Não seria surpreendente se na missa dominical da Catedral Metropolitana de Porto Alegre o sermão do padre Jacques Szortyka viesse inspirado em um dos episódios de House, seriado norte-americano que é fenômeno de audiência no mundo inteiro. Também não seria surpreendente se o padre Jacques reproduzisse aos fiéis diálogos entre o mafioso Dom Corleone e o cardeal de O Poderoso Chefão 3. Menos surpreendente ainda seria esbarrar no padre vestido com calção, camiseta e tênis, cantarolando algum hit de hip hop nas imediações da Usina do Gasômetro. Desde o dia 18 de janeiro, a Catedral Metropolitana de Porto Alegre, a principal igreja da Capital, tem como guardião físico e espiritual um padre nada convencional. Jacques Szortyka assumiu o posto após 10 anos de administração do padre Carlos Steffens, 49 anos, que atualmente se dedica à especialização em direito canônico no Rio de Janeiro. Foge do estereótipo de padre silencioso, de poucas palavras e voz quase inaudível. Tem 33 anos (a idade de Cristo), um par de olhos azuis, é jovem, entusiasmado, faceiro, como bem definiu um casal de noivos que o conheceu após uma das missas de domingo. É também fascinado pela tecnologia. Em seu escritório, na Catedral, tem a companhia inseparável de um notebook e de um smartphone. Pede para ser tratado por tu ou você. E faz questão de estar sempre com a barba e o cabelo impecáveis. O sorriso no rosto não muda nem para discorrer sobre temas desconfortáveis a homens de incontestável fé cristã.
– Já sofri assédio de homens e de mulheres - conta ele, sem o menor constrangimento. – Não posso xingar essas pessoas, porque é o sentimento delas. Mas deixo bem claro que sou muito feliz no sacerdócio.
Passaram-se apenas cinco anos desde sua ordenação como padre até a posse na Catedral Metropolitana. Há dois meses, anunciou em seu Twitter: "Convite: Próximo domingo, às 10h, Dom Dadeus me dará a posse na Catedral de Porto Alegre. Conto com as orações de todos".
Desde então, assume as funções administrativas, como chefiar nove funcionários e zelar pelo espaço físico da catedral. É o mestre da palavra, responsável pelas missas e pela orientação de grupos pastorais e catequeses, além de ministro dos sacramentos, batizados e casamentos. Padre Jacques tem Twitter, Orkut, Facebook, MSN e Skype. É fã do seriado protagonizado por Gregory House, o médico ateu confesso, capaz de desvendar os maiores mistérios da medicina ao diagnosticar casos bizarros. Acredita na religiosidade do personagem – "um cara que está sempre em busca da verdade". Também adora Glee e Friends. Lança mão da tecnologia para evangelizar e usa trechos de filmes e séries em apresentações de PowerPoint em suas palestras. Bem-humorado, confessa um "pecado":
– Eu sempre baixo pela internet os episódios (dos seriados americanos) antes de passar na TV aqui no Brasil – diverte-se. – Tem até uma comunidade no Orkut que diz 'pirataria não, cópia de segurança' – brinca, tomando chimarrão e exibindo a térmica adesivada com o escudo do Internacional.
Padre Jacques acorda todos os dias às 6h30min e só volta para o quarto que ocupa na Casa Paroquial, um anexo da catedral, às 22h. Nesses dois meses de guardião da igreja, já conquistou a simpatia de todos que por lá trabalham há mais tempo.
– Estou muito motivada com sua chegada, porque ele vai cativar mais fiéis para a Catedral. Seus sermões não deixam ninguém cochilar – comemora Lenedi Ferreira, 62 anos, secretaria da catedral há cinco. – Ele é moderno, mais jovem e mais dinâmico. Por isso mexe mais com a comunidade. É capaz de ir à porta da catedral apertar a mão de cada um dos fiéis.
A rotina do padre é organizada pela secretaria em uma planilha com todos os horários e compromissos do mês. Está completa até agosto. De segunda a sexta, ele reza duas missas, dedica uma hora e meia para manter a saúde e o corpo em forma na academia de ginástica, permite-se meia hora de sesta, duas horas para reuniões de catequese, conselhos e pastorais e outras duas para o estudo.
Em vídeo, confira os bastidores da reportagem:
Natural de Eldorado do Sul, sente-se integrado à comunidade e ao bairro. Às quintas-feiras, faz aula de italiano em uma escola no Centro. É um preparatório para a temporada de pós-graduação em filosofia em uma universidade de Roma, na Itália. Quando vai ao supermercado, diverte-se com a surpresa das pessoas frente à sua figura.
– Elas dizem 'mas padre, o senhor aqui?'. Padre tem que comer, né? Não vive de vento – sorri.
Na contramão da trajetória percorrida por muitos padres – que decidem pelo ofício ainda crianças – ,Jacques optou pela carreira no fim da adolescência, contrariando a vontade dos pais. Primogênito dos três filhos de Joaquim Ribeiro Rodrigues, 57 anos, e Maria Inês Szortyka Rodrigues, 52, teve seu contato mais direto com a igreja aos 18 anos – impulsionado pela paixão por uma garota. Juntou-se ao grupo de jovens que ela frequentava só para estar mais próximo da amada. Conquistou seu coração e namoraram durante alguns meses. Em pouco tempo, seu interesse inverteu-se.
– Passei a gostar do grupo pelo grupo, não mais pela guria – lembra. – Meus pais brigavam comigo porque eu passava mais tempo na igreja do que em casa.
