Versão mobile

21/11/2009 | 03h40

Vídeo: Poeta doou 180 mil obras para o Banco de Livros da Fiergs

Acervo ocupava três apartamentos em Porto Alegre

Enviar para um amigo
Vídeo: Poeta doou 180 mil obras para o Banco de Livros da Fiergs Genaro Joner/
Marcon entre as dezenas de milhares de obras que conservou em um quarto Foto: Genaro Joner
LUIZ ANTÔNIO ARAUJO

luiz.araujo@zerohora.com.br

Ele acumulou mais de 180 mil livros em 70 anos de vida. Seduzido pela ideia de ajudar o projeto Banco de Livros, da Fiergs, a atingir a marca de 500 mil volumes a serem destinados à formação de bibliotecas para leitores carentes, o poeta e colecionador Itálico Marcon decidiu doar seu acervo, que ocupava três apartamentos em Porto Alegre

Recostado numa poltrona da sala de visitas de seu apartamento, Itálico Marcon, 70 anos, acaricia com a ponta dos dedos a cachorrinha Yorkshire Pity, sentada sobre as patas traseiras em seu colo. A temperatura da tarde de segunda-feira na Capital é amena – em torno de 25ºC –, e os vidros fechados das janelas ajudam a isolar o ruído do trânsito da Avenida Independência, a uma quadra de distância. Marcon fala devagar, com a voz levemente ofegante, do tipo que em alguns idosos sugere memória frágil. O raciocínio, porém, é rápido e certeiro. O dono da casa fala de uma de suas paixões, os livros, com entusiasmo de adolescente. O adolescente que, aos 14 anos, comprou em Coronel Pilar – então distrito de Garibaldi – o primeiro volume de uma biblioteca que haveria de ter 180 mil tomos.

– Eram as Poesias Completas, de Casemiro de Abreu. Era um livro lírico, amoroso, de saudade – recorda.

Marcon é procurador de Justiça aposentado, poeta, crítico literário e ensaísta. É também bibliófilo, um dos maiores do país. Sua biblioteca, que ocupava três apartamentos de três quartos no prédio onde vive, acaba de ser doada ao projeto Banco de Livros, uma iniciativa da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) destinada a reunir 500 mil volumes para montagem de acervos em comunidades carentes.


Marcon já era um leitor contumaz quando adquiriu o primeiro livro. Lia de tudo – especialmente poesia, mas também romances, ensaios, enciclopédias. Na mesma época em que comprou Poesias Completas, procurou Henrique Dalmás, diretor da Rádio Difusora de Garibaldi, de propriedade de religiosos capuchinhos, e se propôs a apresentar um programa sobre livros e música clássica. Nunca havia trabalhado em rádio, mas o programa, animado por sua paixão pela leitura e pela audição, permaneceu no ar por cinco anos.

Era cobra criada. Pouco depois de se casarem, em 1923, os pais, Pietro e Lucia Ignez, emigraram de Santa Lucia del Piave, no Vêneto, norte da Itália. Seu sonho era fare la America. Nascido em 1900, Pietro foi seduzido pelas histórias de um tio que se fixara no Rio Grande do Sul e relatara aos parentes o admirável mundo novo disponível abaixo do trópico. Pietro era carpinteiro e escultor de madeira e tinha o espírito aventureiro que faltava a Lucia Ignez, 26 dias mais velha e oriunda de família rica.

– Eles foram morar no meio do mato no interior de Garibaldi. À noite, minha mãe ouvia, apavorada, o rugido das onças – lembra Marcon.

Lucia Ignez nunca se recuperou do choque inicial na terra escolhida pelo marido. Sofria de uma irremediável saudade da Itália, que só reviu com Pietro uma vez, em 1974. Os dois jamais requereram cidadania brasileira. Em casa, falavam em dialeto vêneto e italiano. Pouco depois do nascimento do primeiro dos nove filhos, Gabriel, Lucia Ignez contraiu meningite. Os percalços não diminuíam seu amor pela prole, que supervisionava e alimentava com a dieta substanciosa dos imigrantes – polenta, massa, ovos, galeto e, para ela e Pietro, um copo de vinho tinto no almoço. O filho a define em três traços:

– Tristeza, bondade e amor.

