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Porém, Descoings estava decidido a transformar a faculdade quando chegou, em 1996, reformando uma instituição profundamente francesa à imagem de uma universidade dos Estados Unidos, cortejando alunos e professores estrangeiros, aumentando o corpo discente e dando início a uma revolucionária política de ação afirmativa.
Ele trouxe a aclamação internacional para a Sciences Po, cujo nome formal é Institut d'Etudes Politiques de Paris, e também para si mesmo, embora suas modificações por vezes fossem vistas ceticamente na capital francesa.
Ele era tido como visionário — um inovador divisor no mundo às vezes sombrio da burocracia educacional francesa — mas tinha um quê de autocrata. Quando morreu vítima de um ataque cardíaco, aos 53 anos, num quarto de hotel de Nova York na última primavera do Hemisfério Norte, a Sciences Po mergulhou em confusão.
Desde então, num escândalo que abalou seu legado e envergonhou o instituto, uma auditoria governamental demonstrou que a mudança supervisionada por Descoings foi às vezes acompanhada pelo esbanjamento de dinheiro público, que ajudou a bancar um aumento considerável para si mesmo e desembolsos vagamente justificados de muitos outros.
O novo governo socialista tomou o controle da Sciences Po, em novembro, e a colocou numa espécie de concordata, enquanto uma busca contestada e confusa pelo sucessor de Descoings se arrasta.
— Todos podem exultar com o sucesso obtido e o dinamismo que a instituição tem mostrado — disse Didier Migaud, presidente do órgão equivalente ao Tribunal de Contas da França — Porém, esse sucesso tinha um lado oculto que o Cour foi obrigado a também mostrar.
A Sciences Po faz parte de uma pequena lista de alternativas prestigiosas ao sistema universitário público francês. As universidades públicas são abertas a todos os estudantes aprovados no exame de conclusão do ensino médio, o baccalaureat, e o ensino é quase gratuito. Esse não é o caso da Sciences Po, onde o vestibular é famoso pela dificuldade e a anuidade pode chegar a US$ 13 mil para alunos de graduação, muitos dos quais foram aprovados somente após pagar cursos preparatórios caros.
Entretanto, as revelações envolvendo os anos de 2005 a 2010 colocaram em jogo o futuro da escola. Em meio à acusação segundo a qual um grupo de administradores graduados manobrou para colocar seu homem como chefe do instituto após a morte de Descoings, o governo nomeou um diretor provisório para supervisionar as operações do dia a dia e guiar a seleção de um novo líder. Representantes da escola e outros acadêmicos se preocupam com o fato de o governo pretender manter o controle, quem sabe até prejudicando a capacidade da Sciences Po competir internacionalmente.
Existe uma concordância ampla segundo a qual os sucessos recentes da escola brotavam da visão e do estilo de liderança de Descoings.
— Ele tinha uma vontade ardente de inovar — disse Herve Cres, ex-auxiliar de Descoings que atuou como diretor interino após sua morte — Descoings delegava quase nada e era reticente quanto a escrever regras de procedimento que poderiam tê-lo impedido de agir rapidamente.
— Não havia um número dois na Sciences Po — afirmou um representante do governo envolvido diretamente com a gestão da crise — É uma escola que dependia de um homem só.
Descoings disse buscar oferecer novas abordagens para um mundo mutante. Ele triplicou o número de estudantes, chegando a 12 mil — praticamente a metade destes é composta por alunos estrangeiros — e expandiu o ensino em inglês.
O orçamento anual cresceu na mesma medida, praticamente dobrando desde 2005, com a elevação dos subsídios estatais e um aumento acentuado na anuidade. Porém, Descoings também expandiu a ajuda financeira e, em 2001, introduziu um programa de ação afirmativa voltado a estudantes de áreas pobres dos arredores de Paris, o primeiro do gênero no ensino superior francês.
Enquanto os salários das universidades públicas são regulamentados pelo Estado, os professores da Sciences Po recebem salários competitivos. De acordo com o governo, vários dos problemas financeiros da universidade brotaram da "preocupação" com a oferta das "condições de vida mais atraentes possíveis" para possíveis contratações, principalmente de professores estrangeiros.
O pagamento de horas extras nem sempre era justificado — às vezes os professores recebiam o dobro, o triplo ou o quádruplo da quantia habitual por aula — e aumentos de salários e bônus eram distribuídos com poucas justificativas registradas.
O pagamento de Descoings também cresceu abruptamente entre 2005 e 2010, passando de US$ 412 mil anuais para mais de US$ 700 mil, cinco vezes mais do que os mais bem pagos reitores das universidades públicas.
No final de 2010, a Sciences Po também possuía uma dívida de US$ 69 milhões, US$ 20 milhões oriundos de um empréstimo bancário considerado "especulativo e perigoso", segundo Migaud, o chefe dos auditores. Segundo ele, pelo menos parte dessa soma é considerada dívida pública, mas o empréstimo foi tomado sem nem sequer "consultar ou informar" a diretoria do instituto.
Apesar de toda a crítica póstuma a Descoings, ele era admirado pelos alunos e acadêmicos, e ainda se escutam muitos elogios a ele. Em artigo publicado pelo jornal "Le Monde", em dezembro, um grupo internacional de acadêmicos saudou ao Sciences Po como "um modelo de esperança na sociedade francesa".
Eles questionaram — É possível, na comunidade universitária global e até mesmo na estrutura nacional, viver sem o que a Sciences Po de Richard Descoings representa?
Uma comissão governamental vai definir punições aos excessos durante o mandato de Descoings como diretor. Multas, ainda que baixas, são esperadas para alguns dos administradores mais graduados. Mais problemático para a Sciences Po, no entanto, é o fato de o governo buscar modificar os regulamentos da universidade para garantir uma maior supervisão estatal, incluindo a presença de representantes oficiais nas suas diretorias.
— É nítido que o que está em jogo hoje em dia é a capacidade de a Sciences Po permanecer confiável no universo das grandes universidades internacionais — disse Cres, o ex-auxiliar de Descoings.
Jean Gaeremynck, nomeado pelo governo para o lugar de Cres, discordou.
— Não temos temores de nenhuma espécie — afirmou Gaeremynck em entrevista, observando que os futuros alunos pareciam inabaláveis.
Segundo ele, as inscrições de estudantes franceses cresceram acentuadamente este ano. O mesmo também parece válido para as inscrições de alunos estrangeiros.
Afinal, a classe política sempre esteve profundamente entranhada na Sciences Po, especialmente porque muitos políticos e autoridades são professores ou ex-alunos, incluindo diversos membros do órgão responsável pela auditoria. E o novo diretor da universidade, seja ele quem for, somente pode ser confirmado por decreto presidencial.













