The New York Times09/02/2013 | 09h37

Orquestra de Cabul leva jovem esperança ao Carnegie

Estudioso mantém pequena escola de música para meninos de rua

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Orquestra de Cabul leva jovem esperança ao Carnegie Vikram Singh/NYTNS
Instituto Nacional Afegão de Música leva esperança ao grupo de jovens Foto: Vikram Singh / NYTNS
Alissa J. Rubin e Daniel J. Wakin

Cabul, Afeganistão – Toda noite, Mohsen, um desajeitado menino de 13 anos, vai da escola a um orfanato local e faz algo que provavelmente seria impossível há doze anos: ele estuda seu violino antes de dormir.

O instrumento, disse ele, se tornou seu melhor amigo. "Ele tem uma voz triste", explicou.

Todas as vozes como a dele, felizes ou tristes, foram oficialmente proibidas pelo Talibã de 1996 a 2001, quando foi imposta sua visão extremista do Islã no Afeganistão – um país com uma longa e rica tradição musical. Músicos eram espancados, instrumentos destruídos, fitas cassete esmagadas.

Mas desde 2010, um estudioso de música afegão instruído na Austrália, ajudado por um violinista educado na Juilliard e com apoio do governo, manteve uma pequena escola de música funcionando em Cabul, colocando instrumentos musicais nas mãos de meninos de rua e lutando para abrir espaço para meninas – num país onde a educação geralmente lhes é negada.

A mera existência da escola, o Instituto Nacional Afegão de Música, é uma enorme conquista. Agora eles enviaram um grupo de jovens, com idades entre 9 e 21 anos, aos Estados Unidos para uma turnê de 13 dias, com apresentações no Kennedy Center, em Washington, e no Carnegie Hall, em Nova York.

"É responsabilidade de um músico defender o direito de seres humanos de toda parte serem musicais e se expressarem através da música", declarou William Harvey, o violinista americano que é regente da Orquestra Jovem do Afeganistão. "Estamos celebrando uma vitória: o retorno da música."

Os 48 estudantes afegãos na turnê estão se apresentando em formações tradicionais e numa orquestra estilo ocidental, ao lado de músicos da Orquestra Clássica Jovem de Maryland e da Orquestra da Escola Scarsdale High, de Nova York, que ajudou a arrecadar dinheiro para a turnê.

Os afegãos também estão tocando no Departamento de Estado, na embaixada italiana e no Banco Mundial. Eles ficarão juntos em hotéis, viajando sob os cuidados de guardas de segurança. Funcionários da embaixada dos EUA daqui advertiram os estudantes a não fugirem.

Os organizadores dizem que a turnê possui um significado especial num país tão marcado pela violência e pelo sofrimento. "Estamos levando a mensagem de paz e estabilidade à comunidade internacional, para mostrar que ocorreu uma mudança positiva", explicou o fundador da escola, Ahmad Sarmast, que possui doutorado em música pela Universidade Monash, em Melbourne, na Austrália.

Mas ainda há preocupações. A música no Afeganistão ainda atrai uma forte censura dos muitos mulás conservadores, que insistem em seu caráter anti-islâmico. E assim que o exército americano se retirar, no próximo ano, a existência da escola pode ser dificultada se as forças conservadoras assumirem o poder.

Por enquanto, porém, a escola está caminhando com seus planos ambiciosos. Será necessário um total de US$ 13 milhões para manter a escola funcionando pelos próximos 11 anos, incluindo a construção de uma sala de concertos, espaço para ensaios e dormitórios para estudantes – que, segundo Sarmast, não pagam nenhuma mensalidade. Pelo menos seis embaixadas – incluindo a dos Estados Unidos – contribuem aos custos anuais da escola, ao lado do Instituto Goethe, do Conselho Britânico e do Ministério da Educação religiosamente conservador do Afeganistão (um escudo contra acusações de que o instituto seria "anti-islâmico").

A turnê americana é principalmente patrocinada pela embaixada dos EUA, que está gastando pouco mais de US$ 300 mil, segundo funcionários. O Banco Mundial, bancando a nova sala de concertos e dormitório da escola, está colocando mais de US$ 100 mil na turnê; outros apoiadores incluem a Carnegie Corp. e o Conselho Cultural Asiático. Funcionários do Carnegie Hall e do Kennedy Center também ajudaram a organizar os concertos.

