The New York Times02/03/2013 | 07h53

Em meio a processo de transição visto como modelo, Iêmen luta para alcançar estabilidade

Após escapar de uma guerra em 2011, país árabe busca conciliar rancorosas facções políticas

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Em meio a processo de transição visto como modelo, Iêmen luta para alcançar estabilidade Samuel Aranda/NYTNS
Em Sanaa, homens se reúnem para celebrar aniversário da revolução iemenita Foto: Samuel Aranda / NYTNS
Robert F. Worth


Sanaa, Iêmen -  As tendas no coração da Praça da Mudança agora estão quase vazias de manifestantes, e as lonas tremulam calmamente com a brisa. Dois anos após o início de seu levante democrático, o Iêmen possui um novo presidente e está no meio de um processo de transição que foi classificado pelo governo Obama como um modelo para resolver a sangrenta guerra civil na Síria.

Em alguns aspectos, a transição aqui foi obtida com relativa tranquilidade, enquanto Egito e Síria estão sob violenta agitação. O Iêmen, tendo escapado de uma guerra em 2011, está lentamente embarcando num diálogo nacional focado em conciliar suas rancorosas facções políticas — sob o olhar atento de monitores árabes e ocidentais.

Porém, muitos iemenitas hoje duvidam que algo substancial tenha mudado, e temem que o elogiado "modelo do Iêmen" esteja consagrando uma frágil estabilidade num momento em que são necessárias ações decisivas.

Fora da capital, o país está mais sem rumo do que nunca. O sul é dominado por um crescente movimento de independência, e tensões sectárias vêm aumentando perigosamente no norte. A economia está em ruínas. Todos os mesmos atores políticos — incluindo o ainda poderoso ex-presidente, Ali Abdullah Saleh — permanecem, e o novo presidente, Abdu Rabbu Mansour Hadi, tem lutado para se firmar contra eles.

— Nunca senti a ansiedade que sinto hoje — declarou Sami Ghalib, analista político e ex-editor de jornal. — Sempre houve o conflito geográfico, mas hoje ele está se tornando ideológico. Há assassinatos ocorrendo em toda parte. E no comando, temos um líder que se comporta como Saleh mas não possui suas habilidades políticas.

Diferentemente de seu antecessor, Hadi é um recluso virtuoso que raramente fala em público e deixou de oferecer uma postura clara para abordar quaisquer das crises que afligem o país. Seu forte louvor ao programa de ataques por drones (aviões não tripulados) dos Estados Unidos, que é impopular por aqui, erodiu ainda mais sua pequena base de apoio público. Ele é amplamente visto como alguém que teme pela própria vida, e nomeou muitos familiares e antigos aliados a cargos de segurança.

Algum progresso foi obtido. Uma campanha militar no ano passado recapturou diversas cidades do sul dos militantes jihadistas que as controlavam há mais de um ano. Mas a maioria dos combatentes parece ter se diluído na população e, em seguida à retirada militar, grandes áreas do sul continuam sendo um tabuleiro de xadrez de misteriosos grupos armados sem presença do governo.

Enquanto isso, a afiliada iemenita da al-Qaeda adotou uma nova tática: uma brutal campanha de assassinatos que deixou 74 oficiais do exército e da inteligência mortos desde o início do ano passado, segundo funcionários do Ministério do Interior. Quase todas as mortes foram executadas por homens mascarados em motocicletas — muitas vezes usando pistolas equipadas com silenciadores —, e apenas alguns suspeitos foram detidos.
Os apoiadores de Hadi apontam que ele herdou um temível conjunto de desafios. Ele assumiu o cargo há um ano, sob os termos de um plano de transição gradual intermediado pelo Conselho de Cooperação do Golfo, um corpo regional saudita, com o apoio dos Estados Unidos e outras potências ocidentais. Ele foi o candidato escolhido no Iêmen especialmente porque não possuía uma base de poder independente e, portanto, seria inofensivo aos chefes militares e tribais que exercem uma influência real. Sua principal tarefa era enfraquecer esses chefes, cujos sistemas corruptos de patronato constituem um dos maiores obstáculos a qualquer mudança real.

