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Na ocasião, Boulos, médico e magnata dos negócios, foi muito difamado por parecer estar subornando os desabrigados para participarem de seu próprio despejo. Mas, por fim, desesperado para livrar as praças públicas das pessoas e da sujeira, o próprio governo haitiano e as autoridades internacionais adotaram seu método: o "auxílio-retorno em dinheiro" se tornou a principal ferramenta de realocação.
Isso representa uma queda nas ambições sonhadoras que surgiram depois do desastre, quando o mundo quis não só reparar o Haiti, mas reconstruí-lo. O novo pragmatismo é sinal de que, apesar dos bilhões de dólares gastos – e dos bilhões direcionados para o Haiti mas ainda não gastos –, a reconstrução mal começou e 357.785 haitianos ainda passam necessidades em 496 acampamentos com barracas.
— Quando você olha para as coisas, você diz: 'Caramba, três anos mais tarde, onde está a reconstrução?' — disse Michele Pierre-Louis, ex-primeira-ministra do Haiti. — Se você perguntar o que deu certo e o que deu errado, a resposta é: 'quase tudo deu errado'. Precisa haver uma contabilidade para todo esse dinheiro.
Uma análise de todo esse dinheiro – pelo menos 7,5 bilhões desembolsados até agora – ajuda a explicar por que tal aparente generosidade não é tão palpável aqui na capital eviscerada, onde a maior conquista do mundo é ter finalmente limpado quase todo o entulho.
Mais da metade do dinheiro foi para a ajuda humanitária, que salva vidas e alivia a miséria, mas tem um custo muito alto e não deixa marcas permanentes – as tendas rasgam; comida e água de emergência são consumidas; empregos provisórios acabam; abrigos, clínicas e escolas temporários não são construídos para durar.
De resto, apenas uma porção foi estritamente definida para a reconstrução depois do terremoto. Ao invés disso, muito da chamada ajuda para reconstrução foi destinado a programas caros atuais, como a construção de rodovias e a prevenção do HIV, e para novos projetos muito longe da zona de desastres, como um parque industrial ao norte e um hospital universitário no planalto central.
Enquanto isso, apenas uma fração ínfima das despesas totais – 215 milhões de dólares – tem sido direcionada para a necessidade mais óbvia e urgente: acomodações seguras e permanentes. Em comparação, estima-se que no mínimo 1,2 bilhão de dólares tenham sido engolidos por soluções de curto prazo – barracas, abrigos temporários e doações em dinheiro suficientes para um ano de aluguel.
— Abrigar pessoas é complicado e dá trabalho, e os doadores fogem disso — disse Josef Leitmann, administrador do Fundo de Reconstrução do Haiti.
Além dos números, a lenta reconstrução tem sido o mais recente capítulo desanimador na relação cronicamente disfuncional entre o Haiti e seus benfeitores.
Depois do terremoto, chovendo boa vontade e dinheiro no Haiti, as autoridades internacionais estavam determinadas a usar o desastre como catalisador para transformar não só o intratável país pobre, mas as estratégias ineficientes do mundo para ajudá-lo.
Bill Clinton, o enviado especial da ONU para o Haiti, invocou o mantra do "reconstruir melhor", que ele importou do papel similar que teve no Sul da Ásia depois do tsunami. E a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton avisou os doadores para pararem de trabalhar às margens do governo e ao invés disso, trabalhar ao lado dele, e para pararem de financiar "uma série de dispersões de projetos bem intencionados" ao invés de fazerem "investimentos profundos e de longo prazo".
Mas uma verificação do New York Times mostra que tal idealismo pós-desastre acabou sendo eliminado pela enormidade da tarefa, pela fraqueza e volatilidade do governo haitiano, pela continuação normal do negócio da ajuda, e pela efetividade limitada da agora extinta comissão de reconstrução, que teve Bill Clinton como copresidente.
Sem um plano financeiro detalhado que colocasse em ordem as prioridades da reconstrução, os doadores investiram mais nos setores que eles já beneficiavam antes do terremoto – transporte, saúde, educação, água e saneamento básico – e metade do dinheiro deles para essas áreas foi destinada a projetos começados antes de 2010.
