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Resgate na água08/01/2013 | 08h18Atualizada em 08/01/2013 | 12h57

Saiba quem é quem na "cavalaria do mar" que salvou 22 pessoas após naufrágio

Se não fosse grupo de pilotos de jet ski, acidente em SC poderia ter terminado sem final feliz

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Saiba quem é quem na "cavalaria do mar" que salvou 22 pessoas após naufrágio Cristiano Estrela/Agencia RBS
Grupo teve papel crucial no salvamento após acidente com bote próximo à Praia da Pinheira Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

Era final da tarde e ninguém havia se arriscado em um passeio mais longo. O cenário era de mar agitado, com ondas de até dois metros. Porém, um pedido de socorro fez um grupo de pilotos de jet ski rasgar as águas da Boca da Barra em direção ao mar aberto para ajudar os bombeiros em um resgate a 22 turistas que haviam naufragado.

Apelidados como "cavalaria do mar", os pilotos impressionaram pela sincronia com que deslizavam pelas águas. Atenderam ao alerta do comandante dos bombeiros de Palhoça, Daniel Fernandes.

– A agilidade deles foi crucial para o sucesso do resgate. Parecia que estavam treinados para aquilo. Foi uma soma de solidariedade com técnica – afirma Fernandes.

Saiba quem é quem na Cavalaria do Mar:

 
Silenio Barcelos

Durante o resgate, o jet ski de Silenio Barcelos foi o único a virar na água. Isso aconteceu porque uma das naufragadas, desesperada, se agarrou com muita foça no veículo. Porém, o imprevisto não atrapalhou a ação de resgate. Em questão de segundos, com a ajuda da equipe dos Bombeiros, o jet ski havia sido desvirado e mais uma pessoa salva. Na praia, o empresário que pilota há dois anos posou de herói em uma fotografia com mais uma família resgatada.

— Mesmo com ondas de até dois metros de altura nem deu tempo de sentir medo. Só pensava em ajudar aquelas pessoas — diz.


Anderson Possenti

Pela primeira vez, em 10 anos de prática com o jet ski, Anderson Possenti fez parte de um resgate. Ele se preparava para sair da água quando recebeu a notícia do naufrágio. Não deu nem tempo de pensar no mar agitado, pegou mais um colete e seguiu para alto-mar. No trajeto, conta que pensou no pior: quantas pessoas estariam no bote, haveria feridos, mortos?

Foi um dos primeiros a chegar. Viu pavor no semblante de quem ainda estava na água e tentou acalmar, com conversa, os que estavam sendo conduzidos até os jet skis. De volta à rotina, Possenti está tendo que administrar o trabalho na oficina mecânica com as várias vezes em que precisou contar a mesma história. Todos querem saber sobre o seu dia de herói. Ele se exibe mostrando as fotos registradas no celular, aponta para a quantidade de gente que esperava na areia pelo final da ação e gaba-se com as principal das informações.

— Conseguimos salvar todos os naufragados.

 
Andrei Cunha

Ele fez mais do que seguir com o jet ski para o mar. Andrei Cunha se jogou na água assim que chegou no local onde a embarcação havia naufragado. Ele conta que chegou antes do bote dos Bombeiros e que não aguentou ver de longe as pessoas apavoradas e se queixando de muito frio.

— O mar estava muito mexido, não dava para ir passear. Mas ninguém pensou duas vezes quando soube que havia gente precisando de ajuda. Me joguei porque queria salvar o maior número de pessoas possível — lembra.

 
Andrey Patricio

Cabeleireiro de Palhoça, que comprou o jet ski há seis meses. Era mais um dos que estavam no Bico do Papagaio e soube do incidente quando chegou perto da praia. Assim que tomou conhecimento foi atrás dos sobreviventes. "Foi difícil porque tinha onda e o jet ski ia em cima do pessoal. Tinha que ficar longe para não machucar", relata.

Para sorte dele, o rapaz que ajudou conseguiu subir rapidamente no veículo.

— Ele estava preocupado com o pai dele — recorda.

O sobrevivente lembrou ainda que no meio do desespero, os náufragos começaram a rezar. Ao terminar, o primeiro jet ski apareceu.

— É uma sensação inexplicável. Conseguimos fazer o bem. Estamos com missão cumprida — destaca. 

 
Celio Correa

Quando soube do naufrágio, Célio Roberto Correa se lançou ao mar, mas não encontrou o ponto certo e acabou retornando para a praia. Até que avistou o helicótero dos Bombeiros e seguiu na mesma direção. Foi o primeiro a chegar no local. Entre os tantos pedidos de socorro, deu prioridade a uma menina de quatro anos. O empresário que se diz "coração duro", lembra que não conseguiu segurar a emoção diante da cena. 


Douglas Hillesheim

Administrador de São José. Pilota há dez anos. Estava passando o dia lá e passeando. Quando estava na areia soube da notícia. Viu uma viatura dos bombeiros que informou o que havia acontecido. Ele avisou os amigos e embarcaram no jet ski.

— Saiu todo mundo junto — relata.

