The New York Times21/12/2012 | 05h34

Mudanças demográficas redefinem o que é ser coreano

Coreia do Sul, que há apenas uma década se orgulhava de possuir "um sangue só", hoje encara a possibilidade de se tornar uma sociedade multiétnica

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Mudanças demográficas redefinem o que é ser coreano Woohae Cho/IHT
Jasmine Lee se tornou a primeiro cidadã naturalizada a ganhar um assento na Assembleia Nacional da Coreia do Sul Foto: Woohae Cho / IHT
Choe Sang Hun


Seul, Coreia do Sul – Jasmine Lee percebe o quão coreana se tornou quando ela dispara no idioma, esquecendo que sua mãe filipina do outro lado do telefone não consegue entendê-la. Mas ela é lembrada dos limites da assimilação quando os coreanos, impressionados com sua fluência, comentam: — Você soa mais coreana do que os coreanos.

Lee, de 35 anos, que nasceu nas Filipinas com o nome de Jasmine Bacurnay, fez história em abril ao se tornar a primeira cidadã naturalizada – e a primeira coreana não nativa – a ganhar uma cadeira na Assembleia Nacional da Coreia do Sul. Sua nomeação refletiu uma das mudanças demográficas mais significantes na história moderna do país, uma mudança que Lee define como uma que "os coreanos entendem com o cérebro, mas ainda têm que abraçá-la com o coração".

Há apenas uma década, os livros escolares ainda incitavam os sul-coreanos a se orgulharem de terem "um sangue só" e hegemonia étnica. Agora o país está encarando a possibilidade de se tornar uma sociedade multiétnica. Embora a população de pessoas que nasceram fora do país ainda seja pequena comparada a países com tradição de imigração, é suficiente para desafiar o modo como os sul-coreanos se veem.

— É hora de redefinir um coreano — disse Kim Yi-seon, chefe de pesquisa sobre multiculturalismo no Instituto Coreano de Desenvolvimento da Mulher, financiado pelo governo. — Tradicionalmente, um coreano é alguém que nasceu de pais coreanos na Coreia, que fala coreano e tem nacionalidade e aparência coreanas. As pessoas não acham que outra pessoa é coreana só por que ela tem uma cidadania coreana.

Entre os fatores que levam a esse desenvolvimento está o influxo de mulheres do sudeste da Ásia que vêm para se casar com homens sul-coreanos do interior que têm dificuldades para encontrar mulheres dispostas a viver a vida no campo. O número de casamentos com imigrantes cresceu para 211 mil no ano passado, de 127 mil em 2007, a maioria de mulheres do Vietnã e de outros países mais pobres da Ásia atraídas por uma vida melhor na Coreia do Sul.

Nas cidades industriais, jovens de Bangladesh e do Paquistão trabalhavam nos empregos rejeitados pelos coreanos por serem muito sujos ou perigosos, proporcionando a mão de obra mais barata de que a economia voltada para a exportação da Coreia do Sul precisava para competir com a China. O número desses trabalhadores praticamente dobrou para 553 mil no ano passado, dos 260 mil em 2007 – sem contar aqueles que ficaram no país além da validade do visto e que trabalham ilegalmente.

Um em cada 10 casamentos na Coreia do Sul envolve uma esposa estrangeira. Embora os números totais de crianças nas escolas na Coreia do Sul tenha diminuído – para 6,7 milhões este ano, de 7,7 milhões em 2007 – como resultado de uma das menores taxas de natalidade do mundo, o número de estudantes multiétnicos aumentou 6 mil por ano no mesmo período.

— Uma sociedade multicultural não está por vir; já está aqui — Lee, membro do governo do Partido Saenuri, disse em uma entrevista em seu escritório na Assembleia Nacional.

Ainda assim, sua nomeação expôs o quão longe a Coreia do Sul está desse ideal, sugerindo um caminho difícil a ser seguido conforme se molda às mudanças demográficas.

Depois da eleição de Lee, ativistas anti-imigração avisaram que as "ervas daninhas" de fora estavam "corrompendo a linhagem coreana" e "exterminando a nação coreana" e incentivou os partidos políticos a se "purificarem", expulsando Lee da Assembleia Nacional.

O Primeiro Ministro Kim Hwang-sik condenou tais surtos xenofóbicos como "patológicos" e insistiu para que os sul-coreanos aceitassem a transição para uma sociedade multicultural "não como uma escolha, mas como um imperativo".

