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Motivo para brincar26/01/2013 | 06h03

Carnaval de rua retoma tradição em Porto Alegre

Cidade Baixa, na Capital, concentra até março os desfiles de pelo menos nove blocos organizados

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Carnaval de rua retoma tradição em Porto Alegre Caco Konzen/Especial
Concentrado na Cidade Baixa, carnaval de rua retoma tradições Foto: Caco Konzen / Especial

Quem viveu sente saudade. Quem não conheceu não perde por esperar.

O antigo Carnaval de blocos está de volta às ruas de Porto Alegre, repaginado, retomando uma tradição perdida ao final da década de 80.

Concentrado na Cidade Baixa, o desfile dos grupos organizados ocorre nos finais de semana de janeiro a março e pretende recuperar uma forma espontânea de folia. Nada a ver, portanto, com a "formalidade" do Porto Seco. É samba no pé, a pé.

Apesar de repetidos esforços nos últimos cinco anos, é em 2013 que o projeto ganha mais força. Pelo menos nove blocos desfilam no bairro este ano, com o apoio e organização de um projeto chamado Cidade Baixa em Alta. À frente da iniciativa, Tiago Faccio diz que a proposta é reunir moradores, comerciantes e visitantes para promover a cultura popular. O Carnaval de rua é um dos braços do projeto.

Criador de blocos tradicionais como a banda D K e Rua do Perdão, Waldemar de Moura Lima, o Pernambuco, afirma que é importante fazer uma separação do Carnaval espetáculo (o do sambódromo) com esse movimento das ruas.

— Nesse quesito, Porto Alegre estava muito ruim. Agora, para nossa felicidade, há um retorno — comemora.

Muitos gaúchos invejam os cariocas pela organização de um Carnaval que, fora da Sapucaí, toma conta de todos os cantos da cidade durante o verão. Mas Porto Alegre, principalmente no Centro, já foi reduto de samba. Em uma época em que a violência não assustava, os foliões se fantasiavam e tomavam as calçadas. Mesmo com as diferenças, blocos de índios, lixeiros, humoristas, travestis, brancos e negros conviviam pacificamente em nome da diversão.

— Esse estilo de festa reúne gente de todas as tribos. A única condição para brincar é a alegria — relembra a carnavalesca e jornalista Vera Daisy.

Interrompida pela concorrência com o Carnaval no litoral e pelas queixas dos moradores, insatisfeitos com a agitação, a folia de rua deixou boas lembranças para antigos carnavalescos da Cidade Baixa — caso dos irmãos Renato e Paulo Homero, crescidos em meios aos confetes da João Alfredo:

— Aqui é o berço do carnaval de rua  —  vibra Paulo, que já foi integrante de blocos.

Retomada para uns, novidade para outros. A recepcionista Juliana Reginatto ficou encantada ao ver os sambistas do bloco Panela do Samba arrastarem 3 mil pessoas no domingo passado. A tendência é que o fenômeno fuja às fronteiras da Capital: estão aí cidades como Rio Grande, no Sul, para provar o vigor de uma festa popular.

Assalto à geladeira deixou saudades

Uma antiga tradição que fez parte do Carnaval porto-alegrense era o "assalto", quando integrantes invadiam a casa de amigos para filar comida e bebida de graça. Na residência da aposentada Iaraci Espíndola, 63 anos, esse ritual era levado tão a sério que o pai encomendava um barril de chope para esperar os foliões. A mãe fazia a feijoada em panelões.

— Era um tempo muito bom. Agora que está de volta, não vou perder um desfile — sorria, enquanto esperava o início do bloco, no último sábado.

Além da Cidade Baixa, que era o principal reduto da festa popular na Capital, havia blocos que desfilavam na Santana, no Areal da Baronesa e nas praças Garibaldi e da Alfândega, entre outros locais. 

— Era confete e serpentina espalhados por toda a cidade — relembra o carnavalesco Maqui Borges, do bloco Deixa Falar.

Bem-me-quer, mal-me-quer

A presença de som alto e resquícios da batucada (entenda-se: lixo na rua e foliões embriagados) não passa ilesa pela vizinhança. Uma moradora da Rua da República, que prefere não se identificar, relata já ter testemunhado, ao longo de 24 anos, brigas, invasões a moradias e comportamentos que avalia como "baderna".

— Após o término da festa, os foliões continuam no bairro e não nos deixam dormir — reclama.

No portão do prédio em que moram, as vizinhas Karina Bernardi e Maria Lúcia Moura da Silva têm um visão bem diferente. Elas curtem a movimentação e nem de longe se importam com o barulho, porque sabem que tem hora para acabar.

— A gente tem que aproveitar esses momentos de alegria para descontrair — diz Karina, que interrompeu os estudos para o concurso da Defensoria Pública e caiu no samba.

 

 

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