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Baan Pa Chi, Tailândia – Os monges desta vila tailandesa no norte não realizam mais um dos rituais tradicionais do budismo, a caminhada matinal pela comunidade para angariar comida. Em vez disso, os abades do templo ligam para o restaurante local e pedem comida delivery.
— A maior parte do tempo, eu fico dentro da propriedade — disse o abade Phra Nipan Marawichayo, um dos dois monges que vivem no que um dia já foi um templo próspero. — Os valores mudaram com o tempo.
Os telhados dourados dos templos budistas são uma parte tão integral da paisagem da Tailândia quanto os arrozais e as palmeiras. Os templos costumavam ser o coração da vida nas vilas, servindo como ponto de encontro, casa de hóspedes e centro comunitário. Mas muitos se tornaram pouco mais que enfeites do passado, marginalizados por uma queda no número de monges e um aumento da sociedade secular.
— O consumismo é a religião tailandesa de hoje — disse Phra Paisan Visalo, um dos monges mais respeitados do país. — No passado, as pessoas iam aos templos em todos os feriados. Hoje, eles vão ao shopping.
A natureza meditativa da vida monástica é pouco sedutora para a geração iPhone. O número de monges e discípulos em relação à população caiu mais da metade nas últimas três décadas. Há cinco monges e discípulos para cada mil pessoas hoje, comparados a 11 em 1980, quando o governo começou a coletar dados nacionais.
Embora ainda seja relativamente raro o fechamento de templos, muitos distritos estão com tão poucos monges que os abades no norte da Tailândia estão recrutando pessoas além da fronteira, do empobrecido Myanmar, onde os monastérios estão transbordando de discípulos.
Muitas sociedades testemunharam uma mudança gradual do sagrado para o profano conforme se modernizavam. O que mais impressiona na Tailândia é o curto espaço de tempo, um ritmo acelerado de mudanças trazidas pelo rápido crescimento econômico do país. Em um período relativamente curto, o monge budista local passou de autoridade moral, professor e líder da comunidade, abrangendo importantes papéis espirituais e seculares, para alguém cujo trabalho é frequentemente limitado a presidir cerimônias periódicas.
Phra Anil Sakya, secretário assistente do Supremo Patriarcado da Tailândia, a entidade que rege o budismo no país, disse que o budismo tailandês precisava de "uma nova cara" para combinar com o estilo de vida acelerado do país. (Phra é o título honorário dos monges na Tailândia.)
— As pessoas de hoje em dia amam as coisas rápidas — disse ele em uma entrevista. — Nós não tínhamos macarrão instantâneo no passado, mas as pessoas o amam hoje. Em prol da apresentação, nós devemos mudar o modo como ensinamos o budismo e torná-lo descomplicado e fácil de digerir como o macarrão instantâneo.
Segundo ele, os líderes budistas deveriam tornar o budismo mais relevante enfatizando a importância da meditação como um calmante para a vida urbana estressante. O ensino do budismo, ou darma, não precisa esta preso aos templos, disse ele.
— Você pode conseguir darma em lojas de departamento, ou até na internet — disse ele.
Mas Paisan é significantemente mais pessimista em relação ao que é, algumas vezes, chamado de "budismo fast-food". Ele é incentivado pela adoção da meditação entre os muitos tailandeses abastados e pelas boas vendas de livros sobre o budismo, mas percebe incompatibilidades básicas entre a vida moderna e o budismo.
Sua vida é um retrato do asceticismo budista tradicional. Ele vive em uma parte remota da Tailândia central em uma casa de palafita em um lago, ligada à costa por uma ponte de madeira muito frágil. Ele não tem mobília, dorme no chão e fica cercado por livros. Ele pediu ao repórter que o encontrasse às seis horas da manhã, antes que ele conduzisse as orações com seus companheiros monges, quando a neblina ainda estivesse evaporando.
Os monges estão sofrendo uma decadência em "quantidade e qualidade", explicou ele, em parte por que as pessoas mais jovens são atraídas pela vida de riquezas e pelo ritmo acelerado das cidades. A educação monástica dos garotos jovens, outrora em abundância nas áreas rurais, tem sido quase totalmente substituída pela educação secular proporcionada pelo estado.
Segundo o governo, o número de monges no país era de 290 mil em 2011, mas Paisan alega que a Tailândia, na verdade, não tinha mais do que 70 mil monges em período integral – quase o mesmo número de vilas da Tailândia.
Escândalos envolvendo alguns monges têm contribuído para a decadência. As mídias sociais ajudaram a espalhar vídeos de monges dando festas em monastérios, bebendo álcool, vendo vídeos pornôs e se divertindo com homens e mulheres, todas atividades proibidas. Também houve controvérsias envolvendo alegações de desvio de doações aos templos.
William Klausner, professor universitário de direito e antropologia que passou um ano vivendo em uma vila no nordeste da Tailândia nos anos 50, descreveu a influência decrescente dos monges budistas como uma "transformação dramática". Os monges já tiveram um papel crucial na comunidade em que ele vivia, ajudando a resolver disputas entre vizinhos e aconselhando crianças encrenqueiras, escreveu ele no livro "Thai Culture in Transition".
Hoje em dia, a maioria das vilas na área "têm apenas dois ou três monges residentes em período integral, e eles já são idosos e ficam doentes com frequência", escreveu ele.
Em Baan Pa Chi, a cerca de uma hora de carro da cidade de Chiang Mai, ao norte, os moradores descrevem um paradoxo. O monastério hoje tem dinheiro suficiente, ao contrário de décadas atrás, porque os moradores locais e as pessoas da vila que se mudaram para a cidade doaram dinheiro para novos prédios, enfeites e estátuas, acreditando que eles poderiam "ganhar mérito" e melhorar seu carma. Mas o monastério parece vazio na maioria dos dias.
— As pessoas costumavam deixar suas crianças aqui — disse Anand Buchanet, um pedreiro de 54 anos que, quando garoto, era discípulo no templo. — Hoje, só deixam animais abandonados.








