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Enquanto os ventos do norte espalham os primeiros flocos de neve nas montanhas que cercam esta cidade medieval, aqueles que fugiram para cá após o desastre nuclear de Fukushima, no ano passado, estão perdendo as esperanças de voltarem a suas antigas casas.
O prefeito de Okuma, cidade próxima da usina de Daiichi, em Fukushima, que foi rapidamente evacuada quando um terremoto com tsunami afetou os sistemas de resfriamento dos reatores, em 11 de março de 2011, prometeu levar os moradores de volta para casa assim que os níveis de radiação estiverem baixos o suficiente.
Mas a lentidão dos esforços de limpeza do governo obrigou as autoridades locais a admitir, em setembro, que a reocupação da cidade poderá levar pelo menos mais uma década.
Um crescente número de evacuados de Okuma se torna pessimista a respeito de voltar a morar na cidade. Num complexo temporário de moradias em Aizu-Wakamatsu, cidade a 97 quilômetros a oeste da usina, os moradores mais idosos dizem não ter energia suficiente para reconstruir sua cidade.
Muitos disseram preferir planos que os retirassem das moradias temporárias, mas ajudando-os a manter os laços criados ao longo de uma vida – como reconstruir a cidade mais longe da usina.
— Eu era uma dos que diziam: 'Nós voltaremos, nos voltaremos —, afirmou Toshiko Iida, de 78 anos, que abandonou sua plantação de arroz ao sul da usina. — Agora eles estão dizendo que levará anos até que possamos voltar. Quando isso acontecer eu estarei morta.
Tais sentimentos de resignação são compartilhados por muitas das 159 mil pessoas que saíram de suas cidades depois que o terremoto e o tsunami causaram a catástrofe na usina de Fukushima, espalhando radiação por uma ampla área no nordeste do Japão no pior acidente nuclear desde o desastre de Chernobyl, em 1986, no que era a União Soviética.
Após serem tranquilizados pelas autoridades de que o acidente não fora tão ruim assim, e então estimulados quando o governo iniciou seu custoso esforço de descontaminação, muitos evacuados estão finalmente aceitando que pode levar décadas, talvez até gerações, até que sua cidade seja restaurada ao que era antes do desastre.
—Todos queremos voltar, mas temos de encarar o óbvio — disse Koichi Soga, de 75 anos, um carpinteiro aposentado que já trabalhou nos prédios de reatores da usina. — Veja a União Soviética. Eles ainda não voltaram, não é?
Essas atitudes levaram a uma perda pública de esperança pelos 11.350 moradores desalojados de Okuma, uma das 19 comunidades num raio de 19 quilômetros da usina que foram evacuadas.
Depois de morar em ginásios e abrigos por cerca de um mês, as autoridades de Okuma e 4.300 de seus moradores foram para locais temporários em Aizu-Wakamatsu. Os outros permanecem espalhados por regiões tão distantes quanto Tóquio, a 225 quilômetros de distância.
O prefeito, Toshitsuna Watanabe, começou imediatamente a traçar planos de retorno a Okuma – envolvendo um grupo para se reinstalar num pequeno canto da cidade, onde os níveis de radiação eram relativamente baixos. Essas pessoas expandiriam lentamente as áreas habitáveis, descontaminando uma rua por vez – como colonizadores conquistando uma região pós-apocalipse.
No último outono, o plano ganhou aprovação quando os moradores de Okuma reelegeram Watanabe contra um adversário que defendia a construção de uma nova cidade num local mais seguro. As esperanças ainda estavam altas no início deste ano, quando o Ministério do Meio Ambiente iniciou um programa de descontaminação, com orçamento de US$ 4,8 bilhões somente para 2012, que empregou um pequeno exército de trabalhadores para raspar a camada superior do solo, podar árvores e limpar edifícios em Okuma e outras comunidades evacuadas.
Mas o ministério declarou, neste verão, que um esforço experimental para descontaminar uma região de 17 hectares em Okuma havia fracassado em reduzir as dosagens de radiação ao nível esperado, levando autoridades a declarar a cidade inabitável por pelo menos outros cinco anos. Isso obrigou as autoridades de Okuma a alterar o prazo de seu "mapa de campo" para repovoar a cidade em 2022, em vez de 2014.
— As pessoas estão desistindo porque fomos atingidos repetidamente por más notícias — afirmou Watanabe, de 65 anos, que montou uma prefeitura temporária num antigo colégio de moças, dentro de um castelo de seis séculos em Aizu-Wakamatsu. "Manter nossos planos é a única maneira de nos agarrarmos à esperança e impedirmos que a cidade desapareça."
Watanabe reconhece que seu plano possui um número cada vez menor de apoiadores. Em resposta a um questionário enviado aos evacuados de Okuma pela prefeitura da cidade, em setembro, apenas 11 por cento das 3.424 famílias que responderam disseram querer voltar, enquanto 45,6 por cento afirmaram não ter nenhuma intenção de voltar – principalmente por medo da radiação.
A esperança de um retorno sofreu novo golpe no início de novembro, quando funcionários do Ministério do Meio Ambiente disseram a Watanabe que pretendiam construir, em Okuma, até nove instalações temporárias de armazenamento de terra e outros destroços da limpeza. Muitos evacuados declararam que não voltariam se sua cidade fosse ser usada como lixeira de dejetos radioativos.
No local de moradia temporária, onde apartamentos pré-fabricados se enfileiravam como barracas num antigo campo de futebol, muitos evacuados disseram ter sido autorizados a voltar a suas casas em Okuma, usando roupas de proteção, para recuperar alguns pertences. Muitos afirmaram que, com o passar dos meses, está se tornando emocionalmente mais difícil pensar em dedicar tempo e energia para reconstruir.
— Toda vez que volto, o lugar se parece menos com minha casa — afirmou Hiroko Izumi, de 85 anos.
Muitos outros disseram que a cidade precisava se mexer rapidamente para manter seu número relativamente pequeno de moradores em idade para trabalhar, que já começaram a encontrar empregos e iniciar vida nova em locais como Aizu-Wakamatsu.
—Se passar tempo demais, Okuma pode simplesmente desaparecer — afirmou Harue Soga, de 63 anos, profissional de saúde.
Para aqueles que não querem voltar, Okuma traçou um plano alternativo, em setembro, que prevê a construção de uma nova cidade em terras seguras fora da zona de evacuação. A nova cidade – incluindo uma prefeitura, postos de polícia, bombeiros e moradias – seria construída em cinco anos.
Watanabe admite estar junto a uma minoria de ex-moradores, que ainda está determinada a voltar à Okuma original.
Ele descreve uma ligação quase espiritual à terra onde sua família cultivou arroz por pelo menos 19 gerações, e que ali também estão os túmulos da família – algo que a tradição de Confúcio proíbe abandonar.
— Nós vivemos lá por mil anos — disse ele. —Prometi a mim mesmo que, algum dia, voltarei a comer meu próprio arroz, cultivado nas plantações de meus ancestrais.









