Impressionado com o protesto realizado na França neste domingo, o doutorando Éder da Silva Silveira enviou a Zero Hora as impressões deixadas pelo movimento. Abaixo, confira o texto do professor na íntegra:
"Hoje, ao sair do prédio onde estou morando aqui em Paris, quase fui atropelado por um dos grandes blocos que compunham a manifestação contra o projeto de lei do governo francês “mariage pour tous”, que prevê às pessoas do mesmo sexo o direito de se casarem e adotarem crianças.
O movimento nas ruas, tomadas de manifestantes e policiais, foi tão grande que o metrô na estação “Place d’Italie” ficou fechado, inoperante.
Uns dizem que se opor à legalização de direitos é uma forma de homofobia; outros, que a manifestação contrária ao projeto não se trata de uma manifestação contra gays e lésbicas, mas, sim, uma manifestação para defender o que seria “o melhor para as crianças”.
Ouvi palavras de ordem do tipo “"Papa, maman pour les enfants, c'est évident, ça va mieux en le disant", e alguns gritando que “a figura do pai e da mãe é melhor para a saúde das crianças”! Ora, o número de casais separados e com filhos em Paris me parece altíssimo. Conheci várias famílias aqui nesta situação, onde os filhos não convivem diariamente com as figuras materna e paterna.
Perguntei a uma manifestante oriunda de uma comitiva da fronteira com a Alemanha: E quanto ao número de pais separados... vocês não teriam que fazer uma manifestação quanto a isso também, já que se trata de um movimento que defende o desenvolvimento da criança com a figura do pai e da mãe? Ela me respondeu: “Sim, é verdade. Mas, mesmo assim, elas não deixam de ter alguma convivência tanto com o pai, quanto com a mãe”.
Não sou nenhum especialista no assunto. Posso dizer que a França sofre com a crise econômica, e isto é visível. Nestes meses que estou aqui, fiquei surpreso com a quantidade de pessoas nas ruas pedindo esmola, desabrigadas nas estações de metro, cometendo suicídio... Sem falar no alto custo de vida.
Pergunto-me por que não vemos mobilizações deste porte para diminuir as cifras de crianças sem família ou certas burocracias para pais que querem adotar? É claro que existem fatores culturais e, sobretudo, políticos que devem ser considerados na atual conjuntura da França e do governo de François Hollande para melhor enxergar essa manifestação.
Todavia me parece evidente que o conservadorismo exposto não contribui para estancar os sofrimentos reais de crianças e adultos que precisam de soluções urgentes e racionais.
Acredito que assisti a um movimento que quer impor barreiras para uma proposta que defende a diminuição dos obstáculos legais para problemas reais."
* Doutorando em História na Unisinos, em estágio pelo programa PDSE/CAPES na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris; docente do curso de História da Ulbra São Jerônimo.













