Conivência ou impotência?15/03/2013 | 05h33

"Fiz o que pude", diz o papa Francisco em autobiografia sobre proteção a religiosos durante a ditadura argentina

Escolha de Jorge Mario Bergoglio como pontífice levanta questões sobre a postura do ex-cardeal de Buenos Aires ao longo do período

Enviar para um amigo
"Fiz o que pude", diz o papa Francisco em autobiografia sobre proteção a religiosos durante a ditadura argentina Ali BURAFI/AFP
À época de arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio observa a figura da Virgem Maria, durante missa no santuário de San Cayetano, em 2004 Foto: Ali BURAFI / AFP

O passado de Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, já provoca um cisma. Não na Igreja, mas na esquerda argentina. De um lado, o jornalista Horacio Verbitsky, que investigou, escreveu artigos e lançou o livro El Silencio, sobre a suposta conivência de Bergoglio com o regime militar argentino (1976-83). Também a presidente do grupo Madres de la Plaza de Mayo — Linha Fundadora, Nora de Cortiñas.

> Linha do tempo: O caminho de Jorge Bergoglio ao papado
> Em site especial, leia todas as notícias sobre a Sucessão na Igreja
> Acompanhe a cobertura do enviado do Grupo RBS ao Vaticano

De outro lado, o prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, para quem bispos foram, sim, coniventes — mas não Bergoglio, que teria visto frustradas suas tentativas de intervir.

Em seu livro, Verbitsky sustenta que Bergoglio não apenas era próximo aos militares, mas foi determinante na detenção de Orlando Yoro e Francisco Jalics, sacerdotes jesuítas torturados na Escola de Mecânica da Marinha (Esma). Os religiosos foram encontrados nus e drogados, em um descampado, cinco meses após terem sido sequestrados.

Na quinta-feira, o jornalista relatou que recebeu telefonemas e e-mails inconformados em razão da eleição de Bergoglio como papa e que ficou especialmente tocado pela mensagem de Graciela Yoro, irmã de Orlando Yoro, que morreu em 2000. Foi Orlando quem acusou Bergoglio de tê-lo entregue com Jalics aos militares. No e-mail, Graciela diz que ela e seu outro irmão, Adolfo Yoro, estão contrariados com a ascensão do religioso argentino ao topo da Santa Sé.

Já Esquivel se mostra compreensivo em relação ao Papa. Diz saber que bispos costumavam pedir a libertação de militantes e sacerdotes, mas que não eram atendidos. Sendo assim, segundo Esquivel, é natural que ele tenha tentado, mas não tenha conseguido proteger os dois religiosos, que faziam um trabalho social com os pobres na zona de Bajo Flores, em Buenos Aires.

E é isso que argumenta Bergoglio em sua autobiografia, El Jesuita. Em determinado trecho, o Papa conta que tentou em vão proteger religiosos perseguidos: "Fiz o que pude, com a idade que tinha e as poucas relações com que contava, para advogar pelas pessoas sequestradas."

Igreja teria apoiado os militares, diz madre de La Plaza de Mayo

Nora Cortiñas, em depoimento ao Tribunal Oral Federal Cinco, chegou a dizer em 2010 que "a Igreja foi partícipe da ditadura militar" e que Bergoglio "entregou seus próprios sacerdotes". Na quinta-feira, Zero Hora a procurou na sede da Linha Fundadora das Madres, mas soube que ela estava viajando e não poderia se pronunciar a respeito.

A "madre" não abre concessões. Em seu depoimento, critica os religiosos da época, dizendo que "todos permitiram que torturassem as grávidas, mas depois se opuseram ao aborto".

Documento de 15 de novembro de 1976 (meses após o golpe militar de 24 de março), a respeito de "reunião da junta militar com a conferência episcopal argentina", reforça a convicção dos críticos de Bergoglio e dos religiosos da época. O conteúdo diz que os bispos não se imiscuiriam em assuntos políticos do país e que um eventual fracasso do regime militar "levaria, muito provavelmente, ao marxismo".

O nome de Bergoglio, na época provincial da ordem jesuíta, não é citado.

Siga os perfis de ZH no Twitter

  • transitozh

    transitozh

    Trânsito Zero HoraRT @_PauloRocha: 6h55 #RS040 Engarrafada a partir da parada 37. Motoristas levam 20 min até a Lomba do Sabão #GauchaTransito http://t.co/D4…há 12 minutosRetweet
  • transitozh

    transitozh

    Trânsito Zero HoraRT @_PauloRocha: #CaminhoDoMeio Motoristas enfrentam 2,5 km de congestionamento. Saída pela Sta. Isabel também trancada #GauchaTransitohá 12 minutosRetweet
clicRBS
Nova busca - outros