Sucessão no Vaticano09/03/2013 | 15h01

Como se chega ao nome do novo papa

Repórter de Zero Hora conta por que só resta aos jornalistas e vaticanistas especular sobre o resultado

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Como se chega ao nome do novo papa Observatore Romano/AFP
Em seu último dia, Bento XVI discursou a cardeais que irão eleger seu sucessor Foto: Observatore Romano / AFP

Em abril de 1999, mais de 250 bispos brasileiros se reuniram em um mosteiro de Indaiatuba, no interior de São Paulo, para eleger o novo presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Jornalistas de todos os quadrantes convergiram ao local com a missão de retratar o clima de luta pelo poder dentro da Igreja.

Não foi fácil flagrá-lo. Durante uma semana, qualquer bispo que se abordasse repetia um mesmo discurso monocórdio: a divisão do episcopado em alas era uma ficção, comandar a CNBB significava um fardo que ninguém assumiria a não ser por sacrifício pessoal e, além disso, não se tratava bem de uma eleição, mas de uma escolha norteada pela oração e pela fraternidade em Cristo.

Minutos antes do início das votações, tive uma rara oportunidade de entrar no plenário onde os bispos deliberavam — e verifiquei que esse discurso era pura conversa para católico dormir. O que vi foram cenas explícitas de boca-de-urna. Havia até eminências dedicadas à tarefa de entregar santinhos de seus candidatos. No final, soube-se que foram necessários três renhidos escrutínios para se chegar a um vencedor, e por apenas 24 votos: o então bispo de Pelotas, Jayme Chemello, expoente da ala progressista (que, apesar dos esforços, João Paulo II ainda não havia conseguido exterminar).

MULTIMÍDIA: Entenda como funciona o conclave

A eleição na CNBB é ilustrativa da situação exasperante em que se encontram os profissionais encarregados de projetar o que pode sair do conclave que se avizinha. Como os bispos de Indaiatuba, os votantes da Capela Sistina — os únicos que poderiam nos dar alguma luz — não estão dispostos a abrir o jogo. Querem nos fazer acreditar que o próximo papa será selecionado pelo Espírito Santo. Resta a vaticanistas e jornalistas a senda inglória da especulação.

Nos últimos dias, o gaúcho Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, tem sido apresentado como candidato fortíssimo, da mesma forma como em 2005 dizia-se que o gaúcho Cláudio Hummes, arcebispo de São Paulo, era nome de peso. Na época, cheguei a trabalhar no material que seria publicado por Zero Hora caso Hummes fosse o ungido.

Não estou querendo sugerir, com isso, que Scherer não será papa. É possível que ele seja escolhido e que o famoso "ucho, ucho, ucho" ecoe outra vez. Mas deve-se levar em conta que a inclusão de seu nome entre os papáveis é reflexo da lógica que preside a elaboração dessas listas.

Seguindo essa lógica, qualquer um pode elaborar em casa a sua própria lista de favoritos e passar por arguto vaticanista — pelo menos até o momento da fumaça branca.

Para começar, exclua da relação de 115 cardeais aqueles que sejam novos demais, os muitos velhos e os implicados em algum tipo de escândalo sexual ou financeiro. Com essa medida, o número de possíveis candidatos terá caído drasticamente.

Resta agora escolher em quem apostar, dos que sobraram.

Sabe-se que a grande maioria dos papas nasceu na Itália. Por isso, selecione como papáveis dois ou três cardeais italianos eminentes — sem esquecer algum braço direito do pontífice anterior, em consideração à força do chamado "partido da Cúria".

Também é notório que a América do Sul reúne as maiores concentrações de católicos. E se o conclave pender para esses lados? A tendência natural é anotar na listagem os nomes dos cardeais de São Paulo e de Buenos Aires, as duas grandes metrópoles da região. Aconteceu agora e aconteceu oito anos atrás.

Por outro lado, pensará o aspirante a vaticanista, pode que a escolha não recaia na América do Sul, mas na América do Norte. Os norte-americanos são rapidamente excluídos: não se admite que o país mais poderoso do mundo comande a maior igreja. Que tal um canadense? Que tal Marc Ouellet?

Qualquer lista que se preze precisa também contemplar o fato de que a África é onde o catolicismo mais cresce. Por isso, é de lei que haja um africano em quase todas as relações — escolha alguém que exerceu cargos importantes no Vaticano e que tenha bom trânsito por lá.

Agora, a lista parece pronta, mas ela dá a impressão de que só existe catolicismo no Ocidente. É preciso conferir-lhe um pitada de exotismo oriental. Eis como algum filipino ou indonésio — melhor, alguém do Sri Lanka — acaba por emplacar seu nome entre os papáveis.

No final das contas, teremos de reconhecer que esse esforço não servirá para nada. Já sabemos o necessário sobre o próximo papa. Será um senhor de idade, com ideias em descompasso com seu próprio tempo.

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