![]()
Se esse pedaço de terra cultivável estivesse à venda, custaria muito mais do que Al Hamka jamais poderia bancar: o lote está avaliado em US$ 25 milhões, ou pelo menos estava antes de o mercado imobiliário entrar em colapso e o terreno ser abandonado sem nenhuma construção.
Para sobreviver, Al Hamka, de 50 anos, um refugiado iraquiano que há três anos vive nos Estados Unidos, cultiva e vende pepinos como os que comia em seu país de origem.
Recentemente, Fidele Komezusenge, de 25 anos, refugiado da República Democrática do Congo, recolheu pedaços de rocha que se soltaram do solo nos canteiros próximos aos de Al Hamka. Komezusenge vai plantar sementes de cenoura e repolho, sua primeira incursão pela agricultura desde que chegou aos Estados Unidos em junho.
Perto dali, Safala Chhetri, de 50 anos, um refugiada do Butão, que chegou em 2009, passou um tempo alternando entre a plantação de espinafre ou couve, mas decidiu, então, dar uma segunda chance às cebolas.
— Eu as plantei no meu quintal no ano passado, mas elas não cresceram muito bem — disse Chhetri.
Os refugiados são agricultores por acaso que tem utilizado um improvável campo urbano que faz parte de um plano ambicioso para transformar terrenos baldios. O lote fica em uma das áreas mais movimentadas desta cidade em expansão, em frente a um pub inglês, perto de uma estação do sistema ferroviário, podendo ser visto dos arranha-céus iluminados que pontuam o centro da cidade.
Em Detroit ou Buffalo, em Nova York, os lotes vazios são lembretes onipresentes do que já existiu, lugares onde ficavam edifícios que foram abandonados durante tempos difíceis que ainda perduram. Aqui, os lotes são um sinal do que pode vir a ser – algo ao mesmo tempo promissor e monstruoso, reunido em uma mistura de ervas daninhas e terra batida.
Em seu discurso de posse, em janeiro, o prefeito Greg Stanton falou sobre os campos como espaços vazios "cheios de oportunidades". Em 19 de novembro, ele deu início às obras no lote onde os refugiados estavam preparando a terra para a agricultura e cuja paisagem árida, em breve, será colorida por árvores frondosas e murais pintados por artistas locais.
Caminhões oferecendo venda de alimentos começarão a operar no local em algum momento, disse ele em uma entrevista, e haverá bastante espaço para que as crianças brinquem e os adultos interajam.
— Queremos mudar o modo como falamos a respeito dos terrenos baldios da cidade — disse Stanton.
O terreno chegou às mãos da prefeitura sem qualquer custo, ao final de uma negociação de permuta de terrenos que envolveu o governo federal e uma construtora privada. Ele costumava fazer parte de um lote mais amplo que comportava um internato para crianças indígenas que foram retiradas de reservas em todo o Sudoeste e trazidas ao local para serem doutrinadas de acordo com os valores euro-americanos. Alguns dos prédios ainda estão de pé, no Parque Escolar Indígena Steele.
A Agência de Assuntos Indígenas, antiga proprietária do terreno, negociou uma área pantanosa na Flórida com uma construtora, a Barron Collier Cos. A cidade, então, transferiu um lote que abriga o parque. Os seis hectares restantes ficaram nas mãos da Barron Collier.
Alguns meses atrás, Stanton perguntou se a cidade poderia emprestar o lote – por três anos, "talvez por mais tempo", se em três anos a construtora ainda não tivesse planos para o terreno. A construtora concordou.
O projeto é simples. Stanton disse que seu objetivo era criar "não um Taj Mahal, mas algo replicável", apto a comportar lotes de todos os tamanhos, em locais de grande visibilidade e em áreas pouco visíveis de bairros pobres.
O lote fica no cruzamento entre a Rua Indian School e a Avenida Central, que corta Phoenix de norte a sul e onde as plantações dos refugiados, eventualmente, ficarão visíveis. Sete famílias prepararam lotes para plantio. Timothy Olorunfemi, coordenador do programa agrícola para o Comitê de Auxílio Internacional em Phoenix – uma agência de reassentamento de refugiados –, disse que 80 famílias estariam trabalhando em breve em um hectare de terra.
A primeira temporada vai até fevereiro ou março; folhas verdes, cebolas e produtos hortícolas estão entre as principais culturas. As culturas a serem cultivadas no verão incluem melões, tomates, berinjelas e, no caso de Al Hamka, seus pepinos.
Al Hamka era mecânico do exército iraquiano, mas aprendeu a plantar com os pais, que cultivavam cevada, trigo e outros grãos na fazenda da família perto do Curdistão. Quando deixou o Iraque com destino a um campo de refugiados na Síria, levou algumas sementes de pepino, que depois trouxe para Phoenix, onde as plantou.
Os pepinos de Al Hamka são de um verde mais claro do que os pepinos encontrados no supermercado daqui, e têm uma casca mais macia e um sabor mais doce. Ele os vende para mercados árabes em Phoenix e San Diego, onde são conhecidos como "pepinos Al Hamka".
Chhetri, graduada em História, também aprendeu a plantar com os pais. Ela contou que paga sua hipoteca aqui com o dinheiro que ganha com a venda de verduras que cultiva em seu quintal.
Komezusenge é engenheiro agrônomo e trabalhou para o Ministério Congolês da Agricultura antes de fugir para um campo de refugiados em Ruanda e, de lá, para os Estados Unidos. Quando chegou a Phoenix, disse:
— Eu fiquei surpreso. A área é muito diferente da África. A África é muito verde. Talvez não tenha agricultura aqui.
Ele contou, no entanto, que foi surpreendido novamente quando viu as folhas brotando no jardim de um vizinho. Ao avistá-las, entendeu que "a terra pode nos dar de comer em qualquer lugar, mesmo no deserto".









