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Luto em Florianópolis26/12/2012 | 01h02

Arante José Monteiro, fundador do Bar do Arante, morre aos 77 anos

Bar é famoso por ter as paredes repletas de bilhetes deixados por clientes de todo o mundo

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Arante José Monteiro, fundador do Bar do Arante, morre aos 77 anos Guto Kuerten/Agencia RBS
Arante teve uma parada cardiorrespiratória em decorrência de complicações do diabetes Foto: Guto Kuerten / Agencia RBS

Às 22h de terça-feira, Florianópolis perdeu um grande pedaço de sua história, da sua tradição e um marco para a potência turística em que a cidade se transformou.

Morreu o seu Arante — Arante José Monteiro —, proprietário do bar e restaurante que leva o seu nome na Praia do Pântano do Sul, no Sul da Ilha, famoso por ter as paredes repletas de bilhetes deixados por clientes de todo o mundo.

De acordo com o filho Arante José Monteiro Filho, o Arantinho, o pai, que tinha 77 anos (75 no registro) estava internado havia cerca de 45 dias em decorrência de complicações do diabetes, que por fim o levaram a uma parada cardiorrespiratória e à morte às 22h de ontem no Hospital Universitário, ao lado da UFSC. O corpo está sendo velado no Pântano do Sul, na própria casa da família. Ainda não havia definição do horário do sepultamento até a 1h desta madrugada.

Arante conseguiu conversar pela última vez há cerca de duas semanas, antes de o quadro de saúde ter se agravado.

— Ele pediu pra gente continuar lutando, que nada foi em vão. O pai sempre dizia que trabalhando ninguém ia ficar rico, mas que valia a pena lutar — disse Arantinho, logo após a notícia da morte.

Os bilhetes que viraram marca registrada de seu estabelecimento, têm origem remota, no próprio casamento do proprietário, como narrou a jornalista Ana Paula Bandeira, em reportagem publicada no Diário Catarinense, em 2010.

Arante e dona Osmarina moravam em Pântano do Sul, mas a garota teve de se mudar com a família para o Bairro Monte Verde. Para encurtar a distância, ela queria se casar. E Arante, fugir para viverem juntos. Como, naquela época, Arante servia ao Exército, o dinheiro era escasso, então ele preferia usar o pouco de que dispunha para montar a casa do casal. Ideia mais prática, mas não menos romântica.

A comunicação entre os dois, então, se dava por bilhetinhos entregues por uma amiga em comum. Na última cartinha, Arante se apropriou de versos de Dorival Caymmi, em Maracangalha, e disparou: "Se a Anália não quiser ir eu vou só...". Ou seja: se ela não estivesse disposta a fugir com seu amor, ele teria de iniciar a nova vida, pós-exército, sozinho.

Dias depois, ao visitá-la numa manhã, Arante deu o ultimato: aquela seria a última vez que ele a visitaria. Eram 11h de um dia ensolarado. Osmarina acompanhou o namorado até o pé do morro onde morava. O irmão dela estava junto, como que para vigiá-la. Ao fim do morro, Osmarina informou ao irmão que não voltaria, pois estava indo embora com o namorado. Assim começou o casamento.

O dinheiro poupado com a festa das bodas rendeu a compra de uma casa, onde hoje funciona o café do Arante Bar. Com 25 contos de réis, o casal comprou a construção de 1911 e ali iniciou uma vendinha. Em dias de festa, serviam comida aos visitantes. O local virou ponto de referência aos poucos turistas que apareciam. E, mais uma vez, os bilhetinhos precederam uma história importante na vida de Osmarina e Arante.

É que, longe da era tecnológica, os bilhetes deixados no Bar do Arante eram a forma de grupos de amigos de fora se encontrarem no Sul da Ilha. No início, os bilhetes eram deixados na gaveta. Dali a pouco eram tantos os papeizinhos que Arante brincava:

— Tinha mais bilhete que dinheiro na gaveta. Foi aí que começaram a pendurar os recadinhos na parede do bar. Hoje, em época de celulares com internet, ninguém mais precisa deixar recados na parede para se comunicar. Mas gente do mundo inteiro faz questão de deixar registrada a passagem por um dos restaurantes mais tradicionais de Florianópolis.

Bar foi criado em 1958, mas sucesso veio na década de 1980

Criado em 1958, foi apenas a partir da década de 1980 que os moradores dos outros bairros de Florianópolis começaram a frequentar o bar do Arante. Foi também nessa época que o restaurante ficou mais conhecido. A pouca procura, no fim dos anos 1960 e início dos 1970, ajudou perseguidos políticos a procurar abrigo no local antes de fugirem do país.

Havia no Sul da Ilha, lembra Arantinho — filho do proprietário e criador do local —, inclinação política pelas ideias de esquerda, apesar de não chegar a haver se tornado ponto de resistência à ditadura, também por causa da pouca instrução da maioria dos moradores do local. Por isso, perseguidos políticos escondiam-se no bar antes de sair da Ilha de barco para depois refugiarem-se, especialmente no Chile.

Na década de 1970, o problema maior não era político. Quando o bar começou a abrir até mais tarde e ficar até o último cliente, e os jovens viajantes animavam-se em rodas de violão, muitos moradores desaprovavam. Essa impressão, lembram os familiares, só foi modificada no final daquela década, quando os médicos e professores, consideradas figuras de respeito, também começaram a vir ao bar. A crescente procura por Florianópolis também logo chegou ao Pântano.

DIÁRIO CATARINENSE

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