A melancolia da mãe era compensada pela energia do pai. Pietro construiu com as próprias mãos a casa de material de dois andares para a qual a família se mudou no distrito de Coronel Pilar. Cultivava um pomar no qual Marcon relata existirem cem qualidades de uvas. Prosperou como carpinteiro, e alguns dos móveis que fabricou – em estilos veneziano, Luís 14 e Luís 15, entre outros – ainda estão em uso. Foi também sacristão e, por 25 anos, agente consular da Itália em Garibaldi. Marcon lembra de vê-lo dirigindo os oito filhos – o nono, Valeriano, morreu ainda bebê – em peças de teatro para amigos e vizinhos.

– Eram peças de cunho religioso, sobre a tomada de Jerusalém ou a luta contra os mouros – afirma.

Ligado à família e ao trabalho, Pietro não escondia o carinho especial pelo sétimo filho, talvez por ver em Itálico um pouco da sua própria curiosidade pelo mundo. Chegava a importar enciclopédias da Itália para satisfazer a voracidade do rebento pelos livros. Enviado ao grupo escolar das irmãs de São José, em Coronel Pilar, Itálico era um aluno normal – “interessado em história e geografia, péssimo em matemática, física e química”. Suas primeiras lembranças de sala de aula, aos cinco ou seis anos, são dominadas pelo vulto da jovem noviça Barberina, a primeira professora:

– Me atraíam muito os grandes seios dela.

Adolescente, Marcon foi enviado para estudar no Colégio Rosário, em Porto Alegre. Em pouco tempo, aproximou-se de escritores e intelectuais que considera seus mentores, como Mansueto Bernardi, Erico Verissimo e o irmão Elvo Clemente. Eles lhe apresentaram Herman Hesse, André Gide – “eu era eclético, me interessava a obra e não a ideologia” – e aquele que considera o maior poeta modernista do Rio Grande do Sul e cuja obra relançou em edição do Instituto Estadual do Livro: Tyrteu Rocha Vianna.

– Levei 20 anos para encontrar sua obra, sobre a qual havia lido num ensaio de Tristão de Athayde. É jocoso, humorístico e cria palavras novas, lembrando Oswald de Andrade – afirma.

Marcon seguiu lendo pela vida. Quando cursava direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), confessa ter faltado a aulas para ler. O hábito por vezes irritava a mulher, Mariza Marcon, com quem se casou em 1964. Seu acervo foi crescendo progressivamente – chegou a alcançar a impressionante marca de três livros por dia, em média. Sua biblioteca foi apontada em 1996 como a segunda maior do país, perdendo apenas para a do ex-ministro Delfim Netto. Hoje, a única filha, Márcia Kuhn Marcon, ocupa um dos três apartamentos reservados a sua biblioteca. O outro está vazio, e no terceiro vivem Itálico e Mariza, acometida por um acidente vascular cerebral em 2000, e a parcela remanescente de sua coleção.

– A metade de mim foi dada – afirma Itálico sobre a doação ao Banco de Livros.

Participação de Verissimo influenciou doação

A decisão de Itálico Marcon de doar 180 mil volumes ao Banco de Livros foi tomada de forma quase casual. A filha, Márcia, lera reportagens sobre o Banco de Livros, iniciativa da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs). Quando Marcon soube que o projeto envolvia o escritor Luis Fernando Verissimo – que autorizou a publicação de seu romance inédito, Os Espiões, na internet no momento em que a coleta atingisse 500 mil livros –, entusiasmou-se:

– Fui muito amigo de Erico Verissimo, pai de Luis Fernando. Pensei que, se o projeto tem a colaboração dele, deve ser merecedor.

