The New York Times02/01/2013 | 04h41

Presídio impecável enfrenta futuro incerto no Afeganistão

Prisão Central de Helmand, que se destaca pela limpeza, organização e modernidade, pode enfrentar dificuldades depois que as forças ocidentais forem embora e o dinheiro do Ocidente minguar no país

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Presídio impecável enfrenta futuro incerto no Afeganistão Bryan Denton/NYTNS
Detentos tomam banho de sol na Prisão Central de Helmand, no Afeganistão Foto: Bryan Denton / NYTNS
Alissa J. Rubin


Lashkar Gah, Afeganistão – A primeira coisa que se nota sobre a nova prisão daqui é o cheiro, ou melhor, a ausência dele. A Prisão Central de Helmand não cheira a esgoto, suor, roupas velhas ou óleo de cozinha rançoso, os odores típicos das cadeias afegãs. Alguém poderia dizer que o ar tem um aroma de frescor.

Destacam-se também os pisos dos banheiros, brilhantes, e os muros externos, que são feitos de concreto, e não barro – como grande parte da infraestrutura das prisões neste país.

Construída na região sul do coração da insurgência com US$ 6,5 milhões do governo britânico, a Prisão Central de Helmand é certamente impressionante. A única pergunta é por quanto tempo ela continuará assim depois que as forças ocidentais forem embora e o dinheiro do Ocidente minguar.

Essa perspectiva não era algo que o coronel Hajji Raz Mohammed, o diretor adjunto, quisesse contemplar enquanto acompanhava orgulhosamente visitantes a cada canto da prisão, incluindo os banheiros.

Questionado o que acontecerá quando a Equipe Britânica de Reconstrução Provinciana (PRT, da sigla em inglês) arrumar as malas e for embora, no próximo ano, ele apertou os olhos frente ao forte sol de inverno no pátio da prisão. — É muito cedo para falar sobre isso — declarou ele.

Ele detalhou tudo que os britânicos vêm fornecendo à prisão – aparelhos de ar condicionado, refrigeradores e até mesmo computadores que permitem que os detentos, muitos deles ex-afiliados ao Talibã, aprendam PowerPoint e Excel. Há também a clínica que trata tuberculose, depressão e uma variedade de outras doenças. A equipe britânica forneceu até mesmo duas peruas para funcionarem como ambulâncias para prisioneiros que precisem de transporte ao hospital.

Quanto ao governo afegão, que administra a prisão desde meados de 2011, ele paga os salários e a alimentação dos funcionários. Mohammed expressou grandes dúvidas sobre se a prisão conseguiria manter seus padrões unicamente com o apoio do governo afegão.

 — Não, nosso governo não será capaz de bancar isso — afirmou ele. — Nosso governo é pobre.

Se a prisão é, até certo ponto, um espelho da sociedade mais ampla, então a Prisão Central de Helmand oferece um vislumbre do sul do Afeganistão exatamente quando o aumento das tropas ocidentais chega ao fim. Ela mostra não só a generosidade e aspirações dos militares ocidentais, mas também a fragilidade de seus esforços contra o Talibã, cuja presença na prisão reflete sua prevalência na província.

Em 2009, os britânicos derrubaram a decadente estrutura que costumava abrigar prisioneiros aqui, com seus péssimos encanamentos e um pátio de terra que se transformava em lama no inverno chuvoso. A nova prisão é apenas a primeira peça de um ambicioso complexo que incluirá um moderno centro de detenção juvenil, uma prisão feminina e, com o apoio do governo dinamarquês, um centro de reabilitação.

Uma visita pela prisão com Mohammed revela condições bem distantes da atmosfera de calabouço ainda presente em alguns lugares do país. Os prisioneiros, que vestem roupas tradicionais afegãs, vivem em grupos de oito a 10 em quartos com beliches e televisão sintonizada em canais locais. Telejornais afegãos e música parecem ser os favoritos.

