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Empresários ricos, refugiados durante alguns dias de "piquenique", vindos da mais violenta Kandahar, utilizam narguilés com cheiro de maçã, como sonhadores nos pagodes no jardim dos prazeres local. Pelo menos uma vez esquecidos dos sequestradores e homens-bomba, eles marcam a noite com risos.
Antiga cidade comercial com minaretes e avenidas largas na parda região fronteiriça do Afeganistão ocidental, Herat deve ter avançado à modernidade mais do que qualquer outra cidade do país nos últimos dez anos. Existe uma crença muda e firme de que se algum lugar pode sobreviver à futura turbulência econômica e de segurança quando as forças internacionais e o dinheiro forem embora, será Herat.
Contudo, escutam-se sussurros de violência crescente, temores de retração econômica, convocações de um homem forte local para se rearmar contra o Talibã, oposição conservadora à modernização – e dúvida.
— A guerra vai começar — disse Ghulam Reza, homem delgado de barba grisalha e turbante, antigo combatente mujahidin (guerreiro santo) que trouxe as duas filhas e genros para a Cidadela, um dos marcos principais de Herat.
Ele queria que os familiares vissem o quanto as muralhas maciças foram restauradas, em grande parte, com uma doação de US$ 1,2 milhão do consulado dos Estados Unidos.
Reza também lhes queria mostrar onde costumava lutar quando a guerra rondava a cidade, e todos esses locais estavam em ruínas.
— Tudo voltará ao começo da década de 1990, quando havia guerra civil entre os grupos de mujahidin — ele declarou, acrescentando que ainda haveria esperança se as forças estrangeiras ficassem em grande número.
Existe uma forte sensação de que Herat tem muito a perder.
A fonte da prosperidade da cidade não é difícil de ver – a serpenteante estrada vinda da fronteira iraniana, a 129 quilômetros dali, chega às empoeiradas instalações alfandegárias no limite de Herat. Ali, sob pilhas pardas nas quais se lê "Allahu akbar" (Deus é grande) e "Meu amor, Afeganistão", caminhões pesados cospem condicionadores de ar alemães, peças para motocicletas da China e mel saudita na economia local, de onde serão transportados para o interior do país.
Embora ocorram ataques nos distritos do lado de fora da cidade, o Talibã não conseguiu uma posição segura em Herat. E o comércio e a proximidade com o Irã e o Turcomenistão deram origem a uma abertura e urbanização rica em lojas de móveis, prédios de escritório e sobrados, alguns em locais onde existiam estradas de terra até cinco anos atrás.
A cidade cresceu muito nos últimos anos, passando de um milhão de habitantes, segundo estimativas da província. E a vida aqui, nos silenciosos bairros asfaltados, no riso de suas feiras e no bate-papo nos campos de futebol, evoca algo bastante raro no Afeganistão: pessoas se divertindo.
Contudo, Herat também é um local no qual a história do Afeganistão tende a se fragmentar. Foi aqui que, em 1979, os moradores se levantaram contra o governo apoiado pela União Soviética, dando o primeiro impulso a uma cadeia de revoltas que levaram à invasão e aos dez anos de ocupação soviética.
Boa parte da cidade foi destruída. Numa suja e bombardeada terra devastada no centro de Herat, minaretes de 600 anos ainda continuam em pé, mal e mal, lembrando chaminés industriais assombradas – um lembrete às pessoas não apenas de sua história, mas também do que deve ser cuidado para não se perder novamente, disse Ayamuddin Ajmal, diretor do departamento para preservação dos monumentos culturais.
— Eles são os cinco dedos de nossa história — afirmou Ajmal, homem robusto de cabelo preto curto, enquanto caminhava ao lado dos minaretes. — Eles testemunharam muita coisa. Esses buracos de bala são buracos na nossa história.
Ismail Khan, comandante que participou da rebelião de 1979 e mais tarde se tornou governador e emir autoproclamado desta região, cuja generosidade paternal fica evidente nos parques e museus de Herat.
Agora, ele voltou à atividade. Deixando o escritório em Cabul, onde é ministro da energia e água, ele regressou à cidade em 1º de novembro para reunir milhares de seus antigos combatentes nos arredores da cidade, pedindo para que reativassem suas redes e se preparassem para conter o Talibã se o exército nacional não estiver à altura da tarefa. A convocação espalhou o medo pelo país de que antigas linhas divisórias estejam voltando à ativa entre a rede de líderes militares mujahidin que promoviam a guerra civil.
Temores quanto ao regresso dos dias ruins, aqui e no resto do Afeganistão, produziram uma atmosfera sombria em Herat, contribuindo para enfraquecer sua força vital – o comércio – à medida que se aproxima a retirada das tropas em 2014.
O pessimismo criou uma sensação de sítio militar até mesmo nas áreas onde Herat conseguiu os maiores avanços sociais e culturais, como direitos femininos e mídia.
A cidade se orgulha dos níveis elevados de educação para garotas e da única promotora pública chefe de uma província afegã.
Porém, a promotora, Maria Bashir, recebe notificações mensais de "tramas do Talibã para me atacar", ela contou, em sua sala protegida no complexo governamental. — É muito difícil para eles aceitarem uma mulher numa posição de tomada de decisão.
Perto dali, num dos bairros mais ricos da cidade, Sayed Wahid Qattali, empresário jovem e com bons contatos de uma família próspera, alugou uma casa por US$ 1.500 mensais, construiu um estúdio e abriu neste mês o mais novo canal de televisão de Herat, Asar (tempo), descrito por ele como pró-democrático. Ele também abriu uma estação de rádio voltada exclusivamente às mulheres e suas questões.
Os dois empreendimentos celebram novas liberdades conquistadas na última década. Contudo, pela forma como ele as descreve, as estações também são armas cruciais para defender tais liberdades contra os inimigos do país.
— Estou tentando proteger esses valores — declarou Qattali.
Entre os concorrentes estão canais a cabos em Herat – apoiados, segundo ele, pelo Irã e Paquistão, e ocupados em disseminar sua propaganda. Os dois vizinhos assomam no horizonte em quase todo medo afegão a respeito de quem determinará o destino do país depois que os EUA forem embora.
— Nós somos contra a 'talibanização' — disse Qattali. — Somos contrários à influência do Irã e do Paquistão, que apoiam o fundamentalismo na região.
Mais tarde, no grande parque conhecido como jardins Takht-e-Safar – um dos legados de Ismail Khan –, as crianças balançavam em cadeiras voadoras num decrépito e colorido parque de diversões. Ao som da música tradicional que tocava nos alto-falantes, elas gritavam e balançavam as pernas, ainda capazes de curtir a abertura da brilhante cidade aos seus pés.
Contudo, Mohammad Hares, estudante de direito de 19 anos, trajando a tradicional veste "shalwar kameez" e comendo batatinha frita às sombras dos pinheiros, se preocupava com quanto tempo isso duraria.
— Nos últimos tempos, houve incidentes de segurança em Herat, e nos distritos aconteceram assassinatos e sequestros, que deixaram os cidadãos muito preocupados — ele contou, observando outra atração, uma roda-gigante, enquanto homens e mulheres eram elevados em cabines nas cores azul, vermelho e verde na direção do sol poente.
— Eu me lembro da época do Talibã e espero que o Afeganistão seja livre, para que as crianças continuem a estudar e a ir para a escola.