O bibliófilo aproximou-se de Erico por intermédio de Mansueto Bernardi. Costumava frequentar a casa da Rua Felipe de Oliveira, que chamava de “Solar da Casa Branca”. O escritor recebia amigos e admiradores à noite, depois de um dia inteiro de trabalho, e Mafalda, sua mulher, providenciava cafezinho para os visitantes.

– Luis Fernando era muito tímido e ficava com a mulher (Lucia) na cozinha – diz o escritor.

Para o Banco do Livro, a doação de Marcon foi um alento e um problema. Entre os volumes entregues, estão edições raras de colecionador. O responsável pelo projeto, Waldir da Silveira, diz que o destino das obras valiosas será provavelmente a Biblioteca Pública do Estado:

– Não podemos tratar uma obra rara como se fosse uma edição ainda em catálogo. Teremos de dar a esse acervo um tratamento diferenciado.

Encaixotada, a biblioteca de Marcon está acomodada no pavilhão destinado à catalogação do material do Banco do Livro, próximo da sede da Fiergs, na zona norte de Porto Alegre. Na tarde de terça-feira, trabalhadores ainda retiravam caixas de um dos apartamentos de Marcon.

Marcon conservou milhares de volumes por “razões sentimentais e valor literário”.

– Mantive a Verbo, maior enciclopédia portuguesa, a Enciclopédia Italiana Trecanni, livros de arte – afirma, em meio aos livros na única peça de seu apartamento destinada a abrigá-los.

A filha, Márcia, que passou a ocupar um dos apartamentos antes destinado à biblioteca, afirma que os imóveis destinados ao acervo eram uma espécie de refúgio do pai:

– Ele entrava lá e sumia.

Itálico explica, com um sorriso:

– Ia até lá para ler, pesquisar e me embevecer olhando meus livros.

O procurador aposentado tem um conselho para outros biblófilos:

– Que procurem usufruir de seus livros o máximo possível.

Em tempos de e-book, o velho leitor se diz convencido de que o livro desfrutará de uma “coexistência pacífica” com os suportes eletrônicos. Marcon não é avesso a novas tecnologias – tem celular, mas depende da filha para acessar a internet. Professa, no entanto, confiança na sobrevivência do objeto ao qual dedicou 50 anos de devoção:

– O livro jamais será extinto. Gosto de sentir cheiro, abrir páginas com a espátula. Nenhum meio eletrônico vai fornecer a alegria que um livro dá. (Luiz Antônio Araujo)

Alguns títulos

Entre as obras doadas por Itálico Marcon ao projeto Banco de Livros, estão raridades e edições históricas

Letras da Província – De Moysés Vellinho. “É um livro de ensaios que elucida muitos aspectos da literatura do Rio Grande do Sul e do mundo”, afirma Marcon.

Exaltação – De Mansueto Bernardi. “É o primeiro livro editado por Mansueto. Constitui-se de um único poema, que lhe dá título”.

Fantoches – De Erico Verissimo. “Tenho a primeira edição, da Livraria do Globo. Mais tarde apareceu outra, fac-similada, com anotações e desenhos do próprio Erico. É o primeiro livro de Erico”.

Saco de Viagem – De Tyrteu Rocha Vianna. “Reeditei essa obra do poeta modernista numa edição do IEL”.

A Divina Comédia – De Dante Alighieri. “Doei uma edição italiana do século 18”.

Comentar esta matéria Comentários (0)

Esta matéria ainda não possui comentários

Siga os perfis de ZH no Twitter

  • zerohora

    zerohora

    Zero HoraAcidente na BR-116 deixa um morto na madrugada desta sexta-feira. http://t.co/SQyovEH8Tuhá 1 horaRetweet
  • zerohora

    zerohora

    Zero HoraObama lamenta a morte do escritor Gabriel García Márquez: http://t.co/XhYaDM6g9jhá 2 horas Retweet
clicRBS
Nova busca - outros