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Sobre rodinhas21/07/2012 | 16h01

Skates saem das pistas e são usados como meio de transporte barato e sustentável

Carrinhos ganharam as ruas de Porto Alegre, mas seu uso não é aconselhado pela Empresa Pública de Transporte e Circulação

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Skates saem das pistas e são usados como meio de transporte barato e sustentável Ricardo Duarte/Agencia RBS
Rodrigo Steinbach, 24 anos, usa diariamente a prancha para se deslocar entre a casa, no bairro Bom Fim, e o trabalho, no Moinhos de Vento Foto: Ricardo Duarte / Agencia RBS
Começa a escurecer e o trânsito tranca na Avenida Goethe, em Porto Alegre. Entre o para-e-arranca habitual, os motoristas observam o vendedor Rodrigo Steinbach, 24 anos, deslizar pela calçada sobre o shape preto e as quatro rodinhas azuis do skate. Quando encontra espaço, realiza um salto habilidoso sobre o meio-fio e embala pelo asfalto, entre os carros parados no congestionamento.

Das pistas livres para as ruas, o skate tem disputado espaço com outros veículos e ganha cara de meio de transporte por ser, na avaliação dos usuários, uma alternativa sustentável e de baixo custo para percorrer distâncias mais curtas. Steinbach, por exemplo, usa o carrinho diariamente para ir de casa, no bairro Bom Fim, ao trabalho, no Moinhos de Vento. À noite, faz o itinerário contrário e jura que demora menos tempo do que se tomasse um ônibus.

– O skate é mais rápido porque foge daquele movimento intenso de carros – explica o jovem, que é skatista desde os nove anos e já venceu campeonatos nacionais.


O vendedor Rodrigo Steinbach vai e volta do trabalho diariamente de skate
Fotos: Ricardo Duarte

O deslocamento sobre as quatro rodinhas não é restrito aos mais talentosos adeptos do esporte. O projetista de circuitos eletrônicos Sérgio Brunn, 57 anos, vai ao trabalho de skate constantemente. Às segundas, quartas e sextas, sai de casa de manhã cedo para percorrer – em cerca de 35 minutos – os cinco quilômetros que separam a casa em que vive com a família, no bairro Partenon, da empresa onde trabalha, no Centro. Nas terças e quintas, vai para o serviço à tarde, ainda sem deixar para trás o skate.

– Só vou de carro se estiver muito frio ou chovendo – conta Brunn.

Para se deslocar, carrega nas mãos o par de muletas que o acompanha desde que quebrou algumas vértebras durante um circuito mundial de downhill em Teutônia, no Vale do Taquari, em 2007. Na ocasião, chocou-se contra um carro quando descia uma colina a cerca de 100 km/h. Brunn demorou quase quatro meses para voltar a ficar em pé em cima de um skate de novo, sustentado pelos dois filhos.

VÍDEO — Assista a manobras radicais em cima de um freebord:




Atenção redobrada no trânsito da Capital

Hoje, embala pelas ruas de Porto Alegre interagindo com as pessoas, curiosas com o skatista de muletas. Sempre usa capacete embaixo do boné preto e veste um colete de proteção para a coluna. Além disso, como medida de segurança, o projetista procura transitar por ruas menos movimentadas e mantém olhos e ouvidos atentos para não se tornar vítima do próprio descuido.

– Não sou um kamikaze. Evito brigar por espaço no trânsito – relata.

Proprietário de uma loja que vende produtos para a prática do skateboard, Lorenzo Salcedo, 29 anos, desloca-se de skate para fazer o serviço de banco da empresa e as postagens de produtos para clientes. Um dos principais motivos por preferir o carrinho é a dificuldade em encontrar uma vaga de estacionamento na rua.

Nos últimos anos, Salcedo percebeu o aumento do interesse de um público mais variado pelo esporte, sem distinção de idades. O empresário explica que a integração do skateboard com o cenário urbano se iniciou a partir de uma tendência vinda do Exterior, o street.

