Discurso de campanha 03/11/2012 | 04h34

Flórida vira campo de batalha durante eleição presidencial nos EUA

Estado americano é decisivo para as ambições de Obama e Romney na corrida à Casa Branca

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Flórida vira campo de batalha durante eleição presidencial nos EUA Rodrigo Lopes/Agencia RBS
Velha guarda dos cubanos, na Praça Maximo Comez, é Romney de carteirinha Foto: Rodrigo Lopes / Agencia RBS

Um dos principais destinos de brasileiros em férias ou em busca do sonho de trabalhar nos Estados Unidos, recanto tranquilo escolhido por muitos americanos para viver depois da aposentadoria, a Flórida reúne ricos e pobres, nativos e imigrantes. Concentra o que o país tem de mais atraente, mas também o que tem de pior – criminalidade e desemprego. Por isso, é um microcosmo da América cindida ao meio nesta eleição. ZH mostra nesta reportagem por que a disputa por seus 29 delegados no colégio eleitoral virou uma batalha crucial para Barack Obama e Mitt Romney.

Na 8th Street, também chamada Olga Guillot Way, centro de Little Havana, há um sofisticado café que mistura decoração cubana e espanhola. Nestes dias de início de novembro, no Casa Panza, apetitosas peças de pernil e coloridos copos de mojitos ganharam a companhia de bruxinhas, aranhas e outros adereços. É Halloween.

Filha de pais cubanos, a proprietária, Yadira Fernandez, 27 anos, morou na Espanha e há cinco deixou um dos epicentros da crise econômica europeia para viver com a mãe nos EUA. Jovem e cosmopolita, ela contradiz anos de comportamento eleitoral dessa parcela da população hispânica que se tornou decisiva no jogo eleitoral da Flórida.

— Apoio Obama — diz Yadira.

Enclave da oposição ao governo de Fidel Castro, Little Havana era, até poucos anos, um tradicional gueto republicano. Para os mais velhos, os democratas eram associados à esquerda, ao comunismo que deixaram na ilha do Caribe. Isso começou a mudar em 2008, quando os jovens, já desprendidos das amarras familiares presas à Revolução Cubana ou à invasão da Baía dos Porcos, foram atraídos pelas promessas de mudança de Obama. O democrata venceu John McCain em 2008 com 57% dos votos entre os hispânicos da Flórida.

Roberto, que chega ao café, é um deles. Há 16 anos nos EUA, o cubano com cidadania americana integra a nova geração da família Rodriguez, que não herdou o comprometimento político dos pais com os republicanos.

— Não existe mais esta de todos os cubanos serem republicanos.

Os cubanos uniram-se a outros hispânicos – colombianos, porto-riquenhos, salvadorenhos – que votaram em Obama com a expectativa de que tirasse das profundezas da clandestinidade milhares de imigrantes ilegais.

O presidente democrata cumpriu parte das expectativas: a promessa de reduzir de três para um ano o intervalo em que os cubanos radicados nos Estados Unidos pudessem visitar seus parentes em Cuba. Yadira agora pode ver com mais frequência o pai, que ficou na ilha. Mas ela e Roberto ainda esperam a reforma na lei de imigração, um dos maiores fracassos admitidos pelo próprio Obama.

— Little Havana está mais bonita — tenta me convencer Yadira.

Tive mesmo esta impressão inicial, comparando o quadro atual ao de 2008, quando ZH esteve no bairro. Mas, deixando para trás as quatro quadras que formam o eixo turístico do local, é possível ver casas à venda, terrenos abandonados, bêbados e moradores de rua pelas calçadas. Há também muitos cartazes de políticos com sobrenome latino, evidência de que a comunidade está conquistando espaço na política. Mas a pobreza persiste. O índice de desemprego, que no país é de 7,9%, aqui chega a 9%.

Um oceano ideológico

A Praça Maximo Gomez e o café de Yadira Fernandez ficam a menos de 300 metros de distância entre si. Um oceano ideológico. Na praça, reduto de aposentados aficionados por dominó, está a velha guarda dos cubanos.

— Obama é comunista — acusa Fernando, republicano de carteirinha.

Para o aposentado, Obama jogou os EUA na depressão econômica e uniu-se aos “muçulmanos”. Enquanto Yadira acha que o presidente democrata reduziu o abismo que havia nos anos Bush entre os EUA e o resto do planeta, Fernando acusa:

— Obama só fica pedindo desculpas ao mundo. De joelhos.

Por antagonismos como esses, de gerações, mas também de ideologia, a Flórida é um microcosmo do que ocorre no país. Nenhuma outra unidade da federação americana resume tamanha diversidade racial, social e cultural – além dos hispânicos, com diferentes origens e tendências, dos ricos de South Beach aos miseráveis de Liberty City, todo o Estado está dividido.

Em 2008, Obama venceu John McCain aqui por diferença de 2,4% pontos. Mas em 2010, os republicanos ganharam força com a eleição do senador americano-cubano Marco Rubio e do governador Rick Scott, com grande apoio do Tea Party. Não é à toa que a convenção republicana foi realizada em Tampa. Também não é à toa que o último debate entre Obama e Romney foi neste Estado.

Aqui, Romney lidera entre os eleitores independentes (44% a 36%), homens (50% a 37%) e brancos (56% a 33%). Já Obama é o preferido das mulheres (45% a 44%) e hispânicos (42% a 40%) e tem ampla vantagem entre os negros: impressionantes 85% dos eleitores desse grupo declaram voto no presidente, enquanto apenas 3% dizem querer Romney no comando do país.

Dificilmente um candidato vencerá a eleição na terça-feira sem ganhar na Flórida. Contando-se que o democrata tenha 237 votos garantidos hoje no colégio eleitoral, se conquistasse os 29 delegados da Flórida, Romney precisaria vencer em todos os demais Estados indefinidos. Ou seja, a Flórida, para Obama, é muito importante no caminho da reeleição. Mas, para Romney, é questão de vida ou morte.

O fantasma de Miami-Dade

Ao circular pela periferia do condado de Miami-Dade num final de tarde, entre casas para alugar e raros cartazes de candidatos locais, você tem a impressão de que um fantasma está à espreita.

Foi neste naco de terra, um dos 67 condados da Flórida, que ocorreram os principais problemas na votação de 2000. As arcaicas cédulas, nas quais os eleitores perfuravam o local correspondente ao nome do candidato para marcar o voto, abriram uma batalha jurídica que deixou os EUA, por mais de um mês, sem saber quem seria o presidente.

É esse fantasma que, a cada eleição, ronda Miami-Dade. As polêmicas cédulas ainda são usadas em alguns centros de votação dos EUA. Não em Miami-Dade. Há, porém, outros detalhes da votação que deixariam qualquer brasileiro, acostumado à urna eletrônica, surpreso. Para não dizer orgulhoso.

Em um dos centros de votação visitados por ZH, a votação é manual. O eleitor marca com um “X”a opção: presidente, deputados, senadores, representantes distritais. E ainda responde a perguntas de referendos, como se um determinado juiz deve ser mantido na Suprema Corte — ao todo, 39 perguntas.

Alé do atraso na apuração, esse tipo de processo abre margem para suspeitas. Principalmente em uma eleição como a de 2012, na qual cada voto poderáfazer muita diferença. A disputa acirrada aumenta os receios de que o duelo Obama x Romney não venha a ter um vencedor claro nas horas seguintes ao fechamento das urnas. Os dois lados já prepararam um batalhão de advogados, sobretudo em Ohio e Flóida.

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