— Uma área onde o dinheiro para reconstrução não chegou foi a reconstrução propriamente dita — disse Jessica Faieta, diretora sênior do programa de Desenvolvimento do Haiti da ONU no país de 2010 até o outono de 2012.
Além disso, enquanto pelo menos 7,5 bilhões em ajuda oficial e contribuições privadas foram, de fato, distribuídos – conforme calculado pelo escritório da ONU de Bill Clinton e pelo New York Times – isso não significa necessariamente que esse dinheiro foi gasto. Às vezes, significa simplesmente que o dinheiro mudou de uma conta bancária para outra, conforme os projetos ficavam atolados.
Esse é o caso para quase metade do dinheiro destinado a moradia.
Os Estados Unidos, por exemplo, há muito tempo distribuíram 65 milhões de dólares para o Fundo de Reconstrução do Haiti, para o maior projeto de moradia planejado para Porto Príncipe. O fundo, que em janeiro de 2011 divulgou uma nota prometendo casas para mais de 50 mil pessoas, transferiu o dinheiro para o Banco Mundial, que está executando o projeto. E lá quase tudo ainda espera, com os contratos apenas assinados.
— Construir leva tempo; é a destruição que é rápida — disse o presidente Michel Martelly em uma recente cerimônia de final de construção do hospital universitário. Mas construir é apenas metade da batalha; a reluzente estrutura branca, erguida pela organização sem fins lucrativos Partners in Health na cidade provinciana de Mirebalais, ainda não garantiu seu orçamento operacional, que varia entre 12,5 e 13 milhões de dólares.
Em contraste, aqui na zona de calamidade, onde o devastado Palácio Nacional acabou de ser demolido e os prédios públicos destruídos ainda precisam ser substituídos, o maior centro médico do país continua em um estado notavelmente dilapidado. Mais de dois anos atrás, Hillary Clinton e Bernard Kouchner, então Ministro das Relações Exteriores da França, assinaram um acordo para reconstruí-lo, mas o hospital geral despedaçado, com algumas renovações temporárias mantendo-o funcional, ainda aguarda sua reforma de 70 milhões de dólares.
Como esse hospital, muitos projetos de reconstrução esperam na prancheta ou foram adiados por disputas ideológicas ou de terra, problemas de logística e de contratação, diminuição na equipe de trabalho e até mesmo pelo clima. Os Estados Unidos ainda têm mais de 1 bilhão de dólares alocados para o Haiti esperando no tesouro público, e o movimento mundial da Cruz Vermelha tem mais de 500 milhões em seus cofres.
— Não é um problema de disponibilidade de dinheiro, mas sim de capacidade de gastá-lo — explicou Rafael Ruiperez Palmero, um oficial de desenvolvimento espanhol no Haiti.
A Espanha desembolsou 100 milhões de dólares para as autoridades responsáveis pela água para a infraestrutura desesperadamente necessária durante a contínua epidemia de cólera, mas as autoridades competentes gastaram apenas 15 milhões até agora. Foram desembolsados milhões para a construção e reforma de 21 escolas, mas apenas uma foi finalizada.
Na minoria dos casos nos quais os doadores deixam que o governo haitiano tome as rédeas, o volume e a complexidade de novos projetos acabou com os recursos das agências nas quais eles estão trabalhando para melhorar. Isso, às vezes, pode causar problemas de frustração.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento, por exemplo, encabeça um programa de reconstrução de escolas plurianual que uma instituição pública do Haiti está executando. O banco esperava que ao menos 21 novas escolas, que estão sendo construídas por firmas haitianas, fossem abertas no final de 2012.
Mas uma inspeção do banco no primeiro semestre detectou várias falhas de design e erros de construção. Uma auditoria completa descobriu que as escolas, apesar de serem financiadas depois do terremoto, não cumpriram as normas antissísmicas ou antifuracão.
Quanto, além do custo de 15,4 milhões de dólares, será necessário para torná-las seguras ainda deve ser determinado, disse Pablo Bachelet, porta-voz do banco. Mas a construção foi suspensa.