O papel da etnia na autoimagem dos sul-coreanos explica por que eles têm tanto orgulho com o sucesso de coreanos internacionalmente, como o novo presidente do Banco Mundial, o coreano-americano Jim Yong Kim. O que também explica por que eles consideraram uma vergonha nacional que um americano nascido na Coreia do Sul, Seung-Hui Cho, de 23 anos, tenha matado 32 pessoas em um ataque a tiros na Universidade Virginia Tech em 2007 antes de se suicidar, embora ele tenha emigrado com sua família quando tinha 8 anos de idade.

Dado esse pano de fundo cultural, os formuladores de política coreanos enfrentam uma difícil tarefa para integrar as famílias multiétnicas e evitar perturbações sociais e econômicas frequentemente atribuídas aos imigrantes de outros lugares.

— Eles trazem contendas religiosas e étnicas para nosso país, onde não havia nenhuma antes — disse Kim Ky-baek, editor do site nacionalista Minjokcorea e um dos críticos da política do governo de admitir e proporcionar benefícios sociais para noivas estrangeiras e trabalhadores migrantes. — Eles criam um obstáculo para a unificação nacional. A Coreia do Norte adere ao nacionalismo do sangue puro, enquanto o Sul está se tornando uma miscelânea de sangues misturados.

O desafio para a Coreia do Sul é se ele pode "redefinir a nação, abraçando as pessoas que não compartilham do mesmo sangue em uma Coreia mais ampla", disse Chung Ki-seon, pesquisador sênior no IOM Migration Research and Training Center.

Jasmine Lee testemunhou a evolução demográfica da Coreia do Sul em primeira mão.

Em 1994, enquanto era estudante na faculdade, ela conheceu seu futuro marido, Lee Dong-ho, segundo imediato em um navio cargueiro sul-coreano, quando ele entrou na loja de seus pais em Davao, no sul das Filipinas. Ele mandou cartas e presentes de portos ao redor do mundo. Quando eles se casaram em 1995, ela era a única estrangeira no bairro deles em Seul. (O marido dela morreu afogado em um acidente em 2010.)

Em 1995, Lee teve problemas para achar uma instituição que ela pudesse pagar em Seul, onde pudesse estudar coreano como segunda língua. Agora que o governo reconheceu uma sociedade multicultural como o futuro do país, ele introduziu ou patrocinou uma enorme quantidade de programas e centros – agora já são mais de 200, para dar assistência aos migrantes e a seus filhos. Os governos local e nacional proporcionam subsídios para creche e descontos em salões matrimoniais. Os instrutores visitam famílias multiculturais para lhes ensinar coreano às custas do governo.

E este ano, pela primeira vez, a Coreia do Sul começou a aceitar cidadãos coreanos de diferentes etnias nas forças armadas. Anteriormente, o exercito alegava que uma cor de pele diferente faria com que eles se destacassem e prejudicassem a unidade.

Mas se o apoio do governo tem melhorado, Lee garante que o sentimento popular parece ter esfriado. Coreanos que se casaram com mulheres estrangeiras, apenas para serem abandonados por mulheres que os exploraram para imigrar e trabalhar na Coreia do Sul, têm se juntado contra a política multicultural do governo. Enquanto isso, os coreanos de baixa renda acusam os trabalhadores imigrantes de roubarem seus empregos.

O próprio governo é acusado de promover a xenofobia ao requerer que os estrangeiros vindos à Coreia do Sul para ensinar inglês passem por testes de HIV, enquanto não pedia o mesmo para sul-coreanos exercendo a mesma função. No ano passado, uma coreana nascida uzbeque virou notícia ao ser proibida de entrar em um banheiro público cujo proprietário disse ter medo de HIV entre os estrangeiros.

— Em 1995, as pessoas me adoravam por que eu dizia 'olá' e 'obrigada' em coreano, embora isso fosse praticamente tudo que eu sabia do idioma — disse Lee. — Em meados de 2000, no entanto, as pessoas começaram a me olhar com suspeita. No ônibus eles perguntavam: 'porque você está aqui?'.

Lee disse que costuma evitar reuniões de pais e mestres na escola de seu filho por medo de que ele sofra bullying se outros alunos soubessem de suas raízes multiétnicas. Havia muitas notícias para justificar o medo dela.

Lee diz que era seu desejo ver as crianças – ela também tem uma filha – viverem em uma sociedade aberta e justa que a atraiu primeiro para a televisão e depois para a política. Graças a suas habilidades com o idioma e sua aparência, ela conseguiu papéis em filmes e passou a fazer um programa na TV que tem foco nas famílias multiculturais.

Mas Lee acha que a Coreia do Sul ainda tem um longo caminho a seguir.

— Em um programa recente, supostamente direcionado para a harmonia multicultural, os organizadores dividiram os participantes em um ônibus para 'coreanos' e outro para 'famílias multiculturais' — disse ela. — Eu vislumbro uma sociedade que não precise de uma tarja de 'multicultural'.

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