The New York Times11/12/2012 | 05h00

Plano de construção coloca em risco o sonho de paz entre Israel e Palestina

Projeto para área conhecida como E1 pode representar o fim da possibilidade de uma solução para os dois Estados

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Plano de construção coloca em risco o sonho de paz entre Israel e Palestina Rina Castelnuovo/NYTNS
Na foto, local de Jerusalém Oriental com vista para região chamada de E1 Foto: Rina Castelnuovo / NYTNS
Jodi Rudoren


Jerusalém – No alto de uma área montanhosa a leste da cidade há uma pátio de pedra com um par de bancos verdes de metal e uma placa marcando a pedra fundamental de uma futura comunidade judaica. Erigida em 2009, a placa promete que uma nova cidade será construída "ao lado de uma Jerusalém unida, que será restabelecida em breve".

Jerusalém é considerada a capital tanto de Israel quanto da Palestina e está longe de ser unida, pois os graves conflitos em torno da expansão da cidade são a principal ameaça às possibilidades de paz. Além da pedra fundamental, nada foi construído desde então nessa disputada área de 11,9 quilômetros quadrados conhecida como E1, onde há mais cabras que pessoas.

Entretanto, o recente anúncio israelense de que a área será preparada para construções pode mudar essa situação e muitas pessoas temem que isso possa representar o fim da janela de oportunidade para uma solução de dois Estados para o interminável conflito entre Israel e a Palestina.

As construções na E1, parte do território da Cisjordânia invadido por Israel na guerra de 1967, conectariam o grande assentamento judaico de Ma'ale Adumim a Jerusalém, dividindo a Cisjordânia em duas partes. As cidades palestinas de Ramallah e Belém seriam desligadas da capital, tornando praticamente impossível a existência de um Estado palestino contíguo, reconhecido pelas Nações Unidas.

Ainda que as autoridades israelenses não considerem a medida uma retaliação à recente votação na ONU, muitas pessoas acreditam que o momento não seja uma mera coincidência.

— Parecem duas crianças de 3 anos brigando, quando uma está batendo e a outra estapeando, ao invés de se sentarem — afirmou Alex Lash, de 56 anos, um israelense que tomava café da manhã no agitado bairro palestino de Beit Hanina depois de um passeio de bicicleta de três horas. — É uma história sem fim: nós fazemos, eles reagem e cada ação acarreta em uma reação do lado contrário. Isso não tem fim.

Zakaria al-Qaq, professor de segurança nacional na Universidade Al Quds e morador do bairro de Silwan, em Jerusalém Oriental, também acredita que a situação seja um irremediável "ciclo de ação e reação", afirmando que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está sob pressão por conta das eleições israelenses no dia 22 de janeiro.

— Os palestinos obtiveram uma vitória do ponto de vista burocrático e moral, mas Netanyahu conquistou um pouco mais de território — afirmou al-Qaq. — O primeiro-ministro israelense está tentando obter vitórias territoriais para conquistar a mentes e o coração dos eleitores israelenses. É uma mensagem clara aos líderes palestinos, mostrando que Netanyahu ainda tem cartas escondidas na manga.

O desenvolvimento da E1 é um projeto que foi bloqueado diversas vezes pelos Estados Unidos desde 1994 e sempre foi visto como um tabu diplomático. Por essa razão diversos especialistas acreditam que Israel desistirá da empreitada. Entretanto, muitos outros projetos controversos estão sendo realizados em Israel nos últimos meses, causando a ira dos líderes palestinos, da esquerda israelense e da comunidade internacional, que enxerga os assentamentos como uma óbvia violação das leis internacionais.

Além do loteamento e dos planos para a E1, Israel aprovou a construção de 3.000 novas moradias em partes não especificadas de Jerusalém Oriental e da Cisjordânia.

Dani Seidemann, advogado de Jerusalém e antigo ativista antiassentamentos, afirmou que mesmo antes das últimas decisões, o governo havia proposto a construção de 2.366 novas moradias em 2012, mais que o dobro das unidades construídas nos três anos anteriores.

Isso inclui mais de 1.200 unidades em Ramot e Pisgat Ze'ev – antigos bairros israelenses de alta classe, com mais de 40.000 moradores que invadiram Beit Hanina, no extremo norte da cidade. No fim do mês passado, a aprovação de 2.610 unidades em um assentamento na zona sul da cidade, conhecido como Givat HaMatos, foi postergada após pressões internacionais causadas pelo fato de que a votação foi realizada enquanto a Secretária de Estado Hillary Rodham Clinton estava na região tentando negociar um fim aos sangrentos ataques israelenses à Faixa de Gaza.

— Estamos chegando a um ponto sem volta — afirmou Seidemann durante um passeio pela região. — Esse é o maior assentamento em Jerusalém desde os anos 1970.

Israel começou a construir e expandir Jerusalém Oriental em 1968, logo depois de usurpar o controle da área que pertencia à Jordânia. Na época, havia mais de 69 mil palestinos vivendo na região. Agora, há quase 300.000 palestinos e mais de 190 mil judeus vivendo em dezenas de comunidades separadas e espalhadas ao norte, leste e sul da Cidade Velha, chamada por todos de Jerusalém Oriental. (Cerca de 2.500 judeus também criaram assentamentos com casas contíguas, em bairros de alta densidade populacional, como Silwan e Sheikh Jarrah.)

A maior parte dos israelenses não vê essas áreas como assentamentos; Israel anexou Jerusalém Oriental em 1967 e considera a cidade toda como a capital nacional, ainda que boa parte do planeta considere Jerusalém Oriental como um território ocupado.

O prefeito de Jerusalém, Nir Barkat, embarcou em um ambicioso plano de desenvolvimento desde que foi eleito em 2008. Os mapas da cidade não definem os bairros como judeus ou palestinos e os assessores de Barkat afirmam que as novas construções beneficiariam ambas as comunidades.

— Jerusalém precisa continuar a ser uma cidade unida sob todas as circunstâncias — afirmou Barkat em uma entrevista por e-mail, nesta primavera, a respeito do assentamento de Givat HaMatos. — Não há exemplo de cidade dividida, seja do ponto de vista administrativo ou territorial, que já tenha funcionado. Pergunte aos berlinenses o que eles acham da ideia.

Mas Hanan Ashrawi, membro do comitê organizador da Organização pela Liberação da Palestina, afirmou que Israel está agindo com "força bruta" para "impor sua própria solução ao conflito".

— Eles querem escolher o destino e a situação de Jerusalém — afirmou em uma entrevista. Segundo ela, — Israel faz o possível para criar condições que impossibilitem qualquer tipo de solução.

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