Não tardou para transformar a rotina. Abandonou as visitas aos CTGs aos sábados, onde adorava dançar, para seguir a disciplina da igreja. A pressão dos pais – ele pedreiro, ela, costureira – para que "deixasse disso" não diminuiu. Queriam que Jacques tomasse um rumo na vida. E ele decidiu servir a Aeronáutica. Desistiu no primeiro dia, ao voltar para casa esbaforido depois de uma bateria de testes físicos. Procurou um padre de sua cidade para se aconselhar. Foi quando ouviu uma pergunta que soou como um soco no estômago: "Você nunca pensou em ser padre?".
– Deus não manda um anjo com a voz do Cid Moreira dizendo qual é a nossa vocação. Ele vai mostrando essa vocação por caminhos que, a princípio, a gente não entende.
Até sua ordenação, quando de fato se tornou padre, aos 28, ele enfrentou nove de estudos em filosofia e teologia, resistindo à tentação de um CTG localizado logo em frente ao seminário, em Viamão. Hoje, se diz feliz e realizado com a escolha vocacional, o que lhe dá tranquilidade e nenhum aborrecimento para tocar em assuntos polêmicos dentro da Igreja Católica, como pedofilia, homossexualidade e camisinha. Com a oratória de quem não contesta o caminho trilhado, sintetiza:
– Por mais que mude a mentalidade das pessoas, a Igreja jamais vai ter autoridade para permitir questões como a camisinha e o divórcio sem trair o Evangelho.
Sobre homossexualismo, ele lembra de uma conversa com um grupo de jovens:
– Uma vez me perguntaram: "Padre, então vou viver na secura?". Eu disse: "Olha, meu caro, sou hetero, vivo na secura e sou extremamente feliz". Não é porque sou hetero e tenho atração pelo sexo oposto que terei que ter alguma relação. Com o homossexual, funciona da mesma forma. A Igreja não condena o homossexual, mas o ato homossexual – explica.
O padre, aliás, não nega a dificuldade do celibato, mas o defende como o grande tesouro da Igreja Católica:
– Sou homem, e a gente sente atração – admite. – Se não sentisse, procuraria um psicólogo para descobrir o que há de errado comigo. Por isso, a orientação espiritual é tão importante, se apegar forte na oração e canalizar as energias. Diante da natureza humana e do assédio, é difícil a luta de viver o celibato, mas, com a graça de Deus, tenho conseguido vencer.
Por canalizar energias, esforça-se em uma rotina espartana de exercícios físicos diários e previne tentações, como sair com grupos de amigos para fazer o que pessoas da sua idade fazem - dançar, paquerar e se divertir.
– O equilíbrio permite viver o sacerdócio de forma plena. Caso contrário, eu seria o padre santinho diante da comunidade, mas com vida dupla paralela. O coração humano não se realiza dividido.
Defensor da boa aparência de um padre – "somos a vitrina da paróquia" – , mas crítico da vaidade excessiva, Jacques usa três diferentes perfumes. Em compensação, o guarda-roupa é restrito apenas a trajes de padre e às roupas esportivas. Com elas, malha durante uma hora e meia todos os dias. Nos finais de semana, pratica corrida na Usina do Gasômetro, sempre acompanhado de seu hip hop no MP3 Player. Há três anos, num exame de rotina, levou bronca da médica. Ela o sentenciou à morte antes dos 40 anos caso os triglicerídeos continuassem nas alturas. De lá para cá, perdeu 24 quilos, só come salada e pão integral e abandonou o jantar composto por dois cheeseburgueres e uma pizza grande. À noite, permite-se apenas um lanche leve - e hoje ostenta 90 quilos em 1m83cm.
Devoto de Josemaria Escrivá, fundador da Opus Dei, padre Jacques gostou do best-seller O Código da Vinci, de Dan Brown. Devorou o livro, aliás. Mas observa:
– Quem não tem conhecimento não consegue distinguir entre realidade e ficção. Ele fala em monges da Opus Dei. Não há monges na Opus Dei – alerta.
Todos os anos, pouco antes da Semana Santa, gosta de assistir ao polêmico filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, por acreditar que as cenas reproduzem a realidade e "lembram o que o Senhor fez pelo próximo".
De folga às sextas-feiras durante a tarde, costuma visitar a casa dos pais, em Guaíba, e jantar com o irmão mais velho, em Eldorado do Sul. Os dois salários mínimos que recebe por mês são gastos em DVDs, livros de filosofia e presentes para a família. O apego aos pais e aos irmãos é evidente e muitas vezes declarado em olhos marejados. É a mãe, Maria Inês, quem confecciona as roupas de sacerdote do filho: túnicas, batinas e casulas. Tamanho afeto não impede que, vez ou outra, Jacques demonstre certa frustração com a resistência de alguns familiares que, segundo ele, ainda relutam em aceitar sua profissão.
– Às vezes, tenho de ouvir piadas de mau gosto sobre freiras e sobre a vida "fácil" de um padre. Já tive grandes discussões por causa disso. Apenas sonho em ser visto pelos familiares como um homem normal que é padre – desabafa.
A mãe jura que esse conflito é passado, tanto que se especializou em confeccionar roupas para padres.
– Quando soube da decisão de ele se tornar padre, fiquei surpresa, mas aceitei bem – conta. – Já meu marido teve uma crise. Não queria de jeito nenhum o filho mais velho padre. Dizia que não tinha criado filho para ser padre. Quando Jacques nos contou que queria ser padre, Joaquim achou que, na verdade, ele não queria era trabalhar. Não quis pagar o primeiro ano de seminário para o filho. Hoje, Joaquim baba por ele, é todo orgulhoso.













