Cansado de guerra17/11/2012 | 16h04

A saga do jornalista que abandonou o front e buscou o retiro no Brasil

O português José Pinto do Amaral mergulhou na cobertura de conflitos em território africano, no Oriente Médio, na Ásia e no Leste Europeu

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A saga do jornalista que abandonou o front e buscou o retiro no Brasil Ricardo Chaves/Agencia RBS
O português José Pinto do Amaral relembra em Porto Alegre mais de uma dezena de conflitos que vivenciou como repórter e militar Foto: Ricardo Chaves / Agencia RBS

Quatro décadas de tiros, bombas, mortes e dor levaram o português José Pinto do Amaral a uma encruzilhada existencial. Ex-militar das forças coloniais portuguesas na África, ele conheceu a guerra manejando o canhão de um helicóptero da Força Aérea de Portugal. Deixou de lado a farda, em 1977, mas não as batalhas. Logo, alternando os papéis de cinegrafista, fotógrafo e repórter, mergulhou na cobertura de conflitos em território africano, no Oriente Médio, na Ásia e no Leste Europeu. Um tanto cansado da rotina de não saber quando e se voltaria da frente de combate, Pinto completou 57 anos e resolveu dar um tempo na profissão. Foram décadas na voragem dos disparos, dos amigos perdidos, de ferimentos que custam a curar, do pavor de virar refém, da correria sem saber o paradeiro da noite seguinte.

Escolheu Porto Alegre como recanto para o que chama de "ano sabático", um misto de retiro espiritual e balanço de carreira. E montou, na capital gaúcha, um aconchegante café-bar. Foi ali, em meio a goles de cappuccino e longas tragadas de cigarro — "maldito costume que não me abandona", confidencia, com sorriso amargo — que recebeu Zero Hora para duas horas de bate-papo. Aqui, um resumo das aventuras desse homem que testemunhou alguns dos principais embates dos séculos 20 e 21.

Alvejando guerrilheiros

Filho de militar da Força Aérea Portuguesa, José Pinto do Amaral nunca gostou de farda. Preferia os cabelos longos e a contracultura dos anos 1960. Mas Portugal estava em guerra. Desde 1962, rebeliões explodiam na África. Simpatizante do Partido Socialista, Amaral era favorável à independência das colônias — Portugal era a última potência europeia a mantê-las. Em 1972, em idade de servir, foi detido num protesto político e mandado à Guiné Bissau.

Foi designado como artilheiro num helicóptero Alouette III, de fabricação francesa. Manejava um canhão de 20 mm automático, com disparos em rajada.

— Sentava sobre um capacete de aço, para proteger os testículos dos disparos que vinham debaixo — recorda o português.

Em pelo menos uma ocasião, diz ter acertado um homem.

— Mas eles também atiravam. Era a guerra — conforma-se o ex-militar.

O início do jornalismo

Em 25 de abril de 1974, os militares que atuavam nas colônias africanas se rebelaram contra o governo autoritário de Portugal que controlava o país desde 1933. Entre os fardados que marcharam para depor o presidente, estava Pinto do Amaral, que na época servia em Angola.

Foram anos de agitação em que a ditadura foi substituída por brigas entre socialistas e comunistas pelo poder. Amaral largou a farda em 1977, com o posto de capitão, e rumou para o jornalismo. Começou nos jornais socialistas A Luta e Portugal Hoje.

Fazia de tudo um pouco: redigia, fotografava e gravava vídeos, com pesadas câmeras RCA e U-Matic. Aprendeu tudo no improviso, sem curso.

Entre afegãos

Em Lisboa, nos anos 1980, conheceu uma espanhola. Enamorado, foi para Madri. Arranjou emprego na TVE espanhola como cinegrafista e, depois, em outra empresa de vídeo. Enviado a Cabul, travou contato com as facções que disputavam o controle da capital afegã. Diz ter conhecido Ahmad Shah Massoud, que seria assassinado num atentado a bomba patrocinado por Osama bin Laden, anos depois.

Ferido logo de cara, em Beirute

O primeiro conflito coberto por Amaral foi a guerra civil libanesa, que ensanguentou o Oriente Médio entre os anos 1970 e 1990. Baseado em Beirute, ele fazia fotos para a agência UPI. Possuía credenciais diferentes para nove facções cristãs e muçulmanas que disputavam o poder no Líbano.

— Era difícil cruzar as barreiras. O poder trocava de mãos a cada dia, em cada bairro. Não podia errar as credenciais — graceja.

Em 1982, registrava a troca de tiros entre tropas israelenses, a Falange Libanesa (cristã) e a Organização para Libertação da Palestina (OLP), na Linha Verde (centro de Beirute), quando sentiu a coxa esquerda queimar, "como se fosse um cigarro em brasa na pele". Fora baleado e nem percebera direito. A bala cruzou a carne e não acertou veias ou tendões.

