No museu da Academia Nacional de Medicina (ANM), no Rio de Janeiro, a imagem de uma estranha figura chama a atenção. Cabelos curtos, repartidos do lado, casacão e aspecto viril, aquela é, embora não pareça, uma mulher: Maria Josefina Matilde Durocher, a primeira parteira a receber licença para exercer o ofício no país e símbolo dessa atividade. Mais conhecida como Madame Durocher, ela nasceu em Paris, em 1809, e veio para o Brasil aos 7 anos. No Rio, onde fixou residência, se tornou também a primeira mulher a integrar a ANM, a mais antiga instituição de medicina do Brasil, que completa 180 anos hoje. A curiosa história da primeira acadêmica revela também um pouco mais sobre a evolução da medicina no Brasil.
Ela usava trajes masculinos para poder trabalhar, já que muitas vezes precisava sair à noite para atender a seus pacientes explica Marcos Moraes, presidente da ANM. E naquela época, mulheres sozinhas à noite eram tidas como prostitutas.
O
trabalho que a tornou conhecida
realizou mais de cinco mil partos não foi a a primeira ocupação profissional de Madame Durocher. Em 1829, depois da morte da mãe, a florista Ana Durocher, que se estabeleceu aqui como comerciante, Maria Josefina passou a comandar a loja da família.
D. Pedro II assistia às reuniões da ANM
Foi só após o assassinato do seu companheiro, o negociante francês Pedro David, três anos depois, que Maria Josefina matriculou-se no Curso de Partos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
A partir daí, passou a se dedicar aos estudos e, depois, à profissão. Para exercê-la, usando o codinome Madame Durocher, optou pelos trajes masculinos, que considerava confortáveis e favoreciam o trânsito pela cidade.
Ela atendia de escravas a princesas e, em 1866, se tornou a parteira da Casa Imperial lembra a museóloga Kátia Costa e Silva, que cuida do acervo da ANM.
Em 1871, Madame Durocher - que
participou do nascimento da Princesa Leopoldina, filha de D. Pedro II
foi convidada a ingressar na Imperial de Medicina, mais tarde, Academia Nacional de Medicina. Ela passou a frequentar as reuniões da entidade, publicando também diversos artigos sobre saúde. Sua influência ali foi tamanha que a academia criou, em 1909, o Prêmio Durocher, dado até hoje a trabalhos de destaque em obstetrícia e ginecologia.












