The New York Times13/11/2012 | 05h24

Japão adota acadêmico americano idoso

Professor de literatura aposentado virou fonte de inspiração para uma nação abalada

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Japão adota acadêmico americano idoso Ko Sasaki/NYTNS
Donald Keene (foto), 90 anos, pediu cidadania japonesa em demonstração de apoio ao país Foto: Ko Sasaki / NYTNS
Martin Fackler

   

Tóquio – Carregando 90 anos de vida sobre um corpo delicado, com ares autodepreciativos que o fazem parecer emocionalmente fragilizado, é pouco provável que a figura sensível de Donald Keene se transformasse em uma fonte de inspiração para uma nação abalada.

Entretanto, foi exatamente isso que aconteceu com o professor aposentado de literatura da Universidade de Columbia em sua pátria adotiva, o Japão. No ano passado, muitos estrangeiros e até mesmo japoneses deixaram o país com medo da radiação vinda do acidente nuclear de Fukushima, ocorrido após um violento terremoto seguido de um tsunami. Ele anunciou que pediria a cidadania japonesa em demonstração de apoio ao país.

O gesto deu a Keene, que já era uma importante figura nos círculos intelectuais e literários do Japão, status de herói popular, transformando-o em objeto de intermináveis artigos de jornal, documentários de televisão e até mesmo exposições em museus.

Esse foi o auge de uma carreira notável, que transformou esse homem silencioso de sorriso aberto que interrogava prisioneiros japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, quando era oficial júnior da marinha, em um dos fundadores dos estudos japoneses nos Estados Unidos. Essa carreira fez com que ele se tornasse um dos poucos estrangeiros a receber do imperador uma das maiores honrarias do Japão, por suas contribuições à literatura japonesa, além de aproximá-lo dos romancistas mais célebres do país.

Keene passou a vida entre o Japão e os Estados Unidos. Adotar a cidadania japonesa parece ser o gesto que finalmente concedeu ao professor uma dádiva que poucos ocidentais que escolhem viver no Japão recebem, mesmo que tenham amizades e relacionamentos duradouros: a aceitação.

— Quando fiz isso, achei que receberia toneladas de cartas raivosas dizendo 'Você não é da raça Yamato!', mas ao invés disso, me receberam de braços abertos — afirmou Keene, usando um velho nome do Japão. — Acho que os japoneses conseguem perceber, sem grandes dificuldades, meu amor pelo Japão.

Essa afeição foi muito bem recebida por uma nação que, mesmo antes do desastre do ano passado, parecia estar perdendo a confiança em si mesma, depois de enfrentar anos de problemas sociais e econômicos.

Durante a entrevista no café de um hotel, os japoneses que passavam pela mesa sempre viravam o rosto e sorriam ao reconhecê-lo – mostrando como o velho estudioso ganhou muito mais fama no Japão que nos Estados Unidos. Produto de um mundo antigo, anterior à televisão e à internet, Keene é famoso por ser uma ótima companhia, que encanta os interlocutores com histórias de uma vida devotada ao Japão, que visitou pela primeira vez durante a batalha de Okinawa, em 1945.

Mas o mais marcante a respeito de Keene é que o Japão, uma nação racialmente homogênea capaz de rejeitar educadamente os estrangeiros, o tenha adotado de forma tão calorosa. Quando se tornou legalmente cidadão japonês este ano, grandes jornais publicaram fotos do estudioso segurando um pôster com seu nome, Kinu Donarudo, escrito à mão em caracteres chineses. Para comemorar o evento, uma fabricante de doces na cidade rural de Niigata anunciou planos para construir um museu que incluirá uma réplica exata da biblioteca particular de Keene, além do escritório de sua casa em Nova York.

Keene afirma que recebem inúmeros convites para palestras públicas, que são tão populares que é preciso realizar sorteios para saber quem poderá assistir a elas.

— Desde então, não encontrei nenhum japonês que não tenha me agradecido. A não ser o Ministro da Justiça — acrescentou com seu humor tipicamente discreto, referindo-se à autoridade responsável por questões de imigração.

