Estilo latino15/03/2013 | 05h18

Da criança travessa ao pontificado, papa Francisco teve uma trajetória de paixões terrenas

Jorge Mario Bergoglio deu trabalho às professoras, foi pé de valsa e pediu vizinha em casamento

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Era um menino peralta, que dava uma canseira nas professoras do colégio do bairro onde estudava. Foi um rapaz pé de valsa, namorador arrebatado, fanático pelo futebol do San Lorenzo, um legítimo portenho adorador de tangos.

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Tornou-se um padre de hábitos simples, que cozinhava o próprio almoço, tomava mate e pegava o metrô. Na quarta-feira, foi ungido o pastor supremo da Igreja Católica por suas qualidades como bispo.

A vida não linear do argentino Jorge Mario Bergoglio, 76 anos, o papa Francisco, pode ser dividida em duas fases. Na primeira, antes de se converter ao celibato, surpreende pelas paixões terrenas que experimentou — como qualquer jovem. Na segunda etapa, contada a partir do momento em que veste a batina, evidencia os dotes teológicos de quem se devotou ao catolicismo.

Jorge Bergoglio é, acima de tudo, um genuíno argentino. Já aos 12 anos, escreveu uma carta para uma garota chamada Amalia, propondo casamento no futuro. Era uma criança, obviamente que nem sonhava virar religioso, mas fez uma ameaça se fosse recusado por Amalia.

— Se não me caso contigo, viro padre — teria dito.

De origem modesta, filho de uma dona de casa e de um ferroviário com raízes no Piemonte (Itália), Bergoglio era vizinho de Amalia no bairro Flores, periferia de Buenos Aires. O namoro infantil não foi adiante, porque Amalia levou uma reprimenda do pai, que a proibiu de se aproximar do precoce galanteador.

Mais velho entre os cinco filhos da família, Bergoglio foi uma criança intensa. No Colégio da Misericórdia, no bairro de Flores, é lembrado pelas peraltices. Em entrevista à agência de notícias AFP, uma das responsáveis pelo educandário, irmã Martha Rabino, recordou de forma carinhosa.

— Era um diabo, diabinho, muito travesso, como toda criança — disse.

O novo papa nunca esqueceu a paciência das antigas mestras. Martha conta que o ex-arcebispo de Buenos Aires costumava aparecer no colégio para o chá da tarde com as religiosas. Visitou sua catequista, a irmã Dolores Tortolo, até que ela morresse. No velório, passou a noite rezando.

Rapaz feito, Bergoglio gostava de ouvir tango e dançar milonga com outra namorada, conforme revelou em longa entrevista aos jornalistas Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, publicada no livro O Jesuíta — Conversações com o Cardeal.

— Gosto muito de tango. É algo que sai de dentro de mim — ressaltou na ocasião.

Preferia a orquestra do argentino Juan D'Arienzo, conhecido como "El rey del compás", e apreciava Carlos Gardel, Julio Sosa e Astor Piazzola. Quando os entrevistadores perguntaram se tinha namorada naquele tempo, não se esquivou:

— Sim. Fazíamos parte de um grupo de amigos com quem íamos dançar.

Retirada de pulmão não limitou atividades

O romance acabou quando Bergoglio descobriu a vocação religiosa, ingressando aos 22 anos no noviciado da Companhia de Jesus. Um ano antes, sofreu dura provação: precisou retirar parte de um pulmão durante cirurgia. No entanto, nunca teria acusado limitações de saúde nas atividades.

Tanto que subiu rápido na hierarquia da Igreja. Nos anos 1970, assumiu a liderança da congregação jesuíta na Argentina. Em 1998, tornou-se arcebispo de Buenos Aires, sendo promovido a cardeal três anos depois por João Paulo II.

Primeiro jesuíta a ocupar o trono de São Pedro, Bergoglio inspira os católicos. Autodeclarou-se papa Francisco em homenagem ao santo que se dedicou aos pobres.

Bergoglio também deve imprimir um jeito menos carrancudo no Vaticano. Ao fim do primeiro jantar depois de sua eleição, teria brincado com os cardeais que o escolheram, segundo relato do porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi.

— Deus os perdoe pelo que fizeram — disse.

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