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Havia dezenas de pintores sentados no alto de andaimes que levavam até o teto de um antigo monastério e, com uma passada de seus pincéis, apareciam cores que davam vida ao Buda: ouro para a pele, preto para os olhos e laranja para as vestes.
Eles trabalhavam sob a luz fraca de lâmpadas elétricas portáteis. Estátuas empoeiradas de divindades budistas tibetanas observavam o trabalho. Da abertura no teto, alguns raios de luz passavam pelos 35 pilares dourados da câmara principal do enorme Monastério de Thubchen, o mesmo edifício que impressionou Michel Peissel, o explorador do Tibete, quando o visitou, meio século atrás.
— No Nepal, ninguém sabe como fazer isso, então temos que aprender — afirmou Tashi Gurung, um pintor de 34 anos que participa deste que é um dos projetos artísticos mais ambiciosos do Tibete, no Himalaia.
Financiado pela Fundação Americano-Himalaia, o projeto visa restaurar as obras de arte de dois dos três principais monastérios e templos de Lo Manthang, a capital murada do reino proibido de Mustang. Na divisa com o Tibete, no remoto deserto trans-himalaio, Mustang é um importante enclave da cultura budista tibetana.
Líderes do Tibete, incluindo o Dalai Lama, afirmam que sua cultura está sob ataque nas vastas regiões tibetanas controladas pelo Partido Comunista Chinês, que ocupou o Tibete central em 1951. Juntamente com a aproximação da modernidade, isso significa que o ato de preservar a arte tibetana é mais importante do que nunca desde a Revolução Cultural chinesa.
O projeto em Lo Manthang gerou debates. Alguns especialistas em arte tibetana afirmam que os pintores de Lo Manthang estão alterando importantes murais históricos e colocando em risco estudos acadêmicos por meio da criação de novas pinturas sobre determinadas partes do muro onde as imagens originais foram destruídas. As pessoas envolvidas afirmam que os habitantes da região desejam que seus locais de culto estejam plenamente ornamentados.
O diretor do projeto, o italiano Luigi Fieni, de 39 anos, veio trabalhar na região logo depois de se graduar em um curso de conservação artística em Roma. Fieni e outros ocidentais treinaram habitantes locais para trabalharem nas obras de arte, criando uma equipe de 35 pessoas que inclui 20 mulheres e um monge (embora houvesse resistência inicial dos homens em relação à participação das mulheres).
Há três grandes prédios religiosos em Lo Manthang. Dois deles são monastérios e um é um templo tradicionalmente utilizado para cerimônias feitas pela família real. Suas grossas paredes vermelhas se erguem ao lado de vielas, onde se perfilam casinhas brancas feitas de tijolos de barro. O rei de 80 anos e sua família vivem no palácio no centro da cidade, que foi fundada no século XIV e onde os prédios religiosos mais antigos datam do século XV.
Boa parte da arte tibetana da cidade reflete a influência newari, vinda do Vale de Katmandu. Há alguns séculos, os artesãos newari eram bem recebidos por alguns líderes tibetanos, especialmente os ligados ao ramo sakya do budismo tibetano, que é comum em Mustang.
O projeto artístico começou em 1999, com a limpeza dos murais do Monastério de Thubchen, após uma rodada inicial de reconstruções arquitetônicas. Em seguida, os pintores passaram a trabalhar no Templo de Jampa, onde a escura sala principal possui uma enorme estátua de Maitreya, o futuro Buda.
As paredes do primeiro andar são adornadas com mandalas incrivelmente detalhados, uma forma de arte geométrica considerada como a representação do cosmos. Aqui, Fieni decidiu se desviar da abordagem inicial utilizada em Thubchen. Ao invés de fazer apenas restaurações, ele quis que sua equipe pintasse partes das paredes onde os murais originais houvessem desaparecido ou sido destruídos.
Os pintores iriam então tentar recriar essas imagens com base em relatos tradicionais e no que havia sido pintado em outras partes da câmara. Fieni também consultou os monges a respeito de que imagens gostariam de ver pintadas nas paredes. Em 2010, a equipe voltou a Thubchen para adotar essa nova abordagem e pintar grandes seções da parede.
— Chame isso de pintura, não de restauração, nem de conservação — afirmou Fieni. Ele acrescentou que esse método ajuda a restaurar a natureza viva da obra de arte, ao contrário do que chamou de abordagem "colonialista" ocidental, de preservar o velho acima de todas as coisas.
Então começaram os desafios. Pintores de castas mais altas não queriam que pintores de castas mais baixas se sentassem nos andaimes acima. Além disso, era preciso levar em conta as crenças religiosas: nos prédios restaurados, um abade utilizou um espelho para absorver os espíritos dos deuses nas estátuas e murais antes do início da pintura; depois que projeto estiver concluído, o abade deverá soltar os espíritos do espelho para que eles possam retornar.
A abordagem de Fieni em relação à restauração dos templos e monastérios foi contestada. Christian Luczanits, curador sênior do Museu de Arte Rubin, em Nova York, que exibe obras de arte do Himalaia, afirmou ter ficado assustado com o que viu em viagens a Mustang em 2010 e 2012. Luczanits afirmou que não foram feitos estudos suficientes nas pinturas originais. Agora, em função da nova pintura, qualquer estudioso que queria conhecer os originais precisará contar com fotografias, ao invés das obras presentes nos templos.
— Após a restauração, o templo não pode mais ser compreendido sem a documentação anterior — afirmou Luczanits em uma entrevista.
No ano passado, o curador deixou sua opinião clara em uma acalorada reunião no palácio de Lo Manthang. Entre os presentes estavam Fieni, um abade, o príncipe de Mustang e representantes da Fundação Americano-Himalaia, que dá apoio financeiro a muitos projetos em desenvolvimento em Mustang. (A presidente da fundação, Erica Stone, afirmou que o total gasto nas reformas de Lo Manthang passa de 2,58 milhões de dólares. Outros 768.000 dólares foram gastos com a restauração dos muros da cidade e com a construção de sistemas de drenagem de água.)
Houve um debate acalorado e tanto a família real quanto o abade defenderam Fieni. O príncipe cerimonial Jigme Singi Palbar Bista afirmou em uma entrevista que os prédios estão sendo "muito bem reformados".
A pintura completa do Monastério de Thubchen ainda vai demorar mais três ou quatro anos, mas o orçamento do projeto chegará ao fim ainda este ano. Fieni estima que ainda faltem 340 metros quadrados de paredes para pintar.
O restaurador afirma que deseja começar projetos de restauração na Índia ou em Myanmar com os pintores que treinou por aqui. Em 2006 e 2007 ele levou cinco deles para trabalhar em um monastério tibetano na província de Sichuan, no oeste da China, um projeto que nunca foi concluído porque as autoridades chinesas impediram o acesso à área após o levante tibetano, em 2008.









