The New York Times19/12/2012 | 02h51

Autoridades públicas vivem sob ameaça no Afeganistão

Talibã tem intensificado nos últimos anos a campanha de violência contra políticos e empregados do governo

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Autoridades públicas vivem sob ameaça no Afeganistão Bryan Denton/NYTNS
Abdul Basir Salangi, governante da província de Parwan, mostra o local de onde disparava sua arma quando a sede do governo foi atacada por homens-bomba Foto: Bryan Denton / NYTNS
Azam Ahmed


Cabul, Afeganistão – Uma autoridade afegã pode morrer de muitas formas: carros-bomba, ataques suicidas, uma saraivada de balas ou, no caso de um assassino especialmente empreendedor, uma pistola escondida na sola de um sapato.

No início de dezembro, um homem-bomba do Talibã com uma bomba escondida na região da virilha tentou assassinar o novo chefe do serviço de inteligência do Afeganistão, em Cabul, ferindo-o gravemente. Cerca de duas semanas depois, insurgentes receberam dois dos novos governadores do país com um ataque armado na província de Helmand, e um carro-bomba que destruiu um quarteirão inteiro na província de Wardak. Os dois governadores sobreviveram, e saíram com um atributo essencial aos políticos locais: um aguçado senso de fatalismo.

— Atentados são parte do trabalho —  declarou Abdul Majid Khogyani, o novo governador de Wardak, sentado num gabinete improvisado no frio pátio de seu complexo, o único lugar intocado pela explosão. — Isso vem com o pacote.— E chegou a sorrir.

As autoridades públicas locais não se preocupam tanto com a fúria dos moradores; um medo mais imediato é do assassinato a sangue frio nas mãos do Talibã. Empregos no governo estão entre os mais perigosos no Afeganistão, com centenas de funcionários mortos a cada ano. Quanto mais importante o cargo, maior o risco – alguns governadores especialmente afortunados (e bem protegidos) já sobreviveram a mais de dez atentados.

Nos últimos anos, o Talibã intensificou sua campanha contra os políticos, focando em dezenas de governadores de províncias e distritos, chefes de polícia e até mesmo funcionários menores. Isso tem sido uma ferramenta eficaz, demonstrando o poder dos insurgentes em infligir o caos e semear o medo entre apoiadores do governo. No ano passado, os assassinatos tiraram 304 vidas, o maior número desde 2001, segundo um relato da ONU.

Exceto pela remota possibilidade de um acordo de paz com o Talibã, as mortes só tendem a aumentar conforme a coalizão militar (comandada pelos EUA) retirar suas forças de combate nos próximos dois anos.

Talvez os alvos mais prováveis sejam os 34 governadores de províncias, a maioria dos quais está longe do enclave relativamente seguro de Cabul. Nomeados pelo presidente, os governadores são as autoridades de mais alto escalão que a maioria dos afegãos jamais vê.

Se a persistência dos ataques indica a prioridade do alvo, Gulab Mangal, o ex-governador da província de Helmand, é um troféu do Talibã. Mangal sobreviveu a 17 ataques mortais em seus cinco anos no cargo, incluindo um ataque de foguete num helicóptero, antes de ser substituído pelo presidente Hamid Karzai.

— Até meus amigos me pediam para renunciar — disse ele, emitindo uma explosão de risadas. — Mas eu amava meu trabalho e lentamente, conforme o tempo passava, perdi o medo.

Nem todos os políticos são tão afortunados. No ano passado, um homem-bomba com explosivos no turbante matou o prefeito de Kandahar. Nesta primavera, o governador de Uruzgan foi morto a tiros. Um homem vestindo um uniforme da polícia com bombas matou o general Daoud Daoud, comandante da polícia que supervisionava a segurança em nove províncias do norte, no ano passado. No ano anterior, insurgentes assassinaram o governador da província de Kunduz atacando com bombas a mesquita onde ele rezava.

