Em uma frestinha encontrada entre pinheirinhos e pessoas, Gabriela de Assafrão Mello, seis anos, espiava, na fila do shopping, o Papai Noel. Sentado na suntuosa cadeira, todo vestido a rigor, o homem de barba branca estava ali há horas, ouvindo pedidos, desculpas e exclamações sorridentes.
Com a menina dos cabelos dourados não foi diferente. Gabi sentou no colo do velhinho, deu um beijo no rosto dele e fez um pedido que já sabia de cor.
Eu queria muito uma bicicleta. Posso ganhar? Eu me comportei este ano.
Para os avós que acompanhavam a menina, a visita à casa do Noel surtiu efeito porque a barba dele era natural. Se o personagem estivesse de máscara ou com algodão colado no rosto, o risco de Gabi não acreditar era maior.
Diante da dúvida das crianças e de perguntas engraçadas como onde estão as renas dele?, como ele desceu pela chaminé ou por que não ganhei o presente que eu pedi?, os pais devem contar a verdade sobre a fábula natalina? De acordo com os especialistas, a fantasia que envolve o personagem é importante para as crianças, principalmente para a criatividade. Mas ficar mentindo o tempo todo e chantageando os pequenos para que eles se comportem em troca de um presente não tem função educativa.
O mito anima a fantasia, a imaginação, e todos esperam a surpresa do Papai Noel. Só que o mais difícil é convencer os pais de que presentes não são negociáveis, a gente apenas os dá. A época de festas deve ser de gratuidade, de estar bem afirma o pedagogo Euclides Redin, doutor em Ciências da Educação.
Com a mescla de castigos, proibições e discursos opressivos relacionado à figura do Papai Noel, o lado positivo da fábula vai embora, e acaba se transformando unicamente em um personagem do consumo. Então, é melhor que os pais conversem com a criança, contem a verdade e ofereçam os presentes de forma mais honesta e menos traumática.
A mãe precisa dizer a verdade, é como brincar com fadas e gnomos. Falamos, criamos ambientes, mas sabemos que não existem. Em uma determinada idade, a criança percebe o que não é verdade explica Euclides.
Para a psiquiatra Magali Rieger, o papel do velhinho é positivo para as crianças quando não é utilizado como ameaça e para trazer medo. Para não tirar a fantasia da criança, quando ela perguntar sobre a veracidade do personagem, o ideal é fazer novos questionamentos. Solicite a opinião de seu filho, pergunte por que ele desconfia, o que entende sobre o assunto. Assim, é possível respeitar aquilo que o pequeno quer saber, mantendo a fantasia conforme a necessidade.
Os valores mudaram e hoje existe a necessidade de transformar as crianças em adultos. Elas descobrirão a verdade, mais cedo ou mais tarde, cada um no seu ritmo diz a psiquiatra.













