Relações tecnolóigicas14/12/2013 | 04h00

Internet gera nova onda de conscientização democrática em países árabes

Uso das redes sociais dissemina novas ideias em países que passaram pela chamada 'primavera árabe'

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Thomas L. Friedman

E assim verifica-se que houve dois despertares no mundo árabe.

Existem as revoluções radicais de que você ouviu na Tunísia, Egito, Síria, Iêmen e na Líbia, nenhuma das quais produziu ainda uma democracia estável e inclusiva. Entretanto, existem também as revoluções radicais de que você nunca ouviu falar, se desenrolando na Arábia Saudita e em outras monarquias Árabes do Golfo. As evoluções envolvem uma mudança sutil, porém real nas relações entre os líderes e o seu povo, e você pode percebê-la mesmo em uma breve visita à Arábia Saudita, Dubai e Abu Dhabi. Os líderes do Golfo ainda não têm tempo algum para uma democracia de um homem só e de um só voto. Contudo, após a Primavera Árabe, estão profundamente preocupados com a legitimidade, que estão descobrindo não poder ser comprada com mais subsídios – ou passada de pai para filho. Assim, progressivamente mais líderes estão convidando os seus povos a julgá-los com base em seu desempenho – ao melhorar escolas, criar empregos e consertar os esgotos – e não apenas como resistem a Israel ou impõem o islamismo.

E graças, em grande parte, à internet, mais pessoas estão simplesmente fazendo isso. O papel da internet foi superestimado no Egito e na Tunísia. No entanto, é subestimado no Golfo, onde, nessas sociedades mais fechadas, o Facebook, Twitter e YouTube estão fornecendo um espaço totalmente abertos para homens e mulheres se falarem – e apoiarem seus líderes. — Não leio mais os jornais locais — , um jovem saudita fã de tecnologia me contou. — Recebo todas as notícias pelo Twitter — . Já chega de jornais controlados pelo governo.

A Arábia Saudita sozinha produz quase a metade de todos os tweets do mundo árabe e está entre as nações mais ativas no Twitter e no YouTube do mundo. De longe, esses árabe-sauditas com o maior número de seguidores no Twitter e no YouTube tendem a ser os pregadores fundamentalistas Wahhabi, mas estão sendo alcançados pelos satiristas, comediantes e comentaristas, que gozam de todos os aspectos da sociedade saudita, incluindo – geralmente indiretamente – a instituição religiosa, que não é mais intocável.

O Rei Abdullah da Arábia Saudita que, em padrões do Golfo Árabe, é um verdadeiro progressista, permanece bastante popular, mas a burocracia do seu governo é vista como inerte e frequentemente corrupta. É por isso que os usuários do Twitter árabe-sauditas recentemente criaram essas hashtags árabes: "#Se eu encontrasse o Rei, eu lhe diria"; "#Do povo para o Rei: a educação está em risco" e "#O Que Você Gostaria de Dizer Para o Ministro da Saúde?" (após vários incidentes em hospitais).

Houve chuvas torrenciais quando eu estive na Arábia Saudita recentemente e o jornal saudita, Al-Sharq al-Awsat, publicou um quadrinho com três homens respondendo a seguinte pergunta: Por que todas as ruas de Riyadh ficaram alagadas? As respostas oficiais do governo: "As ruas não ficaram alagadas. Isso é apenas um boato maldoso". O xeique responde: "É tudo por causa dos pecados das meninas da Universidade Princesa Nora". Os cidadãos dizem: "É por causa da corrupção" –, mas então o desenho mostra um braço com o rótulo "censura" vindo de fora da página para remover o comentário. Isso está em um jornal saudita!

Nos Emirados Árabes Unidos, um funcionário do governo recentemente ficou constrangido ao ser filmado por um celular, após um acidente de trânsito, batendo com o cordão do seu keffiyeh em outro motorista, um trabalhador asiático. O vídeo se tornou viral pelo Golfo.

As pessoas estão perdendo o medo – não de se revoltar, mas de exigir um governo honesto e confiável. Em novembro, um amigo saudita compartilhou comigo um vídeo que se tornou viral por lá no WhatsApp que foi postado por um homem pobre cujo telhado tinha goteiras durante as chuvas, até mesmo no berço do seu bebê. Ele pode ser visto espreitando pela casa encharcada, dizendo: — Sou saudita. É assim que eu vivo. (…) Onde está o Ministro da Habitação? Onde estão os bilhões que o Rei doou para a habitação? (…) Onde estão os meus direitos? (…) Sinto que estar em casa e estar na rua é a mesma coisa — .

Ouvi muitas histórias assim durante uma conversa com jovens sauditas e árabes, que descobri serem tão impressionantes, conectados e altamente aspirantes a reformar os seus países quanto qualquer um dos grupos revolucionários no Egito. Porém, querem evolução e não revolução. Eles assistiram aos vídeos de Cairo e de Damasco. Pode-se sentir a energia deles – desde os movimentos populares para permitir que as mulheres dirijam até o jovem saudita que sussurra que está tão cheio do islamismo puritano que domina o seu país que se tornou ateu, e ele não está só. Ateus sauditas? Quem diria?

Isso é que é reforma – em Dubai, o governo estabeleceu um plano para 2021, e todos os 46 ministérios e agências regulatórias têm Indicadores de Desempenho Chave de três anos, ou IDCs, que têm de cumprir para chegar lá, indo desde melhorar o desempenho dos dubaienses de 15 anos em ciência geral, matemática, e leitura a até facilitar ainda mais a abertura de um novo negócio. Todos os 3600 IDCs são carregados no painel de um iPad que o governante, o Xeique Mohammed bin Rashid, acompanha todas as semanas. Maryam al-Hammadi, de 48 anos, a diretora de desempenho do governo, provoca medo no coração de todos os ministros de Dubai porque todos os meses ela classifica quem mais está progredindo na direção de cumprir os seus IDCs, e Mohammed recebe a lista. É melhor não ser o último na classificação.

Hammadi me mostrou o painel e explicou que Mohammed estava exigindo que — cada agência do governo tenha o mesmo desempenho do setor privado em satisfação e serviço ao cliente — . O público receberá um relatório anual.

Novamente, isso não tem a ver com a democracia. Tem a ver com os líderes sentindo a necessidade de conquistar a legitimidade. Porém, quando um líder faz isso, os outros sentem a pressão para copiar. E isso leva a mais transparência e a mais responsabilidade. E isso, e mais o Twitter, não se sabe aonde vai levar.

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