Embora alguns assassinatos sejam realizados por motivos pessoais, a maioria é política. Apesar dos riscos, os cargos do governo estadual vêm mantendo seu poder de atração. Mesmo pagando uma média de apenas US$ 23 mil por ano, o cargo traz grande poder e abundantes oportunidades para patrocínios e corrupção.

E após três décadas de guerra – com os soviéticos, entre eles próprios ou contra o Talibã –, alguns afegãos se dizem habituados à ameaça de morte.

— A mentalidade no Afeganistão é diferente — explicou Farid Mamundzay, ministro adjunto da Diretoria Independente de Governança Local. — Vemos gente morrendo a cada semana, se não a cada dia. Ficamos acostumados com isso.

— Se você morrer, morreu — acrescentou ele.

Mesmo assim, políticos levam a segurança a sério, gastando altas somas, às vezes de seus próprios bolsos, e geralmente desempenhando um papel direto em sua autopreservação.

— Eu preciso conhecer pessoalmente cada indivíduo que me serve como segurança — afirmou Abdul Jabar Taqwa, governador de Cabul, fechando o punho direito – que é pontilhado com cicatrizes de um ataque a bomba em 2011.

Na província de Parwan, ao norte de Cabul, o governador Abdul Basir Salangi sobreviveu a três ataques em seus quatro anos no cargo. Questionado como, ele se esticou até a lateral de sua mesa e puxou um rifle de assalto carregado.

— Levo isso comigo a todo lugar — afirmou ele, apoiando a arma no ombro. — Para o escritório, para minha casa, todo lugar.

Ex-comandante de jihad durante a guerra contra os soviéticos, ele sabe como usá-la, dizem membros de sua equipe, e está mais do que satisfeito por isso. Quando seis homens-bomba invadiram os portões de seu complexo no ano passado, ele olhou para fora da janela, avistou um insurgente e lhe deu um tiro no rosto.

Os suicidas mataram 22 pessoas. Salangi mantém as terríveis imagens do ataque em seu escritório, uma sala estilo salão de banquete com sete lustres de ouro e vidro e uma lareira falsa.

— O inimigo está sempre nos observando — completou ele. — Se encontrarem uma única oportunidade, eles não a deixarão passar.

Abandonar o cargo não é nenhuma garantia de segurança. — Sou um alvo até hoje — disse Mangal, que deixou seu posto em Helmand neste ano. A diferença é que agora ele tem menos segurança.

Mangal era profundamente impopular entre os insurgentes em Helmand, por seus esforços para erradicar o cultivo da papoula para ópio – um negócio lucrativo que ajuda a financiar o Talibã e outros interesses clandestinos. Seis homens armados guardam sua casa em Cabul, com vários outros atrás de uma porta reforçada de concreto e outro guarda na frente da casa.

Sua família nunca se acostumou com os constantes ataques.

— Antes de ele ser governador, levávamos uma vida normal, feliz — afirmou Muhammad Anwar, seu filho mais velho, um estudante universitário. — Teríamos preferido se ele tivesse um emprego menor mas seguro, onde ele estivesse seguro e nós também.

Khogyani, o governador de Wardak, estava sempre cercado por doze homens armados, parte do grupo de 50 que protegia seu complexo. Até agora ele se recusou a aceitar ajuda do chefe de polícia local, com medo da corrupção. Em vez disso, ele próprio assume a conta, pagando os filhos de seus antigos camaradas mujahidin para servirem como seguranças.

Khogyani caminhou lentamente por seu complexo bombardeado, detalhando as ruínas com uma estranha mistura de medo e orgulho: seu quarto, onde o telhado havia se elevado da casa; a cozinha, um amontoado de ferro e tijolos; sua cama de madeira, em lascas, lançada a quase 10 metros da casa.

Ele escalou os restos de uma parede ao longo do jardim. Do outro lado, até 90 metros adiante da explosão, tudo estava arrasado: uma casa de parteiras, a agência de estatísticas, um quarteirão inteiro de casas.

Questionado se pensava em vingança, ele fez uma pausa – e então balançou a cabeça.

— Eu já aceitei que um dia vou morrer — respondeu ele. — Se minha hora chegar, ninguém poderá me salvar.

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