"Este é um momento que eles podem agarrar", disse Garth Ross, vice-presidente de envolvimento comunitário do Kennedy Center. "Eles estão seguindo um formato muito positivo, público, global. Isso é muito inspirador."

Além de lecionar teoria musical e instrumentos ocidentais e afegãos, a escola oferece aos 141 alunos o currículo do ministério, que inclui estudos religiosos e do Corão. Significativamente, um terço dos estudantes é formado por garotas, que costumam sofrer para receber uma educação fundamental no Afeganistão. Metade dos estudantes vêm de orfanatos ou moravam nas ruas. Poucos tinham qualquer conhecimento musical antes de chegar.

Os alunos vêm de quase todas as províncias e incluem membros dos três principais grupos étnicos do país, pashtuns, tadjiques e hazaras, afirmou Sarmast. "Temos um maravilhoso mosaico do Afeganistão aqui", disse ele. "Parte de nosso compromisso é promover a diversidade musical no Afeganistão."

O corpo docente inclui meia dúzia de ocidentais.

A escola oferece algo a mais: um local seguro. Para muitos estudantes, esta é simplesmente a primeira vez em suas vidas que um adulto presta atenção a eles e os incentiva em seu talento.

De fato, a escola pode ser o local mais feliz de Cabul.

Recentemente, ao meio-dia, crianças tagarelavam ao sair do prédio de dois andares, todas de uma vez, cada uma carregando o almoço em uma das mãos e uma garrafa de água na outra. Elas devoraram a comida e correram de volta à classe, mostrando um nível de envolvimento raramente visto nas escolas afegãs.

Numa sala de ensaio lotada onde crianças e professores se amontoavam em cadeiras a centímetros umas das outras, Harvey tentava, em vão, silenciar os estudantes para que eles começassem a ensaiar as peças afegã e ocidental para o concerto no Carnegie Hall.

"Nós começamos com o silêncio", gritou ele. Quando conseguiu, contou no idioma dari: "Yak, du, sei, char." Em seguida, soaram as primeiras notas de "Bolero", de Ravel.

Em outra sala de ensaio, duas meninas tocavam uma raga em cítaras, os rostos tomados em concentração. Na sala ao lado, três garotos praticavam a flauta ocidental sob a supervisão de um professor. E no fim do corredor, onde as salas possuem pianos, Arson Fahim, de 14 anos, tocava uma sonata de Mozart.

Uma organização que trabalha com órfãos, a Organização Afegã de Cuidado e Educação Infantil, trouxe Arson à escola. Falando num inglês hesitante porém claro – inglês é um curso obrigatório –, ele disse não ter ideia de como veio a amar a música clássica ocidental. "Eu nunca tive nenhuma esperança de que algum dia veria um piano", explicou Arson, que foi apresentado aos teclados há apenas um ano.

Hoje, após devorar gravações na internet de diferentes pianistas, ele soa como um aplicado aluno de conservatório. "Gosto da forma como Richter toca Mozart", continuou ele, referindo-se ao pianista soviético Sviatoslav Richter. Outro pianista, Milad, de 18 anos, também em inglês, declarou-se u fã de Bach. Ambos se disseram deslumbrados pelo pianista Glenn Gould, e engataram numa conversa de 10 minutos sobre sua técnica.

"Glenn Gould foi um gênio pois podia ver 12 filmes ao mesmo tempo, e é por isso que ele toca Bach tão bem", argumentou Milad. "Porque você precisa ter cinco vozes ao mesmo tempo com Bach. Eu consigo ouvir duas, mas cinco é quase impossível."

Marjan, uma menina de 14 anos com um rosto ao mesmo tempo duro e triste, chegou à escola através da Aschiana, uma organização não governamental que trabalha com crianças de rua e pessoas desalojadas no Afeganistão. Ela toca violino há três anos. Segundo Harvey, o jovem regente da orquestra, a história dela resume a esperança da música.

"Quando você vê uma menininha que vendia chiclete na rua porque seu pai foi espancado pelo Talibã com uma corrente até não conseguir mais trabalhar, e sua mãe lava roupas para trazer dinheiro para casa", disse ele, "esse é realmente um momento histórico".

Os americanos estão fartos, até mesmo céticos, após relatos de tanta violência, afirmou ele. "Mas com esses dois grandes concertos em Nova York e Washington, estamos mostrando que as pessoas não devem desistir do Afeganistão."

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