— O mundo se altera quando olhas através da câmera. Esqueces do perigo — ensina.

Bagdá, às vésperas

do bombardeio

Tensão, loucura nas ruas, medo. Um passaporte confiscado pelos iraquianos e devolvido dois dias antes do bombardeio americano. A alta diária dos preços, em dólar. Essas são as recordações de Amaral a respeito da Guerra do Golfo. Ele foi para Bagdá logo depois da ocupação iraquiana no Kuwait, em 1990. Saiu dois dias antes do bombardeio americano destruir parte da capital iraquiana.

Refém em Angola

Em 1992, contratado pela RTP, voltou a Angola. A TV portuguesa mandou duas equipes, uma para cobrir o lado governista (o MPLA), e outra, integrada por Amaral, para cobrir a guerrilha Unita. O cinegrafista ingressou como clandestino, via Zaire (hoje, República Democrática do Congo), direto no território da guerrilha.

Um dia, compareceu a uma entrevista com Jonas Savimbi, o carismático líder da Unita, na fronteira com a Namíbia. Um sujeito "enorme, anel de ouro no dedo e cara de brabo", descreve. No caminho, reparou em grandes caixas que embalavam mísseis terra-ar. Fotografou e questionou Savimbi sobre o arsenal.

— O senhor não me perguntou sobre isso, então não lhe posso responder — retrucou o guerrilheiro.

O repórter achou melhor ficar calado, mas mandou os filmes para a revista espanhola Interviú, que publicou a reportagem. Isso lhe complicou a situação junto à Unita. Foi cobrir o lado contrário, do MPLA. Certa vez, fotografou um posto militar da Unita e desagradou os guerrilheiros. Foi mantido refém e perdeu o equipamento.

Bósnia de todos os horrores

A costura política do regime comunista, construída pelo general Tito e que obrigou os iugoslavos a agirem como um só povo durante 40 anos, começou a ruir no final dos anos 1980, logo após a morte daquele líder. O resultado é que, no início da década de 1990, as nações que compunham o mosaico da Iugoslávia começaram a declarar independência. Primeiro a Eslovênia, depois a Croácia, por fim, a Bósnia. E cada grito de independência gerou tentativa de represálias por parte dos sérvios, majoritários e que mandavam na capital da Iugoslávia, Belgrado.

Amaral ficou no antigo território iugoslavo, conflagrado por batalhas, de 1991 a 1994. Um dos que o acompanhava é o famoso repórter e escritor espanhol Artur Pérez-Reverte, que o menciona no livro Território Comanche. Outra companheira de aventuras era a jornalista portuguesa Maria João Raposo Carvalho, que faz relatos como este, de 1992: "Quatro cadáveres de crianças apanhadas por uma granada de obus num túnel. A pausa do médico a quem dei cigarros e perguntei por que não salvava um pé e ia amputar três membros a uma idosa. O escândalo no olhar dele: 'E deixo morrer os outros mutilados para salvar o pé da velha?' Silêncio. O meu, muito envergonhado".

Detido na Croácia

Certa vez, Amaral topou com um dublê de jornalista, o boliviano com nacionalidade húngara Eduardo Rozsa Flores. Ele tinha ido à Croácia para uma reportagem e, na segunda vez que o viu, já estava armado, circulando com uma milícia croata. Eduardo Flores desconfiou de outros jornalistas e invadiu, armado, o hotel onde estavam — Amaral entre eles — em busca de um suposto delator de um esquema de venda de armas.

— Virei refém por um tempo, mas fui libertado — relata.

Flores ficaria famoso anos depois, em 2009, ao ser morto pela polícia boliviana com outros dois eslavos num hotel em Santa Cruz de La Sierra (Bolívia). Ele portava um arsenal e foi acusado de um complô para assassinar o presidente boliviano Evo Morales.

A queda de Mobuto

Amaral assistiu de camarote à queda de um dos mais longevos ditadores africanos, Mobuto Sese Seko, do Zaire (hoje República Democrática do Congo). Em 1997, entrevistou o ditador.

— Foi terminar a entrevista e rumar para o aeroporto. Pegamos um dos últimos aviões — conta.

Mobuto foi destronado por rebeldes naquela mesma semana.

Dinheiro e aventura

A quem lhe pergunta como juntou dinheiro para atravessar o oceano e montar um bom café, alugar uma boa casa e frequentar bons restaurantes, Amaral responde: "Eu ganhava muito bem". Cada história enviada do front, via satélite, rendia à equipe cerca de US$ 1,5 mil. E eram várias por semana. Trabalhava de freelancer para redes de TV e para a agência Reuters.

— Fiz por dinheiro, aventura, amor ao jornalismo. Agora, dei uma guinada — despede-se, entre intensas baforadas.

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