Alguns analistas e diplomatas dão crédito a Hadi por um lento e constante esforço para desarmar seus rivais. "Ele compreendeu que a única forma de debilitar Saleh era inicialmente se unindo a Ali Muhsin", o poderoso general que desertou para a oposição durante os protestos de 2011, afirmou um diplomata europeu que falou sob condição de anonimato.

Hadi removeu diversos comandantes militares leais ao antigo presidente. Em dezembro, ele anunciou uma ampla reestruturação do exército que transferiu os dois filhos de Saleh, Ahmed Ali Saleh e o general Ali Muhsin al-Ahmar — duas das figuras militares mais poderosas no Iêmen. No entanto, os dois homens exercem poder basicamente através de redes de patronato e influência tribal. Resta saber se Hadi, que não possui esse tipo de rede, seguirá com seus esforços para enfraquecê-las.

Ele também precisa enfrentar um movimento de independência sulista que ganhou tanta força no ano passado que algumas autoridades iemenitas temem a possibilidade de uma guerra, caso não seja controlado. Em 13 de janeiro, um comício na cidade costeira de Áden atraiu dezenas de milhares de manifestantes. Embora os líderes do movimento estejam divididos, todos rejeitam o plano de transição do Conselho de Cooperação do Golfo como um documento do norte — e quase todos se recusaram a participar do diálogo nacional.

Uma verdadeira separação do sul — que era um país separado até 1990 — é improvável na ausência de uma liderança mais firme e apoio estrangeiro. Mas o movimento fica mais radical a cada dia, complicando os esforços para restaurar o governo.

Outra ameaça crescente é o crescimento de um confronto sectário cada vez mais violento entre dois dos maiores grupos políticos do Iêmen. Um desses grupos, conhecido como o movimento Houthi, é liderado por radicais de uma variante do islamismo xiita e foi acusado de receber ajuda do Irã. Seus seguidores se enfrentaram repetidamente com jovens do Islah, principal partido islamista sunita do Iêmen e o equivalente local à Irmandade Muçulmana.

Esse conflito assumiu aspectos de uma guerra por procuração entre a Arábia Saudita — que apoia o Islah — e o Irã, com preocupantes conotações sunitas e xiitas. Os houthis estão cada vez mais estridentes, organizando grandes encontros públicos baseados nos do Hezbollah, o movimento xiita libanês. Os dois grupos se atacam regularmente com termos sectários — uma ocorrência nova no Iêmen — e, em diversas ocasiões, manifestações se transformaram em guerras com pedras e até mesmo tiroteios entre membros das duas facções.

— Todos estão preocupados com isso — afirmou Najib Ghalib, presidente do Centro de Estudos Jazeera, em Sanaa. — Hadi precisa esfriar os ânimos, mas ele não o faz.

Em vez disso, Hadi estaria colocando sua energia e esperança no diálogo nacional, uma conferência política de difícil controle que foi exigida no plano de transição.

O diálogo, que vem sendo sistematicamente adiado, reunirá 565 representantes dos diversos grupos políticos do Iêmen, em vários subcomitês e sessões plenárias ao longo de seis meses. A ideia, segundo diplomatas, é conduzir um processo em grupo que será terapêutico por si só _ mesmo se o diálogo produzir poucas decisões consensuais sobre o futuro político do país.

Há muitos céticos, em parte porque alguns dos grupos políticos mais intransigentes — como os houthis e os separatistas do sul — se recusam a participar.

Hadi, como seu predecessor, parece ter dedicado pouca atenção à economia, apesar de indicadores desastrosos para a população desesperadamente pobre do Iêmen. No ano passado, a Arábia Saudita doou US$ 2 bilhões em produtos combustíveis, e "aquilo nos salvou", declarou um importante funcionário do Ministério das Finanças, falando sob condição de anonimato. "Mas podemos contar com isso no futuro?"

Numa tarde recente, um ativista político do Iêmen chamado Radhia al-Mutawakel observava enquanto imagens de violentos protestos no Egito passavam na televisão.

— Tenho inveja dos egípcios — disse al-Mutawakel. — Lá, os ativistas independentes pelo menos têm voz. Aqui, não temos nada. Lá, eles têm um exército unificado. Aqui tudo é dividido, e nada mudou.

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