Uma das doenças neurológicas mais comuns, a esclerose múltipla tem recebido atenção especial de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, que acabam de divulgar um importante avanço no tratamento da enfermidade. Como ocorre em um computador após alguém pressionar o botão de reset, os médicos conseguem desligar e religar — sem deixar memórias anteriores — o sistema imunológico dos pacientes e, com isso, aumentar a esperança de uma vida sem sintomas.
O processo significa a estabilização da doença por meio da substituição do sistema imunológico com uso de células-tronco. É feito de forma semelhante à do transplante de medula óssea, mas com células do próprio paciente, selecionadas por meio de aférese (supressão da parte boa) e, então, congeladas, para depois serem devolvidas ao organismo por infusão.
As primeiras pesquisas no Brasil sobre o método começaram na década de 90, com animais em laboratórios e estratégias que buscavam recuperar pacientes de doenças autoimunes. O transplante — ou reprogramação — do sistema imunológico serve não apenas para pessoas portadoras de esclerose, mas também para pacientes de artrite reumática, diabetes tipo 1 e lúpus eritematoso sistêmico, entre outros.
Somente nos últimos cinco anos é que a técnica conquistou um protocolo de confiança (conjunto de normas éticas, informações e práticas de segurança). O primeiro transplante foi feito no Hospital Albert Einstein, em 2001. Hoje, o procedimento deixou de ser pesquisa e passou a ser aceito pelos convênios e pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde o aval da Sociedade Brasileira de Hematologia, dado no fim do ano passado.
Geralmente, o efeito do transplante é imediato em relação à estabilização, afirma o neurologista Amilton Antunes Barreira, professor titular de neurologia, psiquiatria e psicologia médica da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.
— Quando há alguma melhora, que não é a finalidade do transplante e nem é esperada, ela ocorre ao longo dos seis primeiros meses. Sabemos que para mais de 60% dos pacientes a doença fica estabilizada — comenta.
Saiba mais sobre a doença
:: A esclerose múltipla é uma doença neurológica crônica, de causa ainda desconhecida, com maior incidência em mulheres e pessoas brancas. Segundo o neurologista brasiliense Éber Castro, o mal atinge mais o continente europeu, onde há uma proporção de 100 pacientes por 100 mil habitantes. No Brasil, essa relação cai para 18 por 100 mil habitantes. A enfermidade leva à destruição das bainhas de mielina, que recobrem e isolam as fibras nervosas (estruturas do cérebro pertencentes ao sistema nervoso central).
:: Entre os sintomas mais frequentes, estão fraqueza muscular, rigidez, dores articulares e descoordenação motora. O doente perde o equilíbrio quando fica em pé, sente dificuldade para andar, tremores e formigamentos. Em alguns casos, a doença pode provocar insuficiência respiratória, incontinência ou retenção urinária e alterações visuais. Existe uma escala de 0 a 10 para classificar a gravidade da doença.
:: Se existe a suspeita de estar com esclerose múltipla, a primeira coisa a ser feita é ter certeza do diagnóstico. Deve-se então, procurar um médico neurologista, que é o profissional mais adequado a investigar e tratar pacientes com a doença.













