Vida na Argentina15/03/2013 | 05h03

A banca de revistas, o futebol, os alfajores: a rotina de Bergoglio antes de se tornar o papa Francisco

Moradores de Buenos Aires que compartilhavam o dia a dia do novo pontífice exaltam sua vida simples

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A banca de revistas, o futebol, os alfajores: a rotina de Bergoglio antes de se tornar o papa Francisco Lauro Alves/Agencia RBS
Prestígio de Bergoglio pôde ser visto nas primeiras horas da manhã de quinta-feira em Buenos Aires Foto: Lauro Alves / Agencia RBS
Diogo Olivier, enviado especial a Buenos Aires
Diogo Olivier, enviado especial a Buenos Aires

diogo.olivier@zerohora.com.br

Dizem os argentinos: o sucessor de Pedro detestava passar o dia enfurnado no apartamento na Cúria, escolhido por ele para fugir da suntuosidade da Igreja. Francisco preferia sair, caminhar, conversar, tomar café e comer alfajor. Mas como se traduzia, na prática, a vida do primeiro papa latino-americano nas ruas de Buenos Aires até dias atrás?

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Seus amigos de las calles chamam-no ainda de Jorge. Não queria que o chamasse de cardeal. Acordava cedo, por volta de 6h. Atravessava a Plaza de Mayo rumo a banca de revistas de Daniel Regno, 35 anos. Ali, em pé, conversava às vezes por mais de hora sobre tudo. Futebol estava sempre no cardápio. É sócio patrimonial do San Lorenzo desde 2008. Segundo Bruno Pastore, 32 anos, dono de uma cafeteria perto da banca de Daniel, um torcedor fanático, daquele que lamenta gol perdido e se irrita com erro do árbitro.

Quando não podia pegar ele mesmo o jornal na banca por algum motivo, Daniel lhe entregava na Cúria. Enrolava o La Nación com uma borrachinha e atirava no pátio, conforme o combinado com Jorge, que sempre devolvia a borrachinha no dia seguinte. A amizade com o jornaleiro floresceu ao ponto de Jorge insistir para batizar o seu filho Lautaro, hoje com dois anos. Queria ir até Avellaneda abençoá-lo em casa, pegando metrô, mas Daniel o convenceu a fazer tudo na igreja mesmo:

— Para mim, ele será sempre o Jorge. Um ótimo papo. Bem, agora ele vai bater papo com um bilhão de pessoas.

Depois de ler jornal na banca do Daniel, a caminhada de Jorge seguia. Aí entrava o lado pastoral. Visitava as igrejas da arquidiocese, a pé ou de transporte público. Uma delas, a San Inácio, tem 300 anos. É a mais antiga de Buenos Aires. O cardeal Jorge entrava, cumprimentava a todos, rezava, retornava à sacristia para conversar e ia embora rumo à próxima visita surpresa.

— E não é que o Jorge me roubou o nome? — diverte-se Francisco Baigorria, 42 anos, pároco da San Inácio.

Baigorria se permite brincar com o Papa Francisco, com quem conversava por telefone até dias atrás, porque aprendeu com Jorge. Daniel, aliás, o alcançou uma cópia da comédia italiana Habemus Papam:

— Ele disse que havia tempo não se divertia tanto.

O pároco e administrador da Catedral, Alejandro Russo, tem uma ótima dele. Quando os dois saíam a pregar em pastorais nas quais nem sempre dava para organizar os fiéis perfeitamente, Jorge tinha uma tirada clássica, que bebe no mesmo humor do "venho do fim do mundo, mas estamos aqui" enunciado da sacada do Vaticano. Ele dizia assim:

— Façamos um pouco de desordem.

Pelo que se vê do papa de las calles, Francisco vai dar uma ''desorganizada'' na Igreja. O que parece bom.

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