The New York Times05/02/2013 | 07h02

Homenagem aos mortos pelo tráfico de drogas gera polêmica na Cidade do México

Cercado por uma lona, monumento foi finalizado, mas autoridades e população divergem quanto ao número e a origem das vítimas

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Homenagem aos mortos pelo tráfico de drogas gera polêmica na Cidade do México Josh Haner/NYTNS
Construído recentemente, memorial foi projetado para lembrar os milhares de mortos na guerra do tráfico Foto: Josh Haner / NYTNS
Randal Archibold


Cidade do México — Recuperando-se de uma guerra das drogas que matou dezenas de milhares num surto de crimes violentos em geral, o México construiu um memorial às vítimas da violência. Mas, como uma cena de crime ainda em investigação, ele não pode ser visitado e fica coberto por uma lona branca, envolto em perguntas e incerteza.

Uma série de placas de metal enferrujado em meio a piscinas num canto do maior parque da Cidade do México, o memorial hoje surge como uma metáfora acidental para a neblina e as dúvidas que dominam os debates do país sobre violência e vitimização.

Apressado à conclusão pelo presidente Felipe Calderón, cujo mandato de seis anos foi submergido pela explosão da violência, o local ainda não foi aberto ao público. Em 30 de novembro, nos últimos 30 minutos de Calderón no cargo, sua administração enviou um curto e-mail a jornalistas, anunciando que o memorial estava pronto e nas mãos dos grupos cívicos que o haviam exigido.

Na verdade, porém, a transferência do local (de propriedade militar) foi atolada por atrasos burocráticos, e ainda há divergências sobre quem são as vítimas — especialmente na sangrenta guerra contra os cartéis de drogas e outros crimes organizados que consumiram o país.

— Estamos travando uma guerra contra um inimigo que não conhecemos — declarou Viridiana Rios, pesquisadora mexicana na Universidade Harvard e ex-consultora do Ministério do Interior que está estudando mortes na guerra das drogas — Precisamos responder para o público. Há alegações de que muitas das vítimas são inocentes. Eu gostaria de saber se isso é verdade.

Poucas discussões no país são tão polêmicas ou politicamente carregadas quanto a tempestade de violência nos últimos anos, com chacinas e corpos pendurados em pontes, claramente trabalho dos cartéis, mas também outras mortes, assaltos violentos, sequestros e extorsões que podem ou não ser do crime organizado.

Um ano atrás, o governo de Calderón divulgou sua última contagem de mortes presumivelmente causadas pela guerra das drogas — 47.515 desde o final de 2006 — e então se recusou a divulgar quaisquer outros dados. Mais tarde, seus assessores afirmaram que a contagem, em parte dependente dos relatos de agências do governo, não era precisa.

Jornais e acadêmicos mexicanos fizeram suas próprias contagens, e acreditam que o número ultrapasse 60 mil. Mais recentemente, o governo divulgou estatísticas para todos os homicídios, relacionados às drogas ou não, colocando o número em 102.705 nos últimos seis anos – pouco menos da metade cometidos com armas de fogo.

O que é certo é que muitos crimes violentos ficam impunes. Quase 60 por cento dos homicídios seguem sem solução, afirmou recentemente a agência de censo mexicana.

Os assessores de Calderón sempre disseram que a maioria das vítimas da guerra das drogas estava envolvida no tráfico ou em outras atividades criminosas, a julgar pelo calibre das armas usadas ou pelas regiões onde os corpos eram encontrados.

Mas defensores das vítimas apontam que muitos corpos, alguns retirados de valas comuns depois de anos, continuam não reclamados e sem identificação, deixando as circunstâncias de suas mortes em mistério. Além das mortes conhecidas, cerca de 25 mil pessoas foram declaradas desaparecidas nos últimos seis anos. Não se sabe quantas delas foram vítimas da violência.

O memorial surgiu do crescente movimento de direitos das vítimas, mas ele também reflete as incertezas da atribuição de culpa e inocência.

