Quando vinha para Santa Catarina, o cantor Chorão, encontrado morto em seu apartamento em São Paulo, no último dia 6, costumava ligar para o amigo Milton Pereira, o Chulipa, para se encontrarem.
Os dois se conheceram ainda na adolescência, quando Chorão namorou com a irmã de Milton, em São Paulo. Ficaram amigos e, depois de um período afastados, voltaram a manter contato. Nos últimos anos, os dois iam juntos aos shows da banda Charlie Brown Jr. em Santa Catarina.
Em entrevista ao DC, Milton conta que o cantor queria diminuir o ritmo de shows e se mudar para Florianópolis - onde havia visto um terreno para comprar no Bairro Cacupé, com vista para o mar.
Vídeo mostra último show da banda Charlie Brown Jr., no Maria's, em Camboriú
Como você e Chorão se conheceram?
Milton Pereira — Eu morava em São Paulo até sete anos atrás. Na época em que nos conhecemos, eu morava em um bairro muito próximo do dele. Quando ele tinha uns 16 anos, começou a namorar a minha irmã. Namoraram mais ou menos durante um ano e meio e, depois que terminaram, ele continuou frequentando a minha casa. A gente ficou amigo. Ele se dava muito bem com a minha mãe. Às vezes eu chegava e ele tinha passado a tarde lá, conversando com ela. Tudo isso antes de ele gravar e ficar famoso. Depois que ele gravou o primeiro CD, ainda ia lá em casa. Quando gravou o segundo, nós nos mudamos e nessa época já era mais difícil, porque as pessoas paravam ele na rua, começavam a cercar, não conseguia mais ficar tranquilo. Ele estava comigo no dia em que o pai dele foi buscá-lo pra ir pra Santos, quando ele tinha uns 19 anos. A mãe dele tinha ficado doente e estava difícil pra cuidar do filho. Depois disso ainda o encontrei algumas vezes, mas depois fiquei um tempão sem falar. Uns 15 anos.
E como se reencontraram?
Milton — Foi no aeroporto de Porto Alegre, no final de 2011. Depois disso, a gente começou a ter contato de novo. Ele avisava quando vinha fazer show aqui e eu ia com ele.
Quando foi a última vez que você teve contato com o Chorão?
Milton — Nesse último show, no (ex-rancho) Maria's, final de fevereiro, ele me ligou pra ir com ele. Foi a última vez que eu o vi. Mas a última vez em que falei com ele foi no sábado antes de ele falecer. Liguei avisando que eu estaria em São Paulo no domingo e falei pra gente se encontrar, fazer alguma coisa. Ele concordou e ficou combinado que eu ligaria. No domingo, tentei falar com ele umas três vezes e não consegui.
Ele tinha planos de morar em Florianópolis?
Milton — Na verdade, ele não estava morando naquele apartamento onde foi encontrado. Ele morava no hotel Renaissance. Aquele apartamento era dele e até cheguei a ir lá com ele uma vez porque a ideia era justamente vender pra comprar um terreno que tínhamos visto juntos aqui em Floripa. O sonho dele era se mudar pra cá. Já estava se programando para, no final do ano que vem, diminuir a quantidade de shows e morar aqui.
Onde fica o terreno?
Milton — É no Cacupé, no condomínio Sambarte. Se não me engano, é o terreno número 9. Ele estava louco pra comprar esse terreno, mas estava tentando primeiro vender o apartamento de São Paulo.
Por que ele queria se mudar para Florianópolis?
Milton — Primeiro ele escolheu o Cacupé pela vista que tinha do mar. E ele tinha muitos amigos aqui. Não cheguei a encontrá-los junto com ele, mas ele gostava muito desses amigos. Um deles era o Cachaça, que conheci no Planeta Atlântida, quando foi com a gente para o show. E tinha os amigos com quem ele andava de skate.
Pra você, o que de mais marcante havia no Chorão e que as pessoas desconheciam?
Milton — As pessoas não conheciam o lado desapegado dele. Ele tinha dinheiro, obviamente, era um artista reconhecido, mas era desapegado. Esse terreno no Cacupé era bem grande, ele chegou a dizer que era pra eu fazer uma casa ali também. Eu falei que não tinha dinheiro pra comprar o terreno e ele disse que não tinha problema, que ele ia comprar e eu fazia a casa ali.
Que imagem fica do Chorão?
Milton — Não vou dizer que era um anjo, mas quem o conheceu sabe que era um cara de bom coração.