O administrador foi responsável por trazer um casal de 20 e poucos anos.

— O pessoal estava assustado. Não é acostumado. O mar é mais agressivo (naquele local) — destacou. 

 
Fabio Luciano

Engenheiro civil, piloto há 10 anos de jet ski. Morador de Palhoça. Ele e Rafael iam para o Papagaio. Souberam do naufrágio, mas não conseguiram enxergar o barco. Aguardaram um minuto e apareceu o Arcanjo. Deduziram que era o local.

— Foi difícil de chegar. A ondulação estava alta. Foi complicado — recorda.

Ao chegar, viu muitas pessoas chorando. Ficou emocionado já que nunca tinha passado por nenhuma situação assim. Mas o que cortou o coração foi ver uma menina com quase a mesma idade da filha de quatro anos. O engenheiro civil tentou ser o mais rápido possível para fazer o salvamento. Havia um costão a menos de dois quilômetros e o mar estava puxando para aquele local.

— Eternamente vou lembrar deste dia — concluiu.

 
Marlon dos Reis

Empresário de São José. Estava passando um dia tranquilo na casa de praia, na Ponta do Papagaio. Passou a tarde n'água e estava retornando quando viu um veículo dos bombeiros pedir ajuda para alguns pilotos. Ele, que estava junto com o Douglas, não saiu já no momento. Aguardaram um pouco até saber o que estava acontecendo.

Quando soube do naufrágio, foi ajudar a resgatar. Procurou no mar os sobreviventes, mas não encontrou na hora. Apenas com ajuda do Arcanjo conseguiu localizar. Ao chegar, pegou o guia do casal alemão que estava na embarcação que afundou e levou para a praia, conforme orientação dos bombeiros.

— Tenho casa há 15 anos lá e nunca presenciei uma cena assim — comentou. 

 
Nilsandro de Macedo

Era o último dia na casa alugada para passar as férias. Nilsandro de Macedo, que comprou o primeiro jet ski há dois anos, estava recolhendo o veículo quando escutou um amigo falar sobre o naufrágio. Voltou para o mar e em menos de cinco minutos estava diante de uma família desesperada. Pai e dois filhos esperavam por socorro. Um dos meninos subiu no seu jet ski. Ao chegar na areia, Nilsandro se emocionou junto com a família.

— Eles se abraçaram muito, vibraram muito. Nunca pensei que fosse participar de um salvamento desses. Quando lembro ainda tenho vontade de chorar — diz.

 
Patrick Dilmon

Como surfista, Patrick Alex Dimon já havia resgatado banhistas. Mas conta que nunca havia se imaginado em alto-mar, diante de dezenas de pedidos por socorro. Ele tem jet ski há seis meses, ainda passeava com o veículo quando um amigo avisou que um bote havia naufragado.

 
Rafael Althoff

Empresário, pilota jet ski há dez anos. Morador do Estreito, em Florianópolis, genro do prefeito de Palhoça.

Ficou sabendo do acidente quando chegou perto da costa. Uma pessoa avisou, mas não sabia se era trote ou real. Ele e os amigos saíram em busca das vítimas. Circularam pelo mar, mas não encontraram. Saiu atrás do helicóptero dos bombeiros e enxergou as pessoas no mar.

— Estavam boiando, agarrados na parte inflada — destacou.

Quando chegou no local, foi primeiro tentar ajudar as crianças e idosos. Depois levou dois rapazes.

— Não pensaria duas vezes em fazer de novo — enfatizou.

 
Richard Dimon

Foi o último a sair da água e o primeiro a chegar no local. Mas em vez de seguir o itinerário normal, resolveu pegar uma rota diferente junto com o Célio, um amigo. Foi sentido Naufragados. Localizaram o bote dos bombeiros, que apontou em outra direção. Alinharam o veículo e aceleraram. Viram o helicóptero e foi o primeiro a chegar.

Pegou uma menina pequena e colocou no veículo. Mas ao avistarem uma senhora que não conseguia subir e até derrubou o amigo de outro jet ski na água, Richard pulou na água e foi ajudar. Olhou nos olhos dela, deram as mães e a fez subir.

Passado o susto, dava até para fazer brincadeiras. Uma das vítimas até disse que o resgate parecia uma cena do filme 007, com um monte de jet ski na água.

 
Cairon Andrade

Caminhoneiro por sete anos, Cairon Costa Andrade conta que já socorreu muitas vítimas do trânsito. Mas no mar nunca havia passado por situação parecida. Ele tem jet ski há dois anos e vai quase que todos os fins de semana para a Praia do Papagaio. O sábado seria só mais um dia de lazer, até a hora de ir embora. Foi um amigo quem avisou que um bote com turistas havia neufragado, na mesma hora ele seguiu o comboio para o resgate.

 
Jeferson Hoffmann

Empresário de 35 anos e piloto de jet há 11 anos, morador do bairro Kobrasol em São José. Estava na beira da praia quando viu uma pessoa que deu sinal e pediu ajuda. Falou que uma embarcação havia naufragado. Jeferson conversou com os amigos e foi tentar o resgate.

