Passado nebuloso15/03/2013 | 15h08

Padre sequestrado durante ditadura argentina se diz em paz com o Papa

Em comunicado, Vaticano afirma que associar o Pontífice ao regime militar é calúnia

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O missionário jesuíta Francisco Jalics, membro da ordem religiosa sequestrado junto com um colega pela junta militar argentina nos anos 70, se disse em paz com o papa Francisco, depois dos questionamentos feitos à atitude do Sumo Pontífice em relação a esse fato, indicou em um comunicado divulgado nesta sexta-feira.

Jalics, de origem húngara e que foi viver no sul da Alemanha nos anos 1980, lembra, neste texto divulgado no site da ordem jesuíta na Alemanha, seus anos na Argentina e seu sequestro junto com Orlando Yorio, um outro membro da ordem, hoje falecido.

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"Não posso me pronunciar sobre o papel do padre Bergoglio (futuro papa Francisco, nr) nesses sequestros", afirma o padre no texto.

Ele indica, entretanto: "Deixei a Argentina após a nossa libertação. Depois, tivemos a oportunidade de discutir os fatos com o (então) padre Bergoglio, que nesse meio-tempo se tornou arcebispo de Buenos Aires."

"Nós celebramos juntos uma missa pública. Estou em paz com o que aconteceu e considero a história encerrada", declara, acrescentando: "Desejo que o papa Francisco receba as bênçãos divinas no exercício de sua missão."

Os críticos de Jorge Bergoglio suspeitam que esteja envolvido no sequestro dos missionários jesuítas Orlando Yorio e Francisco Jalics, capturados em 23 de março de 1976 e depois torturados em um centro de detenção conhecido por sua crueldade, a Escola de Mecânica da Marinha (ESMA), antes de ser libertados cinco meses mais tarde.O prelado argentino dirigia na época a ordem dos jesuítas do país.

Acusações são calúnias, diz Vaticano

As acusações contra o Papa Francisco por sua conduta durante a ditadura argentina (1976-1983) são "caluniosas e difamatórias", indicou nesta sexta-feira o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.

— A matriz anticlerical dessas campanhas são conhecidas — afirmou o porta-voz papal, ao referir-se às acusações contra o Jorge Bergoglio por suposto envolvimento na detenção de dois missionários jesuítas torturados pela ditadura em 1976.

— A campanha contra Bergoglio é conhecida, se refere a fatos de há muito tempo e foi promovida por uma publicação que, em várias ocasiões, é caluniosa e difamatória. A origem da esquerda anticlerical é notória — acrescentou Lombardi falando à imprensa.

— Ele fez muito para proteger as pessoas durante a ditadura militar — prosseguiu o porta-voz, que recordou que quando Bergoglio se converteu em arcebispo de Buenos Aires, "pediu perdão pela Igreja não ter feito o suficiente durante a ditadura".



A controvérsia sobre a atitude da Igreja durante os anos de chumbo da ditadura voltou à tona após a eleição Bergoglio, que compareceu como testemunha em vários processos — sem que jamais a justiça demonstrasse qualquer envolvimento — e sempre negou ter colaborado com a repressão.

O arcebispo de Buenos Aires foi citado em três ocasiões, apenas como testemunha, para declarar em julgamentos relacionados com esse período. Em uma ocasião, pelo desaparecimento de um padre francês, e em outra pelo roubo de filhos dos desaparecidos.

Os críticos de Bergoglio também afirmam que ele teve relação com a detenção de dois missionários jesuítas, Orlando Yorio e Francisco Jalics, presos em 23 de março de 1976 e liberados cinco meses depois. Eles foram torturados na Escola de Mecânica da Armada (ESMA). Na época, o prelado argentino comandava a ordem dos jesuítas.

— Fiz o que pude, com a idade e as poucas relações que tinha, para interceder a favor das pessoas sequestradas —  afirmou Jorge Bergoglio em um livro de entrevistas.

Lombardi enfatizou que o militante pelos direitos humanos e Prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, assegurou que o novo pontífice "não tem vínculo algum que o relacione com a ditadura".

Mais cedo, o cardeal australiano George Pell, eleitor no conclave, classificou de mentira as acusações de cumplicidade do Papa com a ditadura argentina.

Para o arcebispo de Sydney, membro do colégio cardinalício, "as histórias foram desmentidas há anos".

— O diretor da Anistia Internacional daquela época disse que as acusações são completamente falsas. Eram difamação e mentiras — declarou Pell à rádio ABC.

Ao ser questionado se o Papa Francisco deveria falar sobre o tema, disse que não, "de maneira nenhuma".

A repressão desses anos deixou mais de 10.000 de desaparecidos, segundo cifras oficiais, e mais de 30.000, segundo a organização não-governamental Mães da Praça de Maio.

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