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Seus amigos disseram que suas últimas palavras, enquanto implorava por sua vida, foram: "Não sou eu".
Mais tarde, em início de novembro, num vale remoto do norte do Quênia, dezenas de policiais novatos foram enviados para perseguir uma gangue especialmente durona de ladrões de gado. Estava escuro, cerca de 4h00 da madrugada, e os ladrões sabiam que os policiais viriam. Assim que apareceram, em fila indiana, eles foram triturados por armas automáticas. Autoridades afirmaram que pelo menos 30 policiais, talvez mais, foram mortos, e seus corpos deixados para apodrecer ao sol durante vários dias.
Os dois episódios ocorreram a muitos quilômetros um do outro e tecnicamente não tiveram nenhuma relação. Mas eles tiveram a mesma raiz: uma força policial espetacularmente disfuncional.
— Numa escala de 1 a 10, eu daria um 2 para nossa polícia — disse Macharia Njeru, presidente do novo conselho de supervisão da polícia do Quênia, citando alegações de corrupção, abusos de direitos humanos, assassinatos extrajudiciais, investigações fracassadas e a perda da confiança pública.
— A lista não tem fim — declarou Njeru.
Nas partes mais perigosas da cidade, onde as pessoas habitam pequenas barracas e animais mortos flutuam em rios cheios de lixo, os policiais não são conhecidos como heróis. Em vez disso, muitos moradores os veem como uma ameaça, rondando de casacos negros e rifles AK-47 pendurados nos ombros, extorquindo dinheiro dos habitantes de favelas e assassinando suspeitos – e às vezes nem mesmo suspeitos, mas apenas pessoas pobres que cruzam seu caminho.
— Eles matam de graça — afirmou um jovem na favela de Mukuru Kayaba, onde Muthini foi morto.
Após o incidente, o pai de Muthini, Muthini Ndeto, esperava em meio a uma multidão em frente ao necrotério para reclamar o corpo do filho. Homens de jalecos brancos e galochas de borracha pediram que todos que se afastassem, e então abriram as portas do necrotério, deixando sair um cheiro de carne em decomposição.
Cerca de doze cadáveres estavam deitados em mesas de aço inoxidável, vítimas de crimes recentes, sem identificação, com roupas rasgadas e rostos grudentos de sangue.
Ndeto se arrastou para dentro e olhou fixamente para o filho.
— Por que eles não puderam levá-lo à delegacia?" perguntou ele. "Por que tinham de matá-lo ali mesmo?"
A força policial do Quênia é consistentemente avaliada como uma das instituições públicas mais corruptas da África Oriental. Ela é formada por cerca de 70 mil policiais, com salário inicial de US$ 200 por mês.
Jovens da favela de Mukuru afirmaram que os mesmos dois policiais que mataram Muthini os abordavam rotineiramente pedindo propinas, ameaçando prendê-los se eles não entregassem o equivalente a 10 ou 20 dólares – uma semana de salário para a maioria dos locais.
Segundo a mãe de Muthini, Rose, a polícia vinha assediando-os há meses, exigindo uma propina de US$ 250 – uma soma impossível para uma família que vive em três apertados cômodos numa favela onde há tão poucas latrinas que as pessoas se aliviam em sacos plásticos e depois os arremessam o mais longe possível. "Privadas voadoras", eles dizem.
Ela reconheceu, com os olhos baixos e palavras tímidas, que seu filho mais velho, Charles, era um ladrão que a polícia estava procurando no dia em que seu outro filho, John, foi morto. Charles batia carteiras e furtava celulares, mas saiu de casa há muito tempo, completou ela. Era por isso que ela colocava suas esperanças em John, um rapaz magro de 21 anos que vinho se saindo bastante bem na escola católica da vizinhança.
Quando se recusou a pagar à polícia, contou ela, os policiais se afastaram, rindo, e lhe disseram para começar a cavar a sepultura de Charles.
"A polícia do Quênia executa indivíduos frequentemente", afirma um relatório da ONU de 2009 que examinou a questão dos assassinatos extrajudiciais. "O mais preocupante é a existência de esquadrões da morte dentro da polícia."
O relatório também diz que a polícia queniana era suspeita de matar centenas de pessoas num período de apenas cinco meses em 2007, e que tal "matança com carta branca" reforça "a ideia de que a polícia é boa em matar, e ruim em aplicar a lei".
Policiais quenianos não responderam a telefonemas ou mensagens de texto para este artigo, nem a uma lista de perguntas enviadas por e-mail a Eric Kiraithe, o porta-voz da polícia.
Por conta do massacre no norte do Quênia, a polícia ficou em estado de sítio nos últimos dias, e Njeru declarou que seu conselho de supervisão abriu uma investigação. Parece que os jovens policiais foram enviados diretamente a uma longa e amarga disputa de gado entre dois grupos étnicos rivais.
— Em face disso, está bem claro que a liderança da polícia falhou completamente — disse Njeru. — Os comandantes mais experientes estavam dormindo no trabalho.
A mídia do Quênia caracterizou o massacre como o episódio mais desastroso da polícia queniana desde a independência, em 1963. Ao contrário da próspera comunidade comercial do país, de sua indústria de safáris ou de seu sistema judiciário, Njeru explicou que a polícia nacional foi mantida intencionalmente fraca por décadas – para que pudesse ser manipulada por políticos.
O governo queniano anunciou que enviaria o exército para combater os ladrões de gado. Com eleições marcadas para março, muitos se perguntam se a força policial será capaz de lidar com as tensões políticas e étnicas que costumam explodir em épocas eleitorais. Tumultos eclodiram ao longo da costa queniana em agosto, depois que um clérigo muçulmano foi morto a tiros; muitos de seus seguidores estavam convencidos da culpa da polícia.
O problema da polícia está tão grave que um dos filmes quenianos mais cativantes em anos, "Nairobi Half Life", retrata dois policiais corruptos que achacam criminosos e depois os matam.
No final do filme, quando os simpáticos criminosos estão presos numa cadeia secreta administrada pelos dois policiais desonestos, um dos astros do filme diz, em suaíli, "Sisi watu, si ni maiti", que significa: "Nós somos cadáveres".
Algum tempo depois, a família de Muthini disse que Charles, o ladrão pé de chinelo, havia sido morto, e seu corpo encontrado numa estrada perto do aeroporto de Nairóbi.








