Doralzuela15/12/2012 | 17h01

Reduto venezuelano nos Estados Unidos

Com suporte da população da Venezuela, o caraquenho Luigi Boria foi eleito prefeito de Doral

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Reduto venezuelano nos Estados Unidos Divulgação/Divulgação
Prefeitura de Doral é uma atração turística e o endereço de Luigi Boria, novo chefe do Executivo Foto: Divulgação / Divulgação

Luigi Boria nasceu em 23 de abril de 1958, na capital da Venezuela, Caracas. Em 27 de novembro de 2012, 54 anos depois, elegeu-se prefeito da cidade de Doral, repleta de venezuelanos como ele, mas incrustada no sul dos Estados Unidos. Boria é todo o símbolo de um êxodo.

Nem um mês depois de ter sido eleito em segundo turno com 54,58% dos votos, ele sabe que os 20% de venezuelanos entre os 80% de hispânicos da cidade repleta de campos de golfe e restaurantes de diversas origens o levaram à curiosa condição de ser alcaide caraquenho em cidade americana.

Com uma análise acurada de todos esses determinismos geográficos que pavimentam seu caminho político, o prefeito, um próspero empresário do setor informático, mede cada uma das suas palavras. Afinal, ele é um homem venezuelano, cidadão americano e político doralense. Procura se descolar das origens e mirar o futuro — ainda assim, sabe que sua vitória reforça um reduto familiar aos venezuelanos.

E é inescapável: Boria coincide com outros venezuelanos da cidade ao dizer que firmou raízes na nova terra, para onde acorreu em 1989, o mesmo ano em que o presidente Hugo Chávez chegou ao poder.

O que não é mera coincidência.

— Não tenho acompanhado a política venezuelana. Aqui, quero fazer um governo que coloque as pessoas na frente da política. Quero governar para todos, não só para os hispânicos, que chegam a 85% da cidade. Doral é um exemplo para o mundo, pela convivência entre diversas nacionalidades — diz ele, em entrevista a Zero Hora.

Tantas palavras até podem fazer crer que Boria está com o pensamento distante da sua terra natal. A proximidade, porém, está nas palavras não ditas. Ao falar de Doral como um exemplo de convívio entre diferentes, ele pensa na Venezuela como o país destinatário desse exemplo, de onde saíram muitos conterrâneos justamente pela dificuldade de pensar diferente em sua própria terra.

A mesma Venezuela de Chávez que, nos últimos 14 anos, levou 8.259 pessoas a solicitarem asilo político nos Estados Unidos, segundo dados do Escritório de Estatísticas de Imigração do Departamento de Segurança Interior. A estimativa de José Colina, presidente da organização Venezuelanos Perseguidos Políticos no Exílio (Veppex), é de que 7 mil desse contingente obteve asilo, e 80% deles foram para Doral.

— A vitória de Boria mostra a força da nossa comunidade aqui em Miami — entusiasma-se Colina.

Boria tenta abarcar todos os habitantes da cidade em seu discurso. Mas, claro, enfatiza suas origens e identifica a importância da vitória que teve para o fortalecimento da comunidade venezuelana.

— Infelizmente, muitos tiveram de sair do país. Agora, pretendo criar programas para que grupos como o dos exilados venezuelanos se adaptem a esse sistema e não precisem mais sair daqui — afirma o prefeito.

Emoções que vêm de casa

Doral é uma cidade que acolhe venezuelanos aos magotes e nisso se assemelha a um país, o Panamá, que já é conhecido como "Nova Miami", onde, apenas na Cidade do Panamá, vivem 40 mil venezuelanos. Tanto no Panamá quanto em Doral, os venezuelanos construíram um ambiente onde se sentem mais à vontade do que no seu país de origem. Invariavelmente, falam que deixaram o país de Hugo Chávez devido à insegurança pública e à incerteza política.

O jornalista caraquenho Abel Ibarra, está em Doral faz apenas algumas semanas. Dirigiu o jornal La Gaceta Newspaper, em Tampa (também na Flórida), e está nos EUA desde 2001. Especula que os venezuelanos de Doral não retornariam ao seu país de origem, porque, "contra ventos e marés", conquistavam uma vida tranquila.

— As pessoas já se sentem daqui — diz.

Quando a pergunta é a respeito dele próprio, a resposta é mais incisiva:

— Não, não voltaria. Nenhum perseguido pelo regime, como eu sou, tem garantias de retorno confiável.

Em Doral, Ibarra convive com colombianos, cubanos e dominicanos, além, claro, dos venezuelanos.

— Vivemos mais ou menos em guetos, cada comunidade tem suas próprias atividades, suas tradições. Mas, no final, convivemos mais ou menos harmoniosamente. Nós, venezuelanos, temos identidade com os colombianos, cubanos, dominicanos e porto-riquenhos.

Ibarra conta que a adaptação à vida no exílio "não é fácil", que as novas gerações têm o privilégio de "mesclar a ordem americana e a alegria latina" e que, apesar de as pessoas tocarem suas vidas, elas "têm suas nostalgias".

Com atenção no país de origem

Entre os venezuelanos de Doral dois assuntos que se desenrolam longe dali provocam um debate irreprimível neste fim de semana: a saúde de Chávez e as eleições estaduais de domingo, que podem formatar um novo quadro político.

Na sexta-feira, houve um desconforto diplomático entre os governos dos EUA (país que os acolheu) e da Venezuela. As autoridades venezuelanas se disseram "indignadas" com as declarações do presidente americano, Barack Obama, sobre as "políticas autoritárias" de Chávez. Obama disse que "o mais importante é recordar que o futuro da Venezuela deve estar em mãos dos venezuelanos" ao ser questionado pela rede Univisión, em Miami, a respeito da saúde de Chávez. O presidente venezuelano, de 58 anos, submeteu-se terça-feira, em Cuba, a sua quarta cirurgia contra o câncer detectado no ano passado, quando falta menos de um mês para que tome posse pela quarta vez.

No campo político, as eleições para os governos estaduais são tidas como estratégicas pela oposição, que administra sete dos 23 Estados e espera pelo menos reter essa quota. Em Miranda, é disputado o principal duelo: Henrique Capriles, que conseguiu 45% dos votos na eleição presidencial de outubro — foi derrotado por Chávez — disputa a reeleição contra o ex-vice-presidente Elías Jaua, ex-militante estudantil e aliado de primeira hora do presidente.

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