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13/02/2011 | 06h10

Esquizofrenia no cinema: Cisne Negro reacende discussão sobre a doença

Avanço nas terapias permite que esquizofrênicos consigam seguir com a vida sem internação

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Esquizofrenia no cinema: Cisne Negro reacende discussão sobre a doença Divulgação/
No drama fictício, as pressões de uma profissão que exige levar disciplina e dedicação ao extremo desencadeou a primeira crise de Nina Foto: Divulgação

Nina, uma bailarina de 28 anos. José Orsi, engenheiro, 27. Ela se preparava para estrelar o balé O lago dos cisnes, o papel mais importante de sua vida. Ele estava prestes a concluir uma pós-graduação em Economia na Universidade de Mississipi, uma das mais importantes do mundo na área. A pressão profissional desencadeou o primeiro surto de esquizofrenia em ambos. A diferença é que Nina é uma personagem vivida pela atriz Natalie Portman no filme Cisne Negro, recém estreado nos cinemas nacionais. Já Orsi é um homem de carne, osso e sentimentos, que vive em São Paulo com a doença — o mal atinge cerca de 1% da população mundial.

No drama fictício, a dificuldade de lidar com um diretor manipulador, com uma mãe superprotetora e com as pressões de uma profissão que exige levar disciplina e dedicação ao extremo foi o que desencadeou a primeira crise de Nina. Na dura história real, a vida longe de casa, os estudos exigentes e a eterna vontade de deixar o mundo dos cálculos para se dedicar à pintura foram o gatilho para o primeiro surto de Orsi. Nos dois casos, ambos desenvolveram alucinações, um dos sintomas mais comuns da doença, que ainda não tem causa comprovada.

Nina via feridas e sangramentos pelo corpo, que desapareciam num piscar de olhos. Para o engenheiro em crise, a televisão falava e os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos eram amigos que lhe entregariam uma homenagem em breve.

— Além das alucinações, perda da memória e dificuldade de manter a afetividade são outros sintomas muito comuns da esquizofrenia — conta Rogerio Panizzutti, médico psiquiatra e professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Tanto Nina quanto José Orsi desenvolveram a doença tarde. Em geral, o problema se apresenta entre 18 e 20 anos. Ainda não há consenso sobre as causas da doença. Segundo os médicos, fatores como hereditariedade e migrações influenciam.

— Isso não significa que uma pessoa que tenha alguém na família com equizofrenia também vá desenvolver a doença, ela apenas tem mais chances de ter o problema. Não é uma herança obrigatória — explica Panizzutti.

Especula-se que outros fatores, como situações extremas e problemas no parto, também contribuam para o seu aparecimento.

Preconceito

A esquizofrenia é uma doença de altos e baixos. Momentos de sanidade são alternados com crises que envolvem síndrome de perseguição, alucinações, histeria e delírios. Em geral, nos momentos que entremeiam essas crises, surgem problemas secundários — o principal deles, a depressão, quase onipresente entre os pacientes. Especialistas estimam que 50% de todas as pessoas esquizofrênicas tentam suicídio e cerca de 10% conseguem dar fim à própria vida, seja em momentos de alucinação ou em função da depressão subjacente.Segundo o psiquiatra Cecílio Sepúlveda Teixeira, a esquizofrenia funciona muitas vezes como uma base.

— Sobre ela se desenvolvem problemas relacionados. Pacientes esquizofrênicos tendem a desenvolver com mais frequência problemas como transtornos obsessivos e oscilações de humor. Há casos em que, durante as crises, o paciente fica agressivo, em outros, ocorre retardo mental — afirma o especialista.

A diversidade de causas e sintomas sinaliza que o que se conhece como esquizofrenia pode ser na verdade uma série de doenças com sintomas parecidos. Para pacientes e médicos, o principal problema não é lidar com a própria saúde.

— Existe um preconceito muito grande com o paciente com esquizofrenia. A questão social fica muito prejudicada. Muitos ainda veem o esquizofrênico como aquela pessoa que tem que ser internada, mas os avanços nas terapias mostram que não é mais assim — conta o psiquiatra Cecílio Teixeira.

José Orsi também reclama do preconceito:

— As pessoas não olham diferente para quem tem diabetes ou pressão alta, não entendo por que tratar com distinção quem é esquizofrênico.

Conhecendo o problema

Saiba mais detalhes sobre a esquizofrenia:

Causas

* Questões hereditárias

* Migrações

* Traumas

* Problemas no parto

Sintomas

* Alucinações

* Apatia

* Percepção alterada

* Crises de depressão

Tipos

Paranoide — forma que mais facilmente é identificada com a doença, na qual predominam sintomas como desconfiança, sensação de perseguição ou comportamentos maníacos (mania de organização, de limpeza, rituais como usar sempre a mesma peça de roupa), além de agressividade.

Desorganizada — os sintomas afetivos e as alterações do pensamento são predominantes. As ideias delirantes, embora presentes, não são organizadas. Alguns doentes podem mostrar irritabilidade marcada associada a comportamentos agressivos. Existe um contato muito pobre com a realidade.

Catatônica — é caracterizada pelo predomínio de sintomas motores e por alterações da atividade, que podem ir desde um estado de cansaço até a excitação.

Indiferenciada — apresenta habitualmente um desenvolvimento de isolamento social, diminuição no desempenho laboral e intelectual. Observa-se uma certa apatia e indiferença relativamente ao mundo exterior.

Hebefrênica — com incidência na adolescência, é a forma mais agressiva da doença, e com probabilidades de prejuízos cognitivos e sociocomportamentais.

Tratamento

Uso de medicamentos para controlar as crises, além de estabilizadores de humor. Também são recomendados tratamentos com terapias ocupacionais e outras atividades que exercitem a sociabilidade.

Serviço

Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (Abre)

www.abrebrasil.org.br

abre@abrebrasil.org.br

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