Neste caso, afirmou Luis Vazquez, acadêmico da Escola Latino-americana de Ciências Sociais, na Cidade do México, a divisão fica entre a classe média e as classes superiores, que temem crimes como sequestro e extorsão, e os grupos de direitos humanos, que focam em abusos do exército e da polícia nos ataques contra cartéis.

— Existem dois grupos e duas discussões relacionadas às vítimas do crime — explicou ele.

Assim, esses dois lados discordam sobre quem deve ser homenageado pelo memorial. Eles disputam até mesmo quem teve a ideia de construí-lo.

Javier Sicilia, um poeta de esquerda cujo filho foi morto por uma gangue de drogas na cidade de Cuernavaca, em 2011, afirmou ter proposto pela primeira vez um memorial para vítimas do tráfico num fórum de segurança em novembro de 2011, com Calderón.

Mas outra defensora do memorial tem uma história diferente. Isabel Miranda de Wallace, cujo filho foi sequestrado na Cidade do México em 2005 e nunca mais foi visto, declarou ter pedido há tempos um memorial a todas as vítimas da violência, e mencionado isso a Calderón um ano antes. Ela disputou (sem sucesso) a prefeitura da Cidade do México no ano passado, como a candidata do Partido de Ação Nacional, o mesmo de Calderón, mas diz não pertencer a nenhum partido.

— Eu disse a ele que temos muitas pessoas sofrendo — argumentou Wallace, hoje a maior defensora do memorial.

No fim, a administração concordou em fornecer quase US$ 2 milhões para o projeto e ajudou a organizar um concurso entre arquitetos, que enviaram 68 ideias a um painel de jurados de escolas de arquitetura e grupos cívicos.

O local escolhido foi um lote militar no enorme Parque Chapultepec. Isso enfureceu Sicilia e outros, que viam as ações opressivas do exército como abusivas e perpetuadoras da violência.

— Como você pode imaginar, vemos isso como um insulto aos mortos, ao sofrimento das vítimas, à dor do país e à memória histórica — declarou ele.

O projeto vencedor foi comandado por Ricardo Lopez Martin e dois outros arquitetos. Ao lado de uma das principais avenidas da cidade, suas dezenas de chapas enferrujadas, montadas num jardim sombreado, evocam a passagem do tempo e à noite são iluminadas internamente. Algumas placas exibem citações de personalidades como Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez e Anne Frank. Os visitantes também podem deixar mensagens.

Wallace reconhece que o projeto foi acelerado com o objetivo de terminá-lo antes de Calderón deixar o cargo. Planejada para uma semana antes do fim do mandato, a cerimônia não aconteceu. No entanto, duas semanas antes de deixar a presidência, Calderón dedicou publicamente um memorial próximo aos soldados tombados no dever.

Agora, segundo Wallace, a inauguração do memorial das vítimas precisa esperar até que a papelada transferindo a propriedade de uso militar para civil seja concluída, possivelmente em fevereiro.

Calderón, que começou a lecionar em Harvard em janeiro e foi alvo de protestos por lá, se recusou a comentar através de um porta-voz. O gabinete de seu sucessor, Enrique Pena Nieto, não respondeu se ele compareceria à inauguração, sabendo que não há data definida.

Muitos transeuntes não têm ideia do que há por trás da lona branca no parque, e alguns que sabem desaprovam a ideia como um lembrete indesejado dos problemas de seu país.

— Não trarei minha filha para ver um monumento às vítimas da violência — disse Gabriel Ruiz, de 44 anos, um assessor de imprensa que passa pela construção todos os dias a caminho do trabalho. Ele acredita que a maior parte das vítimas estava envolvida de alguma forma com o crime — Para um bom uso do espaço, eles deveriam pensar nas crianças que têm poucos espaços verdes.

Anibel Renteria, de 33 anos, uma secretária que almoçava no parque, disse considerar o conceito do memorial às vítimas do crime um pouco duvidoso, mas apreciou o esforço.

— Se isso trouxer conforto às pessoas que perderam alguém, me parece algo bom. Mas eu nunca teria tido essa ideia.

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