Os corredores e pisos são muito limpos. O pátio acomoda centenas de prisioneiros que se sentam em grandes grupos, alguns lendo o Corão, outros tendo aulas de alfabetização e ainda outros esperando numa fila para usar o celular comunitário – monitorado pelo serviço de inteligência.

Mohammed diz que a prisão possui 37 câmeras de vigilância, que ajudam os funcionários a monitorar tudo que acontece. Quando uma quebra, "a PRT paga pelo conserto", disse ele. O que acontecerá quando a Equipe de Reconstrução não estiver mais por aqui? — Nós assumiremos a responsabilidade — respondeu Mohammed, embora não parecesse muito seguro.

O general Bismullah Hamid, que comanda a Prisão de Helmand e é descrito pelos ocidentais que trabalham com ele como um "visionário" no sistema presidiário afegão, lembrou que, quando foi designado para a prisão, o esquálido local era repleto de gangues e drogas (a província de Helmand é a maior produtora de ópio do Afeganistão).

— Os usuários de drogas eram facilmente manipulados pelos detentos subversivos, e acabavam iniciando protestos e rebeliões — explicou ele.

Ao oferecer novos alojamentos e aulas para manter os detentos ocupados, e "tratando os prisioneiros como se eles fossem nossos filhos e seres humanos normais", disse Hamid, as rebeliões e a violência foram significativamente reduzidas.

Uma prisão maior era uma necessidade no auge de chegada das tropas ocidentais. A população prisional cresceu demais quando soldados afegãos e ocidentais detiveram milhares de pessoas em 2010 e 2011, num esforço para minar o poder do Talibã na região. O número de prisioneiros subiu de 300, em 2009, para mais de 1.300 em setembro passado – com mais da metade sendo de "prisioneiros políticos", o termo usado pelos afegãos para detentos afiliados ao Talibã. Trezentos prisioneiros políticos foram libertados no outono de 2012, após um decreto do presidente Hamid Karzai, e a população total está hoje em 1.043, afirmou Mohammed.

Cerca de metade é formada por prisioneiros políticos. O resto são assassinos, traficantes de drogas e outros criminosos comuns, um testemunho da violência e pobreza do Afeganistão rural.

Um homem chamado Ahmad, numa oficina de bordado, disse tranquilamente: — Eu era alfaiate, mas não consegui ganhar dinheiro suficiente, então... —. Sua voz sumiu. — Bem, estou aqui por roubo.

Numa manhã recente, Ahmad aplicava um bordado branco de padrões complexos num traje típico afegão, calcas largas e camisa. A prisão também oferece aulas de produção de joias, caligrafia, alfaiataria e arte.

Há também aulas de computação, que são particularmente populares entre os que trabalhavam com o Talibã, explicou Asadullah, o professor. Ele está cumprindo uma pena de 15 anos por seu envolvimento com o Talibã na fronteira da província com o Paquistão.

— Mulás e talibãs, eles gostam de estudar inglês, e ficam muito felizes por estarem sendo educados aqui — afirmou ele. — Eles estudam Activ 1 e Activ 2, Excel, Microsoft Word e PowerPoint.

Um detento na aula de caligrafia, Majidnoon, de 22 anos, apostou que o combate, na maior parte, terminará quando os soldados ocidentais partirem, em 2014. — Conforme os estrangeiros deixarem os distritos, as forças de segurança afegãs os substituirão, e o povo não vai querer lutar com elas — disse ele, descrevendo seus planos de retornar à sua aldeia rural no norte de Helmand, dominado pelo Talibã, e se tornar um dos poucos escritores de cartas da região.

Ainda não se sabe se outros detentos encontrarão oportunidades similares atrás das grades ou se voltarão ao combate.

Por enquanto, Hamid está otimista. — Se nós, as autoridades afegãs, pararmos de atacar os prisioneiros e de usar a prisão para ganhar dinheiro, então todas as cadeias do Afeganistão ficarão como a Prisão Central de Helmand — disse ele.

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