo todas as noites. E isso vai continuar pra sempre comigo. Até dei falta do meu santo quando cheguei, acho que fizeram uma faxina e tiraram ele do lugar (risos).
Diário - E quais são os planos daqui para frente?
Juliano - Quero voltar a fazer as minhas coisas, jogar bola, voltar pro trabalho, mas não sei quando vai dar.
Diário - Tem algum sonho?
Juliano - Sonho não sei, mas quero comprar um carro novo. Quero fazer vestibular também, tentar numa particular, para Engenharia Ambiental, ou Direito e aí me especializar em Direito Ambiental.








