Versão mobile

16/05/2009 | 08h10

Comportamentos compulsivos geram sofrimento e são de difícil tratamento

Quando ações provocam sensação de impotência e descontrole, é hora de procurar um especialista

Enviar para um amigo
Comportamentos compulsivos geram sofrimento e são de difícil tratamento Francis Bacon, Reprodução /
Autorretrato, de Francis Bacon: na tela de 1971, o pintor inglês escolhe a deformação doentia Foto: Francis Bacon, Reprodução

Compulsões são comportamentos ou pensamentos repetitivos realizados com a intenção de aliviar algum desconforto físico, um medo ou uma ansiedade. Mesmo sendo atos voluntários, tornam-se irresistíveis e fora de controle. É uma agitação irracional que transforma tarefas rotineiras em ações obrigatórias e exaustivas. Comer e lavar as mãos, por exemplo, viram hábitos frequentes e exagerados. Quem sofre com compulsão come além da conta ou lava as mãos seguidamente, dezenas de vezes ao dia, sem necessidade. O resultado não poderia ser outro além da frustração, da vergonha e do medo de nunca se livrar da doença.

As compulsões se apresentam de várias formas – a mania de colecionar coisas inúteis, como jornais velhos e caixas vazias, sem que o paciente consiga jogá-las fora. A lista passa por arrancar os cabelos (tricotilomania), tomar banho por quatro ou cinco horas ininterruptas ou se obrigar a rezar 10 vezes antes de dormir. Um caso extremo foi retratado no filme Melhor É Impossível, em que o personagem representado pelo ator Jack Nicholson utilizava vários sabonetes para lavar as mãos quando chegava em casa ou durante o banho e tinha dificuldades em pisar nas divisas das lajotas das calçadas.

Mas apenas os casos extremos sinalizam doença? Não. Há vários níveis de compulsão. Porém, para diferenciar a enfermidade de manias cotidianas, comuns a qualquer um, é preciso focar as atenções nas consequências. Se fazem a pessoa perder muito tempo por dia em apenas uma tarefa, se trazem uma sensação de descontrole ou impotência e se acarretam problemas de relacionamento familiar, algo pode estar errado. Nessa hora, nada melhor do que procurar um especialista.

– Em linhas gerais, é preciso saber se a compulsão resulta em prejuízos sérios para a vida da pessoa. A partir do reconhecimento, por parte do paciente, de que tais comportamentos são excessivos e lhe causam prejuízos, é que se torna possível o tratamento – explica Aristides Cordioli, professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O problema nunca vem sozinho. Costuma ser precedido por medo, angústia e insegurança. Segundo a psiquiatra Luciana Nerung, da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, quem sofre com ansiedade costuma sentir alívio durante a compulsão. 

– Por causa da ansiedade, o paciente tem mais dificuldade de controlar o impulso – ressalta.

Outro caso é o de depressão pós-parto. Mães inexperientes e inseguras podem se preocupar excessivamente com os filhos. Um exemplo é deixar de dormir para verificar se o bebê, minuto a minuto, se está respirando.

Novas manias

Com a disseminação dos computadores e do acesso à internet, algumas compulsões surgiram e outras mudaram de cara. Uma delas é o colecionismo, a mania de se guardar qualquer coisa por muito tempo, como jornais, revistas e cartas velhas, sem conseguir se desfazer. No mundo virtual, essa prática foi estendida aos e-mails.

Segundo o psiquiatra Aristides Cordioli, algumas pessoas não conseguem se desfazer de nada que recebem pela caixa do e-mail. Ficam guardando mensagens por muito tempo, sem ter coragem de apagá-las. Além disso, outra prática comum é baixar qualquer programa da internet, durante muitas horas.

– Acontece muito com música. A pessoa passa o dia baixando sem nem se interessar. Com o tempo, nem sabe mais o que baixou ou que músicas tem no computador – exemplifica.

Hábito que pode ser potencializado pela compulsão por internet. Nesse caso, o usuário passa muito tempo conectado. Quando está fora do computador, a mente é ocupada por um único pensamento: fazer o login (comando de acesso à rede), como explica a psiquiatra Carla Bicca, da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.

– O paciente perde a noção do tempo quando está na internet e deixa a vida fora do mundo virtual de fora. Negligencia família e prefere fazer amizades online. Deixa de lado até mesmo cuidados com a saúde –  diz Carla.

Confira algumas das técnicas terapêuticas utilizadas por especialistas em diferentes casos de compulsão:

As técnicas
 Comida
Compra-se uma barra de chocolate. O paciente pode comer um quadradinho por vez, com intervalos mínimos de 30 minutos. O objetivo é fazê-lo vencer o impulso de comer tudo de uma vez só. Com a evolução do quadro, a pessoa começa a consumir o doce em intervalos cada vez maiores de tempo, até superar a compulsão.
Verificação
Nesse caso, a pessoa checa constantemente se o gás está desligado, se a porta está trancada ou se a torneira foi fechada. Os terapeutas indicam que ela observe o comportamento de outras para perceber que o hábito é muito exagerado. Além disso, pedem que a checagem seja feita apenas uma vez. Em seguida, deve-se conter o ímpeto de fazer novas verificações. Com o tempo de habituação, a aflição acaba passando.
Lavar as mãos
Ao tocar algo considerado sujo, o paciente deve esperar pelo menos uma hora e meia para lavar as mãos. Nesse intervalo, ele pode esquecer a vontade. Outro exercício utilizado pelos terapeutas é fazer a pessoa lavar as mãos apenas por motivos de higiene: depois de usar o banheiro ou antes das refeições. Além disso, é indicado tocar em algo considerado sujo por 20 minutos, até passar a aflição inicial.
Colecionismo
É preciso estabelecer objetivos e tentar conseguir um ambiente mais organizado, menos obstruído e agradável para se viver. O paciente pode começar a jogar a quinquilharia fora aos poucos e, com o tempo, perceber os benefícios de viver em uma casa menos cheia de materiais inúteis.

Siga perfis de ZH no Twitter

  • zerohora

    zerohora

    Zero HoraTermina o amistoso da Seleção em Hamburgo: Brasil 3 x 1 Dinamarca.há 23 minutosRetweet
  • zerohora

    zerohora

    Zero HoraGol! Dinamarca diminui. Brasil 3 x 1 Dinamarca.há 45 minutosRetweet
clicRBS
Nova busca - outros