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Combatentes paramilitares invadiram a cidade no começo de 2000 e acusaram os moradores de serem simpatizantes dos guerrilheiros esquerdistas. Eles reuniram centenas de pessoas na praça principal, ameaçaram matá-las e ordenaram que saíssem de suas casas e fazendas. Todos os moradores fugiram.
Hoje, a praça está sufocada em ervas daninhas. Morcegos empoleiram-se na única casa que ainda tem telhado. A tinta verde está descascando do quadro negro em uma escola abandonada.
Trazer as pessoas de volta a Mampujan e outras comunidades rurais que foram aterrorizadas por guerrilheiros e outros grupos paramilitares e traficantes de drogas tornou-se prioridade do governo colombiano, que iniciou um programa nacional ambicioso para devolver hectares de terra a dezenas de milhares de agricultores refugiados. Mas o esforço tem sido complicado tanto pela dificuldade logística de escolher quem é dono dos terrenos há muito abandonados ou disputados quanto pelo medo extremo que ainda permanece entre os que partiram.
— O amor que tenho por minha terra, não perdi — afirmou Marquesa Lopez, de 61 anos, lembrando-se dos 26 hectares onde ela e família cultivavam mandioca e milho e criavam gado. Como outros residentes deslocados de Mampujan, ela finalmente se mudou para um assentamento provisório fora da cidade próxima de Maria la Baja.
— Eu tinha minha família, minhas bananeiras, minhas palmeiras de coco, minhas galinhas — afirmou. — Agora quero viver essa vida novamente.
Em outubro, um juiz agrário especial deu a Lopez e seu marido, Carlos Arturo Maza, e outras 13 famílias de Mampujan o título da terra que perderam, a primeira decisão do tipo sob uma nova lei de restituição de terra que é o ponto central do esforço do governo para tratar dos efeitos de anos de violência e de desigualdades duradouras em áreas rurais.
O esforço está se desdobrando enquanto o governo começa as conversações de paz com o maior grupo guerrilheiro do país, As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou as FARC.
A distribuição desigual de terra na zona rural empobrecida da Colômbia, onde pobres agricultores eram marginalizados ou explorados pelos proprietários de terras ricos, foi um fator principal na criação das FARC há quase 50 anos, e ela continua a alimentar o conflito.
Agora, o governo vê a lei de restituição da terra como uma alavanca crucial na mesa de negociação.
— Isto é algo que derruba uma de suas bandeiras — o Presidente Juan Manuel Santos afirmou em outubro.
Mas para isso ser verdade, Santos tem que cumprir a promessa do programa, uma tarefa enorme e extremamente complexa.
O governo já recebeu mais de 27 mil reivindicações de posse sobre mais ou menos 2 milhões de hectares de terra, e mais continuam a chegar. Cada reivindicação deve ser investigada e depois ter o parecer de um juiz. Muitas são assustadoramente complexas, envolvendo disputas de posse com pouca ou nenhuma documentação.
— É claro que é complicado, e é difícil, mas qual seria a alternativa? disse Juan Camilo Restrepo, o Ministro da Agricultura. — Cruzar os braços? É o que algumas pessoas queriam que acontecesse, não fazer nada e validar com o silêncio e inércia 25 anos de invasão de terras.
Os críticos afirmam que o processo é muito lento e desajeitado, e questionam o comprometimento do governo em enfrentar os poderosos proprietários de terra e seus aliados políticos.
— Seria uma lástima se isso terminasse com 10 casos que entram na história quando, sim, conseguimos fazer isso, e milhares de casos que não puderam ser feitos — afirmou Ivan Cepeda, um legislador da oposição.
Restrepo disse que aproximadamente 300 pessoas relataram ter sofrido ameaças em relação à reivindicações de terra no novo programa e que o governo está tomando as medidas para proteger 159 delas – em muitos casos, fornecendo guarda-costas.
Mayerlis Angarita, com 32 anos, ativista que visita aldeias distantes incentivando as pessoas as fazerem reivindicações de terras na região das montanhas baixas no entorno de Mampujan, chamada de Montes de Maria, viaja com guarda-costas designados pelo governo devido a repetidas ameaças.
No dia 28 de agosto, um pistoleiro atirou nela nas ruas de sua cidade natal, San Juan Nepomuceno. Ela não foi atingida, mas se feriu ao correr para se proteger.
— Encontra-se paz aqui nas estradas secundárias — afirmou, enquanto seu guarda-costas dirigia um utilitário à prova de balas em uma área onde combatentes paramilitares ainda impõem um toque de recolher noturno quem mantém as estradas locais livres para o tráfico de drogas. — Eles não podem nos forçar a sair daqui.
Mas muitos ativistas fugiram. Em algumas semanas, panfletos ameaçadores estiveram em circulação, assinados por um grupo chamado Exército Antirrestituição. Ativistas acreditam que os panfletos estão ligados aos proprietários de terra e seus aliados entre paramilitares e traficantes de drogas.
— Os grupos armados e as máfias criminosas que estiveram inicialmente envolvidos no deslocamento continuam em operação — disse Max Schoening, o pesquisador da Vigilância dos Direitos Humanos na Colômbia. — A não ser que desmantelem esses grupos e os responsabilizem, não iremos erradicar a fonte subjacente de ameaças e intimidações.
Mampujan era o lugar provável de início do programa de restituição porque a maioria das terras agrícolas permanece desocupada e não existe ninguém para disputar a propriedade do morador. Mas muitas das reivindicações de posse envolvem terras atualmente nas mãos de proprietários que lutam para mantê-las, inclusive guerrilheiros e ex-chefes de grupos paramilitares.
Em muitos casos, os agricultores venderam as suas terras sob pressão, geralmente a preço baixíssimos.
Fanny Martelo e o marido, Ismael Montes, fugiram de uma fazenda de 45 hectares em uma aldeia chamada Palmito em 1992. Martelo explicou que seu marido e outros agricultores foram convocados para uma reunião em 2008 por uma empresa que comprara do governo uma carteira de empréstimos agrários inadimplentes. Ela disse que os agricultores foram pressionados a vender para liquidar as dívidas.
O marido de Fanny Martelo concordou em vender para um empresário de Medellín, Ruben Dario Velez. Como parte do acordo, no qual Fanny Martelo e o marido receberam 5.500 dólares em dinheiro, Velez concordou em pagar o empréstimo e as taxas associadas, Fanny Martelo afirmou.
Ela disse que Velez então contatou a família em outubro, após ela e o marido registrarem uma reivindicação sob a nova lei de restituição. Ele ameaçou colocá-los na cadeia e prometeu manter a propriedade, afirmou.
Velez negou o relato dela. Advogados da unidade de restituição do governo em Carmen de Bolívar, onde Fanny Martelo e o marido agora vivem, disseram que estavam investigando várias reivindicações envolvendo Velez e outros compradores a fim de ver se eles representavam vendas de terra por coerção.
Os que recuperaram suas terras ainda enfrentam desafios.
Em Mampujan, não existe eletricidade, nem escolas ou postos de saúde. Mesmo se os moradores voltarem, ainda enfrentarão os mesmos problemas que atrasam pequenos agricultores por toda a Colômbia: falta de capital, maquinário e métodos de agricultura modernos.
O governo prometeu ajuda, mas as dúvidas permanecem.
— Se tivermos a terra e não tivermos ajuda, de mãos vazias, o que faremos? — perguntou Joaquin Mata, de 67 anos, um ex-morador que ainda está esperando pelo julgamento de sua reivindicação de terra.













