O espírito de solidariedade costuma aflorar nesta época do ano quando, movidas pelo clima natalino, muitas pessoas reservam um tempo para ajudar a quem precisa. Esse é o maior presente que se pode dar ao outro e é um bem tão precioso que tornou-se escasso no mundo contemporâneo. E na vida das mulheres, o tempo é artigo de luxo.
Afinal, elas assumem tantos papéis que fica difícil imaginar que ainda sejam capazes de doar um pouco dele. Mesmo assim, existem relatos surpreendentes de mulheres que, mesmo com uma rotina repleta de compromissos com casa, família e trabalho, ainda encontram tempo para serem voluntárias. Elas mantêm esse espírito vivo todos os dias do ano. E no tempo doado ao voluntariado, o mundo parece parar porque a dedicação delas é integral.
O jeito sereno de olhar da empresária Mirian Ester Anversi, 54 anos, demonstra o quão bem lhe faz o trabalho voluntário. Sentada sobre um dos bancos do refeitório da Casa da Amizade, onde atua há 23 anos, ela deixa escapar, entre uma frase e outra, o sentido do voluntariado em sua vida.
— Eu digo que aqui é o meu lazer. Eu criei vínculos de amizade com todo mundo —, confidencia.
Esposa de rotariano, Mirian atribui ao marido João o interesse pelo trabalho voluntário. Entre um evento e outro organizado pelo clube, em benefício de alguma entidade, a empresária viu crescer a vontade de sentir-se parte daquilo. Dali para a Casa da Amizade foi questão de tempo, já que a instituição é composta por mulheres de associados no Rotary.
Conviver com jovens gestantes assustadas pela vaga ideia do que lhes espera após saberem que carregam um novo ser no ventre ensinou muito a Mirian.
— Quando você está aqui dentro e vê uma menina de 14 anos, que não tem família, ser rejeitada pelo namorado, arrumar um filho, tu lembras da tua família. Que os problemas da gente são tão pequenos em virtude do dos outros —, observa.
O gosto por ajudar essas meninas e também mulheres sem condições financeiras para montar um enxoval ou instrução sobre como cuidar adequadamente de um bebê fez com que a empresária arrumasse um tempo na agenda atribulada para dedicar-se ao voluntariado.
Todos os dias, Mirian trabalha na parte da manhã na empresa da família, na qual é responsável pelo departamento financeiro. À tarde, pode ser encontrada na Casa da Amizade, na qual é tesoureira. Além de cuidar da casa e paparicar os dois netinhos.
— Na verdade, se a pessoa não pensar só nela e lembrar do próximo como ser humano, querer se dedicar, você acaba indo e passa momentos felizes. É aquele primeiro passo. O tempo, quem faz é a gente —, disse, com brilho nos olhos.
Mirian explica que para não se sobrecarregar e desempenhar bem as atividades pelas quais é responsável, o segredo é a organização.
— As mais ocupadas aqui são as que a gente mais pode contar. Antes, eu fazia um monte de coisas e continuo fazendo —, disse.
Afinal, o prazer de ver a alegria nos olhos das meninas ao receber o enxoval ao fim do curso, voltar com os bebês no colo, ou mandar cartinhas de agradecimento supre qualquer falta de tempo.
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