— Para a gente é uma aventura. Uma coisa diferente — destacou.

O mar estava muito alto e o empresário não conseguia encontrar ninguém. Apenas quando viu o helicóptero teve uma direção para onde seguir. Tendo um local, não pensou duas vezes em acelerar e chegar. Foi o primeiro a encontrar as vítimas.

Douglas Giovani Moisés

Anda de jet ski há 6 anos, comerciante, morador de Barreiros em São José, 32 anos de idade. Estava voltando para a praia quando um dos donos da embarcação avisou que havia um bote no mar. Ele saiu em busca dos tripulantes, deu uma volta, mas não encontrou ninguém. Três ou quatro minutos depois avistou o helicóptero e resolveu seguir. Encontrou o ponto exato onde estavam os sobreviventes e um bombeiros já estava na água.

— Cada um (piloto) levou uma pessoa até a areia — recordou.

Douglas levou uma menina de Lageado, por ter sido um dos primeiros a chegar e as crianças terem sido priorizadas.

Luciano de Moisés

Eletricista de 36 anos e que anda de jet ski há dois anos, primo de Douglas. Mora no município de Paulo Lopes.

Estava no Bico do Papagaio e quando chegou na praia um homem vindo num Uno Branco disse que havia um naufrágio. Ele, mais uns dez ou doze pilotos, partiram para o resgate. Deram a volta atrás da ilha, quando conseguiram avistar os sobreviventes. Viu as pessoas boiando na água e se segurando no que restava do bote.

— Um senhor de 72 anos veio como comigo. Ele estava preocupado com a família. Quando chegamos, os bombeiros já estavam lá e orientando — destacou.

Valter Bonifácio Prudêncio

E
mpresário, 33 anos, piloto há três anos. É de Paulo Lopes. Estava mais retirado da praia e quando soube do acidente chegou tarde, mas a tempo de ajudar. Não chegou a ir até o local e nem trouxe vítimas. Mas ajudou que estava carregando as pessoas.

— Tinha bastante gente ajudando no resgate — destaca.

Do mesmo jeito que os outros que fizeram o socorro, analisou o quão emblemática foi a tarde de sábado. As ondas e o vento complicaram a situação de quem queria ajudar, mas não impediu que o socorro fosse feito.

— Foram todos que ajudaram. É uma equipe. Tem que ir. É uma coisa que pode acontecer com qualquer um.

Sandro Fonseca

Bombeiro há 19 anos e piloto do Arcanjo 1. Estavam vindo de outra ocorrência e foram direto para Palhoça. As ondas estavam grandes, o que encobria o naufrágio. Com a aeronave, encontraram o local e os sobreviventes. Lançaram um tripulante na água para que orientasse os sobreviventes. O resgate durou cerca de meia hora.

— Água estava muito fria. Todos estavam com sinal de hipotermia. Um senhor de 72 anos e duas crianças mais graves. É bem difícil. Não é uma coisa que pega (atende) todo o dia — comenta.

O diferencial neste caso para que todos sobrevivessem foi o colete salva-vidas, segundo Sandro. Se não estivessem com esta proteção, poderia ter acontecido uma tragédia.

— Não dava para boiar mais de uma hora em água gelada — destaca — Salvar 22 vítimas com vida é um alívio e satisfação — comentou.

No rastro do Arcanjo

Para encontrar o ponto exato do naufrágio, os pilotos seguiram a direção do helicóptero. No local, iam se posicionando em fila, à espera dos naufragados, que eram levados pelos bombeiros até os jet skis. A ordem era para que todos retornassem à praia em comboio e com a velocidade reduzida. Em 45 minutos, todos estavam salvos.

O comandante Daniel Fernandes não sabe dizer quanto tempo mais o resgate levaria se não houvesse a participação dos pilotos.

– Podemos dizer que se demorasse muito, os naufragados poderiam sofrer hipotermia (a temperatura da água era de 22°C e o vento nordeste aumentava a sensação de frio) ou então, como todos estavam se segurando no bote, a estrutura poderia rasgar e afundar – diz Fernandes.

 

Laudo sobre acidente sai em três meses

Um inquérito administrativo, instaurado pela Capitania dos Portos no domingo, investiga as causas do naufrágio. Segundo o comandante, capitão Cláudio Lisboa, a embarcação estava com a documentação em dia, tinha condutor habilitado, era cadastrada e respeitava a lotação. As causas do acidente devem ser apontadas em até três meses.

Segundo Lisboa, durante esse período serão ouvidos os tripulantes e também o dono da empresa que oferecia o passeio, além de realização de perícia na embarcação. Depois de concluído, o inquérito será encaminhado para análise do Tribunal Marítimo.

Grupo que participou do salvamento
 
(Foto: Anderson Possenti)

Imagem aérea da Cavalaria do Mar
 
(Foto: Divulgação / Corpo de Bombeiros)

Depoimentos:





Veja o vídeo do resgate:



Entenda como ocorreu o acidente:

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