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Há pelo menos um ano, pistoleiros sunitas extremistas vêm atacando periodicamente membros da comunidade Hazara, uma minoria xiita de idioma persa que emigrou para cá do Afeganistão há mais de um século. Os assassinos agem com uma naturalidade assustadora, aparentemente sem medo da lei: donos de lojas são mortos em seus balcões, estudantes enquanto jogam críquete, peregrinos são arrastados de ônibus e executados à beira das estradas.
A vítima mais recente, um mecânico chamado Hussain Ali, foi morto a tiros no final de novembro, dentro de sua oficina. Ele se juntou à lista de mais de 100 hazaras mortos neste ano, muitos em plena luz do dia. Geralmente, os atiradores nem se preocupam em cobrir o rosto.
O derramamento de sangue é parte de uma onda mais ampla de violência sectária no Paquistão, onde pelo menos 375 xiitas morreram neste ano – o pior número desde a década de 1990, segundo grupos de direitos humanos. Mas enquanto seus cemitérios se enchem, os hazaras dizem que o mistério não está na identidade de seus agressores, que são bem conhecidos, mas numa questão mais simples: por que o estado paquistanês não consegue – ou não quer – protegê-los.
— Depois de cada morte, não vemos prisões — disse Muzaffar Ali Changezi, engenheiro aposentado e hazara. — Então, se o governo não está apoiando esses assassinos, ele deve estar ao menos os protegendo. Essa é a única forma de explicar como eles operam tão abertamente.
O governo, já enfrentando insurgentes talibãs, insiste que está vendo a ameaça com seriedade. Durante o recente luto de Muhurram, quando xiitas desfilam pelas ruas ao longo de 10 dias, o Ministério do Interior impôs rígidas medidas de segurança, como bloquear o sinal de celulares por até 12 horas – para tentar impedir detonações remotas de bombas – e proibir duas pessoas em motocicletas.
Mesmo assim, sunitas atacaram com bombas pelo menos cinco vezes, matando 50 xiitas e ferindo várias centenas. O Talibã paquistanês alegou responsabilidade pelos maiores ataques, destacando um crescente vínculo entre esse grupo e os tradicionais militantes sectários.
No entanto, a matança descontrolada também levantou dúvidas mais amplas sobre a sociedade paquistanesa: sobre a disseminação de uma ideologia sectária cancerosa num povo que até uma década atrás parecia mais tolerante, e sobre o que estaria estimulando a crescente audácia dos assassinos – alguns dos quais teriam ligações com as forças de segurança do país.
Os assassinatos em Quetta, por exemplo, envolvem muito pouco mistério. Segundo um amplo consenso, os atiradores estão estabelecidos em Mastung, uma aldeia agrícola a 29 quilômetros ao sul que é o movimentado núcleo local do Lashkar-e-Jhangvi, grupo militante sectário mais conhecido do país.
Como tantos grupos paquistaneses que combinam armas com fanatismo, o Lashkar-e-Jhangvi prospera num submundo singular: ele é oficialmente proibido, mas seu líder, Malik Ishaq, foi solto da prisão no ano passado em meio a uma chuva de pétalas de rosas por seus apoiadores. Hoje Malik vive abertamente na província de Punjab, protegido por homens armados, o que lhe permite entregar declarações cheias de ódio a visitantes. Os xiitas são "os maiores infiéis da terra", disse ele a um repórter da Reuters em novembro.
Em Quetta, seus seguidores são igualmente desenfreados. Com o foco nos hazaras – que, com seus traços distintos da Ásia Central, são fáceis de identificar –, os militantes do Lashkar-e-Jhangvi bloqueiam estradas movimentadas enquanto revistam veículos e picham muros com frases de ódio.
— O rosto é o alvo — afirmou o major Nadir Ali, importante líder hazara e oficial reformado do exército. — Eles veem o rosto e então atiram.
Na pior chacina deste ano, militantes arrastaram 26 homens hazaras de um ônibus destinado a um local de peregrinação religiosa no Irã, executando-os na frente de suas esposas. O episódio ocorreu perto de Mastung.
Os ataques são apenas um dos diversos conflitos a assolar Quetta, uma tranquila capital de província hoje dilacerada por uma gama de fissuras étnicas e intrigas violentas, emprestando-lhe um ar de tensão.
Mais notoriamente, a cidade é (ou era) o lar do "Quetta Shura", o conselho secreto da liderança talibã do Afeganistão. Mas para o exército paquistanês, o maior inimigo são os separatistas étnicos balúchis, que mataram três soldados num ataque a bomba no centro de Quetta em 21 de novembro.
Os estrangeiros não estão mais seguros, tratados como espiões ocidentais por autoridades desconfiadas ou sequestrados como parte de um crescente comércio criminoso. Em abril, o corpo decapitado de Khalil Dale, um médico da Cruz Vermelha britânica, foi encontrado perto de Quetta, meses depois que militantes o teriam levado pelo resgate.
Com uma gama tão ampla de ameaças, talvez não seja surpresa que as forças de segurança tenham fracassado em deter a violência sectária. Mas muitos analistas enxergam uma causa mais perturbadora: uma ambivalência fatal, dentro da polícia e dos militares, com relação aos grupos jihadistas.
Embora os militares tenham ostensivamente cortado relações com grupos islamistas como o Lashkar-e-Jhangvi após 2011, alguns ativistas suspeitam que, em nível local, os laços permaneçam.
— As autoridades estão fazendo vista grossa — declarou Ali Dayan Hasan, do Human Rights Watch. — A explicação mais caridosa é que eles são incompetentes. A alternativa é que o exército possui uma aliança informal com os extremistas sunitas.
Um oficial sênior da Frontier Corps, a força paramilitar responsável pela proteção de Quetta, negou acusações de conluio. A situação é "desafiadora", ele admitiu, falando sob condição de anonimato: — Mas não há problema com os hazaras. Nós perseguimos todos os criminosos, sem distinção de seita, casta ou religião.
A política regional também desempenha um papel. Irã e Arábia Saudita financiaram grupos militantes rivais na década de 1990, como parte de uma guerra por procuração, em busca de influência. Especialistas dizem que, embora o financiamento iraniano tenha sido drasticamente reduzido, os fundos sauditas continuam entrando.
Num cabo do Departamento de Estado dos EUA, datado de dezembro de 2009 e publicado pelo WikiLeaks, a Secretária de Estado Hilary Rodham Clinton apontava que "os doadores na Arábia Saudita representam a fonte mais significativa de financiamento a terroristas sunitas do mundo todo".
A sensação de cerco colocou em fuga muitos hazaras mais jovens, que estão trocando suas casas em Quetta pela Austrália, a 9.700 quilômetros de distância e o maior centro da diáspora hazara. É uma jornada cara e perigosa: após pagar até US$ 15 mil a passadores de pessoas, muitos são forçados a enfrentar viagens em barcos precários através do Oceano Índico. Muitas vezes os barcos naufragam no caminho, levando centenas de vidas.
Muhammad Hussain, um professor de 39 anos, contou que dois de seus irmãos haviam ido para a Austrália nos últimos quatro anos – um quase certamente havia se afogado, disse ele; o outro, que partiu há alguns meses, ainda não havia mandado notícias.
— Simplesmente não sabemos o que aconteceu — explicou ele, torcendo os dedos ansiosamente enquanto falava.