Esta migração das rampas para as ruas foi presenciada pelo médico ginecologista Lucas Pacini Teixeira, 48 anos. Quando morava nos Estados Unidos, em 2004, ele voltou a subir na prancha depois de 20 anos sem uma embalada. Atualmente, mantém em casa uma coleção de dezenas de skates e carrega sempre um deles no porta-malas do carro para arriscar manobras depois do expediente.


O médico Lucas Teixeira arrisca algumas manobras

A paixão por este esporte é uma das doutrinas que o médico passou ao filho, o estudante de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Gabriel Teixeira, 21 anos. Durante um ano, o jovem usou diariamente o skate para ir de casa, no bairro Bela Vista, às aulas do cursinho, no Independência. Apesar da vulnerabilidade em meio ao trânsito, Gabriel não deixava o pai preocupado, uma vez que era prudente ao se deslocar.

– Sempre dizia ao Gabriel para ir pela calçada e usar os equipamentos de segurança. E assim ele fazia – conta o médico.

Uso do skate nas ruas não é recomendado

Em abril deste ano, dezenas de skatistas se reuniram em São Paulo para promover o carrinho como meio de transporte alternativo. Alegavam que a prática é sustentável e saudável e deslizaram juntos por cerca de quatro quilômetros para chamar atenção à causa. O encontro foi batizado de Longboard Day e seu objetivo era reivindicar mais espaço nas ruas.

O Código de Trânsito Brasileiro não orienta, restringe ou prevê punições para quem utiliza skate nas vias. Entretanto, segundo a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), por questões de segurança, não é aconselhável utilizar skate nas vias públicas.

Sobre o uso do carrinho nas ciclovias, que acabam sendo opção também para quem se desloca de skate, a EPTC ressalta que os espaços são destinados preferencialmente para quem utiliza bicicletas.


De capacete embaixo do boné, Sérgio Brumn procura transitar por ruas menos movimentadas

Glossário

Downhill – Descida de ladeira em velocidade
Longboard – Tipo de skate maior que o usual
Shape (ou prancha) – A tábua do skate
Street – Modalidade livre em que o skatista usa a arquitetura urbana como obstáculo para manobras

Quanto custa se equipar

Skate – depende das peças, e pode variar de R$ 200 a R$ 2 mil
Luva – R$ 100
Capacete – a partir de R$ 70
Joelheira – R$ 140
Cotoveleira – R$ 50

As impressões de um iniciante, por Eduardo Uchôa (ilustrador de ZH)

“Eu tenho 44 anos e comprei meu primeiro skate em dezembro de 2011. O intuito era ir trabalhar com ele. Como não conhecia nada do esporte, comprei um modelo street usado. Uma semana depois, montei um longboard. Então, conheci outras pessoas da minha geração que andam também. Isso me motivou mais ainda.

Hoje, passados pouco mais de seis meses, mesmo sendo ainda iniciante, estou bem envolvido com longboard. Vou trabalhar todos os dias de skate e, quando posso, vou à pista do parque Marinha do Brasil. Estou começando a descer algumas lombas e aprendendo algumas manobras.

O longboard tem sido meu lazer e meu transporte. Com ele, vou cada vez mais rápido para o trabalho, economizo combustível, não poluo, e ocupo o espaço de um carro a menos no trânsito. Além disso, estou mais em forma do que quando corria e fazia ginástica regularmente”.

Comentar esta matéria Comentários (1)

Enio Hermann

Pela 2a vez tenho que ir ate a Brigada Militar de Gramado para retirar o skate do meu filho. Meu filho,MENOR, é colocado em situaçao de constragimento diante de seus amigos moradores e visitantes Pergunto: Baseado em que lei,fazem isso?? Preciso de orientaçao

22/07/2012 | 09h27 Denunciar

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