Com os ares pacientes de alguém que já havia lidado com a burocracia japonesa no passado, Keene fez uma lista dos requisitos absurdos necessários para receber a cidadania japonesa, incluindo a documentação que comprovasse que havia concluído o ensino fundamental em Nova York. Ainda assim, em um país que recebe poucos imigrantes, o pedido de Keene foi aceito rapidamente. Para se tornar japonês, Keene, que é solteiro, teve de abrir mão da cidadania americana.

O amor pelo Japão começou em 1940 com um encontro casual em uma livraria próxima à Times Square, onde Keene, que era um estudante de 18 anos da Universidade de Columbia, encontrou uma tradução do "Conto de Genji", uma milenar narrativa japonesa. Nos contos a respeito dos romances e intrigas da corte japonesa, o jovem Keene encontrou um refúgio aos horrores da guerra mundial que já causava estragos na Europa e na Ásia.

Mais tarde, Keene descreveu o primeiro encontro com o delicado senso de beleza do Japão e a aceitação de que a vida é fugaz e triste – um sentimento que iria cativá-lo pelo resto de sua vida.

Quando os Estados Unidos entraram na guerra, o estudioso se alistou na marinha, onde recebeu treinamento em língua japonesa, tornando-se intérprete e oficial de inteligência. O estudioso afirmou ter sido capaz de construir relacionamentos com os japoneses que interrogava, incluindo um que enviou uma carta anos mais tarde, referindo-se a si mesmo como o "primeiro prisioneiro de guerra de Keene".

Assim como muito de seus colegas de classe, Keene usou as habilidades linguísticas após a guerra para tornar-se um pioneiro nos estudos acadêmicos sobre o Japão nos Estados Unidos. Entre os americanos, ele é provavelmente mais conhecido pela tradução e compilação de uma antologia em dois volumes lançada no início dos anos 1950 e utilizada para introduzir gerações de estudantes universitários à literatura japonesa. Quando começou sua carreira, a literatura japonesa era praticamente desconhecida para os americanos.

— Acho que trouxe a literatura japonesa ao ocidente de uma forma especial, fazendo com que integrasse o cânone universitário — afirmou Keene, que escreveu cerca de 25 livros sobre a literatura e a história japonesa.

No Japão, afirmou que sua carreira foi privilegiada pelo momento histórico, à medida que o Japão entrava em um grande momento de criatividade literária durante o pós-guerra. Tornou-se amigo de alguns dos mais famosos escritores da moderna ficção japonesa, incluindo Yukio Mishima e Kenzaburo Oe. Até mesmo Junichiro Tanizaki, um velho romancista famoso por não gostar de visitantes, gostava muito de Keene e o convidava para ir a sua casa. Keene afirma que isso acontecia porque levava a cultura japonesa muito a sério.

— Eu era um cara estranho, que falava japonês e conversava sobre literatura — brincou.

Escritores japoneses afirmam que Keene era muito mais do que isso. Dizem que apareceu em um momento no qual o Japão estava começando a redescobrir o valor de suas tradições após uma derrota devastadora. Keene ensinou que a literatura japonesa também era universal, afirmam.

Tsujii afirmou que Keene era aceito pelos estudiosos japoneses porque tinha o que Tsujii descreveu como um estilo de pensar caloroso e intuitivo, diferente da abordagem fria e analítica de muitos acadêmicos ocidentais. Para ele, Keene parecia ainda mais japonês que alguns dos novelistas que estudava, como o ultranacionalista Mishima, que era influenciado pelas novidades intelectuais europeias.

— Keene-san é japonês no coração — afirmou Tsujii.

No final de sua carreira, ao tornar-se japonês, Keene está novamente ajudando os japoneses a ganharem confiança. O estudioso aposentou-se apenas no ano passado da Universidade de Columbia e planeja passar seus últimos anos no Japão, como um gesto de gratidão frente a uma nação que finalmente o adotou.

— É impossível deixar de ser americano depois de 89 anos — afirmou Keene, referindo-se à idade que tinha quando recebeu a cidadania japonesa. — Entretanto, tornei-me japonês sob muitos aspectos. Sem pretensões, mas naturalmente.

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