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Histórias de Natal24/12/2012 | 10h02

Tio Cata tira versos do lixo

Incapaz de se conformar com o sofrimento da primogênita de nove anos, alvejada pela chacota dos colegas que riam da “filha de papeleiro”, Catarino Brum Pereira, 62 anos, empenhou uma soma que não tinha para consertar uma incorreção

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Tio Cata tira versos do lixo Mauro Vieira/Agencia RBS
Tio Cata presenteou-se com a própria grande oportunidade Foto: Mauro Vieira / Agencia RBS

Catarino Brum Pereira combina o apelido e o ofício à perfeição. Tio Cata é papeleiro e monta numa carroça puxada por Raio X — batismo que contemplou o aspecto descarnado do lombo quando o cavalo foi resgatado do abandono — para catar material reciclável pelas ruas de Gravataí. Resiste a chamar de lixo as sobras que garantem o sustento da mulher, dos três filhos e do enteado, trocadas por dinheiro ou transformadas em móveis da casa erguida com retalhos de madeira sem muita simetria. Conformaria-se como mais uma criatura anônima, não fosse a convicção de que carrega outra sina. O animal arrasta uma carga de papelão, alumínio e plástico e também livros a R$ 10, a brancura das páginas contrastando com a imundície do entorno. Tio Cata empenhou uma soma que não tinha para consertar uma incorreção. Cansou de ver a primogênita, Gabriela, nove anos, deixar a escola moída pela chacota dos colegas.

— Ô, mãe, aquela lá me chamou de maloqueira, filha de papeleiro — relatava a aluna da 3ª série na saída.

A dona de casa Elisângela, 33 anos, exaspera-se ao lembrar, inconformada com a humilhação. Catarino pede a atenção da filha e recorda a conversa do dia em que tomou uma decisão.

— O que o pai disse para ti? Quem vê cara não vê coração — ensina. — Eu sou papeleiro e escritor — explica o catador, sublinhando com ênfase o "e", como se uma lide não se apartasse da outra, como se a poesia dependesse do lixo.

Atrapalhado com cifras e datas, Catarino alega que amargou 50 anos sem rabiscar estrofes, mas conta também que começou aos 19, tornando o cálculo improvável quando se sabe que sua idade hoje é 62. Apresenta-se como um prodígio, detentor de um talento que necessitava se multiplicar em centenas de exemplares. É natural de Uruguaiana, de onde trouxe a impostação de trovador, e está na Região Metropolitana há três décadas, uma delas como carroceiro. Segundo de 22 irmãos nascidos da mesma mãe, trabalhou como pedreiro, carpinteiro, sapateiro e vendedor de coco. Não sabe se concluiu a 4ª série. Constrange-se com o pouco estudo — e utiliza essa carência para entoar os reveses de uma subsistência de bastante dificuldade.

— O dinheiro é que alavanca, consegue mexer com as coisas paradas — teoriza ele, que levou um despiste do proprietário da única editora que visitou. — Vivo reciclando a vida e transformando em poesia. Morre o homem, fica a fama.

Determinado a calar os colegas que riam de Gabriela, procurou a Gráfica Parque dos Anjos, perto da margem do Rio Gravataí onde mora. Fez um orçamento para 500 cópias e logo se decidiu por um salto mais arriscado. Imprimir mil livros significaria um aumento pequeno no total do serviço, e o gerente aceitou a forma de pagamento sugerida pelo cliente: "pedalar" os R$ 1.490 em parcelas incertas, sem data marcada. Catarino passou então a levar manuscritos em folhas sovadas pelo manuseio e uma porção de textos digitados — prefere o computador à máquina de escrever, que pegou chuva e acabou descartada.

— Tenho uma poesia nova. Vou falar para ti — anunciava ao arte-finalista Matias Jardim da Silva, 28 anos, que deu à pilha de rimas como "Na vida se aprende tudo / mas nunca tudo se sabe / porque esta tal de internet / bagunçou a terceira idade" a aparência de livro, ilustrado com figuras da internet.

Entregue em janeiro, o pedido esbarrou num contratempo. A vizinhança que prometera se apresentar para comprar os volumes de Escritor e Papeleiro havia se dispersado por conta das férias de verão. Muitos nem retornaram, mudaram-se, e a edição inicial da estreia literária de Catarino, amontoada, ameaçava encalhar. Apesar do início lento, a empreitada exibe, 11 meses depois, um desempenho animador, com mais de 500 exemplares vendidos.

— Lê. Se não gostar, devolve. Se gostar, compra — orienta ao abordar os passantes, salientando que só um foi refugado.

Ilda Teresinha Pereira, dona de casa de 48 anos, aceitou a proposta. Estima que o livreto de 36 páginas tenha conquistado outros 10 leitores na família.

— O senhor conseguiu usar a criatividade e até fez propaganda — elogia Teresinha, aprovando o modelo editorial que mescla literatura e anúncios.

Os 29 poemas incluem homenagens a Casa de Consertos Eletromáquinas ("E na parte eletrônica / podemos contar com Élio / que é um homem do povo / onde seu aparelho chega quebrado / e sai com garantia de novo") e Casa de Carne Maciel ("O Regis pra quem não sabe / é o gerente e o patrão / e atende todos os fregueses / na maior satisfação"), destacando os telefones dos comerciantes. O autor distribui cartões de visita que oferecem "criações de poesias para qualquer ocasião". Não estipula valor, e quem faz encomendas não se preocupa em perguntar o preço.

— Sei que o dinheiro é importante, mas nem tudo que brilha é ouro, pois quem tem um grande amigo já possui grande tesouro — declama. — O importante é o meu trabalho aparecer.

Catarino quer viver de um sonho pelo qual se constrange em cobrar, mas as despesas aparecem. Uma enchente deixou um rastro de gastos mais urgentes, e R$ 890 continuam pendurados na gráfica. Quando o lixo não rende o suficiente para preencher a despensa, o carroceiro compra fiado. Por R$ 1,80 o quilo, o alumínio é dos artigos mais lucrativos na reciclagem, mas um dia inteiro revirando lixeiras não rende nem 500 gramas de latas. Catarino vende um livro hoje, dois amanhã, e os trocados se perdem em miudezas antes que acumule quantia considerável para o abatimento da dívida. O escritor não deixa de produzir, e o vizinho Rivair Lopes, almoxarife, aparece para corrigir a ortografia. Os textos para a próxima publicação estão prontos — Meu Cachorro Não Tem Raça, A Ganância, Meu Pé de Roseira, Pra que Beber, Não Tenho Pressa, O Veio do Bico Doce. Reciclando a Vida trata do sonho de seguir escrevendo. Termina assim:

E com meus agradecimentos, quero aqui finalizar

Pedindo ao pai celestial, que venha a todos abençoar

E que no jardim desta vida, seja repleta de paz e amor

São os votos deste poeta e deste humilde escritor

Que conta com a tua ajuda, pra ser seu patrocinador.

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