Fora de cena01/03/2013 | 03h18

De perfil rigoroso, Papa Emérito deve assumir papel discreto na Igreja, acredita teólogo

Joseph Ratzinger ainda tem futuro incerto após renunciar ao pontificado

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De perfil rigoroso, Papa Emérito deve assumir papel discreto na Igreja, acredita teólogo Vincenzo Pinto/AFP
Guarda fecha a entrada da residência provisória do papa emérito Foto: Vincenzo Pinto / AFP

Emérito deriva do latim e é o aposentado que tem as honras de um cargo sem exercê-lo. Mais: é um homem versado em algo. O agora papa emérito Bento XVI seguirá essa definição à risca, de forma tão rigorosa quanto seu perfil de contornos nítidos.

Saiba a postura o que o próximo Papa deve adotar

O mesmo homem que zela pelos dogmas da Igreja no lado de fora da Santa Sé foi moralmente inflexível quando estiveram em xeque os costumes internos, conspurcados por casos de corrupção e pedofilia. Conservador? Moralista? Disciplinador? Tudo isso ao mesmo tempo, mas interpretado ao sabor das circunstâncias.

Não é uma personalidade multifacetada que assumirá o papel de papa emérito, o que facilita o traçado do seu provável futuro. A mesma face severa e impoluta, criticada pelo dogmatismo externo, rende-lhe elogios quando o assunto é a disciplina interna. Bento XVI, que continuará sendo "Sua Santidade Bento XVI", deve adotar para si, em uma nova dimensão, o rigor da conduta que tem caracterizado sua trajetória.

— Na verdade, nem ele sabe exatamente como vai ser seu futuro. Mas posso assegurar que será discreto, não vai interferir. Vai fazer de tudo para evitar a imagem de eminência parda, de exercer influência. Será livre para ter sua agenda, mas a agenda será privada e restrita, não pública — diz o teólogo da Universidade de São Paulo (USP) Fernando Altemeyer.

Influência se dará pelos cardeais fiéis

Bento XVI deixou o papado para se tornar emérito dando uma cartada surpreendente, a da renúncia: o ato extremo é visto no interior da Igreja como atitude política. O frei franciscano Jorge Hartmann, que trabalhou durante três anos na Rádio do Vaticano, define o gesto como o atiçamento calculado de uma crise para resolver os problemas, "por amor à Igreja".

Na quinta-feira, em seu último dia de pontificado, ele tratou de esclarecer que terá "respeito incondicional e obediência ao novo papa". Foi, de certa forma, um recado direto para algum dos cardeais que o acompanhavam:

— Entre vós está o futuro papa, a quem prometo meu respeito incondicional e obediência. Continuarei rezando, especialmente nestes dias — disse, em seu discurso de despedida para os cardeais.

Diretamente, é claro. De forma indireta, sua influência é grande: indicou 67 dos 115 cardeais com direito a voto no conclave, que costumam seguir suas instruções.

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