The New York Times21/12/2012 | 04h18

Proibição ao YouTube é minimizada por afegãos

Parcela conectada do Afeganistão apoia decisão do governo de censurar o site, que se recusou a remover vídeo ofensivo ao profeta Maomé

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Proibição ao YouTube é minimizada por afegãos Bryan Denton/NYTNS
Afegãos com acesso à internet concordam com a censura ao You Tube Foto: Bryan Denton / NYTNS
Azam Ahmed


Cabul, Afeganistão – Em se tratando do YouTube, o governo do Afeganistão pretende manter o dedo sobre o interruptor.

Semanas após o governo afegão proibir o YouTube para evitar a disseminação de um vídeo anti-islâmico, o acesso ao popular site de vídeos ainda não foi restaurado. Embora as autoridades esperem remover o bloqueio "o mais rápido possível", elas ofereceram apenas uma vaga ideia do que precisa acontecer antes disso.

Uma medida de algumas das complexidades do Afeganistão, porém, é que mesmo enquanto defensores de direitos locais temem a censura, uma reação comum à proibição do YouTube nas ruas tem sido o louvor, ou ao menos a ambivalência – mesmo entre alguns dos jovens conectados de Cabul.

— Aquele vídeo ofendeu nosso profeta — declarou Syed Hamid, de 19 anos, recém-formado no ensino médio, num inglês confortável. — Se o YouTube não vai remover o vídeo, então nosso governo está certo em bloquear o acesso a ele. — E acrescentou: — Eu não preciso do YouTube. Posso ver vídeos em outros sites.

Quando um trailer do vídeo "Innocence of Muslims", que retrata o profeta Maomé como um homem grosseiro e mulherengo, começou a circular em setembro, o governo afegão reagiu rapidamente para conter a violência enquanto tumultos explodiam em outros países. Numa medida elogiada por autoridades ocidentais no Afeganistão, as autoridades afegãs voltaram-se a líderes religiosos de todo o país, pedindo que eles pregassem a contenção e a tolerância.

De forma mais controversa, autoridades também decidiram impor a proibição do YouTube após a empresa se recusar a remover o vídeo de seu site.

O país permaneceu basicamente pacífico, para alívio do governo e dos representantes ocidentais locais. Manifestações passadas ligadas à insensibilidade política tornaram-se rapidamente mortais: em fevereiro, quando trabalhadores da OTAN foram vistos queimando Corões perto da Base Aérea de Bagram, os afegãos tomaram as ruas numa violenta demonstração de ódio que causou dezenas de mortes.

Embora os países ocidentais, incluindo a maioria dos envolvidos aqui, recuem ante a ideia de restringir a livre expressão, a lição é menos clara no Afeganistão. Neste caso, a censura funcionou e, em conjunto com a estratégia mais ampla do governo, quase certamente salvou vidas.

Ainda assim, alguns estão fazendo a seguinte pergunta: onde o governo traçou o limite para filtrar informações aos cidadãos? A resposta vem sendo, consistentemente: em qualquer lugar onde o Islã for insultado.

— No mundo islâmico, existem certas coisas que são intocáveis — explicou Jalal Noorani, assessor do ministro da cultura e informação, que iniciou a proibição. — Não seremos pacientes com qualquer coisa desrespeitosa a nossa religião.

Noorani afirmou que o governo não tinha planos de proibir outros sites, desde que eles não desrespeitassem o Islã ou incitassem a violência étnica.

O governo já havia mostrado disposição para censurar transmissões ofensivas. Em 2010, por exemplo, eles fecharam a Emrooz TV depois que a estação local exibiu um segmento sobre muçulmanos xiitas que alguns afegãos consideraram ofensivo.

E uma prolongada guerra verbal com o Paquistão levou autoridades afegãs a proibir, em setembro, os jornais paquistaneses no leste do Afeganistão, alegando que eles eram nada mais do que "ferramentas de propaganda para o Talibã".

Embora sites voltados a vícios como apostas e pornografia tenham sido proibidos há anos, o governo nunca havia bloqueado todo um site de mídia por hospedar um vídeo ofensivo, disseram autoridades. Grupos de direitos humanos argumentaram que a censura compromete as promessas de transparência e abertura do presidente Hamid Karzai.

Quanto a toda a controvérsia sobre a proibição, ela nem pareceu se registrar para muitos jovens de Cabul.

Numa tarde recente, centenas de jovens se reuniam numa praça ao lado do mercado Pul-e-Khesti, onde se formou um verdadeiro empório de celulares. Homens agitavam telefones enquanto gritavam preços para a multidão. Vendedores se sentavam em mesas improvisadas, cobrando taxas nominais para baixar música e vídeos em dispositivos móveis.

O mercado é exatamente o tipo de lugar que, segundo o governo, poderia se tornar um ímã para violência se o vídeo – ou até mesmo notícias de seu conteúdo – se espalhar de telefone a telefone. Embora a maioria dos afegãos não tenha computadores, os celulares se tornaram onipresentes ao longo da última década, e estima-se que três quartos dos afegãos tenham acesso a dispositivos móveis que podem acessar vídeos.

— Enquanto esse vídeo antiprofeta estiver no YouTube, nosso governo deverá manter o site bloqueado — afirmou Javeed Khawrin, de 21 anos, que fazia compras no mercado. — Se eu tivesse poder, destruiria toda a região onde o vídeo foi gravado.

Subhanullah, de 24 anos, um soldado do exército afegão que veio ao mercado para consertar seu celular e que, como muitos afegãos, usa apenas um nome, disse que o vídeo "cria mais inimigos, entre nossos soldados, contra as tropas estrangeiras que estão aqui".

As opiniões eram parecidas no Jardim das Mulheres da cidade, um santuário de rosas, árvores frondosas e balanços, financiado por ajuda do Ocidente.

Nilab Khursihid, de 18 anos, declarou saudar a decisão do governo de manter a proibição, e inclusive sugeriu estendê-la a todos os materiais que sejam nocivos ou desrespeitosos – incluindo cartuns que satirizam Karzai.

— Nossa comunidade é assim — explicou ela, sentada com amigas no jardim. — A internet vem desencaminhando muitos jovens.

O jardim, no bairro de Shahrara, possui uma biblioteca, um laboratório de computação e um ginásio para mulheres. Pequenas lojas vendendo brinquedos, lingerie e vestidos forram o muro interno do complexo. Perto dali, uma jovem se sentava inquieta ao volante de um Toyota, fazendo aulas de direção – uma liberdade desconhecida no resto da cidade.

Mariama Ahmadi, de 23 anos, dona de uma loja de vestidos, ofereceu outra perspectiva. Mesmo concordando que o vídeo deve ser removido, ela acha que proibir o site foi um erro. Ela disse preferir a autocensura, e a liberdade de cada um decidir por si mesmo.

— Todos nós podemos fazer nossas próprias escolhas e decidir o que acessar — afirmou ela, seu rosto emoldurado por um lenço negro. — O governo não deveria dizer ao povo o que fazer.

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