The New York Times03/07/2012 | 05h07

Museu cultiva plantas que ajudaram escravos a sobreviverem nos EUA

Horta da Liberdade, em Louisiana, cultiva plantas que seriam conhecidas por escravos da África e do Novo Mundo

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Museu cultiva plantas que ajudaram escravos a sobreviverem nos EUA Randy Harris/NYTNS
Irmãs Diana e Malva cuidam da horta na fazenda da família Foto: Randy Harris / NYTNS
Michael Tortorello


Donaldsonville, Louisiana — Africanos escravizados não ganharam a liberdade para morrerem de fome. Kathe Hambrick-Jackson aprendeu isso com seu trabalho como fundadora e diretora-executiva do Museu Afro-americano River Road nesta cidade, a cerca de cem quilômetros de Nova Orleans, subindo o rio Mississippi.

Porém, Hambrick-Jackson, 54 anos, gosta de contar o que aconteceu quando perguntou a um grupo de alunos do segundo ano primário: "Se vocês fossem se libertar e abandonar a fazenda hoje à noite, o que levariam para comer?".

— Um deles respondeu: 'um saco de batata frita' — disse Hambrick-Jackson. — E eu falei: 'Não, isso foi em 1810. Ainda não haviam inventado a batata frita'. Aí começaram a falar hambúrguer e cachorro-quente. E eu disse não, não.

A resposta terminou ganhando a forma de dez canteiros numa área comunitária batizada por ela de Horta da Liberdade. Aqui, o museu cultiva plantas que seriam conhecidas por escravos da África e do Novo Mundo.

Numa tarde recente, Hambrick-Jackson pendurava cartões descrevendo as espécies da horta, com a ajuda de duas crianças.

O irmão de Hambrick-Jackson, que comanda uma funerária do outro lado do rio, lhe disse que ela estava "entulhando a horta" com os cartazes. Que criança quer ler sobre botânica africana? Contudo, ela avalia que "50 garotos numa área de um quarteirão" usam a horta como atalho. Pendure as etiquetas na altura dos olhos e eles vão aprender sem nem perceber.

— Cadê minha equipe de ajudantes? — ela perguntou, parada ao lado de uma videira muscadínia enrolada sobre uma cerca de madeira. Segundo explicou, a exemplo da amora-preta, esses frutos seriam um alimento fácil para quem corria atrás da liberdade na roça.

Outras plantas do jardim, como feijão-fradinho, quiabo e arroz, são nativas da região de Senegâmbia, na África Ocidental. Os agricultores também as cultivaram em campos próximos a portos no Atlântico, como na Ilha de Gorée, costa do Senegal, para abastecer navios negreiros. A sobra da comida se tornaria sementes para os africanos escravizados cultivarem plantações.

De certa forma, a Horta da Liberdade pode lembrar outros milhares de hortas afro-americanas espalhadas pelo país. Essas plantas foram o alimento básico em muitas cozinhas negras durante séculos. Contudo, uma semente tradicional pode ser um legado complicado quando provém de uma pessoa que a plantou durante a escravidão.

Trocando em miúdos, é muito fácil encontrar quem reencene colonizadores brancos, usando gorros e calças curtas, colhendo uma fileira de cenouras. Todavia, é uma situação difícil para Michael W. Twitty, historiador da culinária negra e horticultor de plantas históricas, enquanto se preparava para isso, em junho, como parte das comemorações do Dia da Liberdade, no Parque Histórico Nacional Natchez, em Mississippi. Num espírito similar de recuperação do passado, Twitty, 35 anos, compilou uma coleção histórica de sementes afro-americanas para a empresa D. Landreth Seed Co.

Entre as quase 30 plantas, estão uma espécie de cuia com ramo comprido, diversas abóboras e maxixe. O que horticultores históricos como Twitty e Hambrick-Jackson esperam demonstrar é como essas plantas foram decisivas na sobrevivência e independência afro-americana.

— Todas essas plantas têm sua própria história — disse Twitty, e essa história costuma ser específica de uma região e cultura. Por exemplo, pegue a pimenta "fish", integrante da coleção de plantas históricas da região da Baía de Chesapeake, onde mora Twitty.

Segundo o pesquisador, embora essa pimenta provavelmente tenha se originado da África Ocidental, ela pode ter desembarcado nos Estados Unidos com o influxo de pessoas do Caribe e do Haiti em Chesapeake entre 1790 e 1820.

De acordo com Twitty, "ao chegar nessa parte do país com a maior população negra livre, eles agem como todo imigrante: criando um nicho para si mesmos. E esse nicho é o da jardinagem e horticultura. Durante décadas, os caribenhos e haitianos simplesmente comandaram o mercado de produtos frescos de Chesapeake".

É estimulante rastrear uma única planta, a pimenta "fish", no caminho do "empreendedorismo afro-americano", disse Twitty, mas acrescentou:

— Eu não acredito em inventar histórias para as coisas soarem bem.

A grande verdade é que a horticultura é uma tradição perdida em muitas comunidades afro-americanas. A Associação Nacional de Horticultura não contabiliza o número de horticultores negros, nem, aparentemente, ninguém mais. A pesquisa do governo que acompanha a demografia agrícola, o Censo da Agricultura, oferece dados desestimulantes sobre os agricultores negros. Na última pesquisa, os afro-americanos controlavam somente 33 mil das 2,24 milhões de fazendas dos EUA; menos de 1,5 por cento do total.

Em 1940, o número de agricultores afro-americanos se aproximava de 700 mil. Uma dessas fazendas pertencia a Lee Earl Kimble e Sallie Harris-Kimble. No ano anterior, o casal pagou US$ 3.950 por 30 hectares em Colfax, Louisiana.

Juntar tanto dinheiro, em meio à Depressão, deve ter sido um feito heroico. Porém, a situação deveria estar pior para a Urania Lumber Company, a vendedora citada na escritura.

Entretanto, a terra seria mais bem conhecida pelos moradores locais como um minúsculo remanescente dos 5.665 hectares da fazenda Calhoun, um gigante do açúcar e algodão ao longo do rio Red, em Shreveport. Poucas gerações antes, muitas das famílias negras de Colfax trabalharam ali como escravas.

A fazenda Kimble, então, era uma horta da liberdade em grande escala. E é uma espécie de saga hortícola – da escravidão e da libertação na mesma terra – que ainda está sendo escrita, mais recentemente por Diana Kimble, neta do casal.

Quando Kimble voltou a morar nas terras da família alguns anos atrás, ela descobriu dois problemas. O cultivo era pouco e sobrara pouca família para atacar o assunto.

Nem sempre foi assim, disse Malva, irmã mais velha de Diana. A avó fez sua parte, parindo 13 filhos

— Duas morreram na infância — disse Malva.

— Mary e Martha — completou Diana.

Diana, 61 anos, e Malva, 63, moraram com os pais na cidade (no que então havia dela) e visitavam a fazenda nos fins de semana.

— Ela enxerga como era quando nós éramos pequenas — contou Malva.

— A vovó cuidava da horta — afirmou Diana.

— E nós comíamos — relatou Malva. — Dada" – o avô – "cuidava dos cultivos grandes: melancia e milho.

— Nós comíamos milho — relembrou Malva.

— Ela plantava de tudo: tomate, batata, amendoim, abóbora — continuou Diana.

— Beterraba — disse Malva. — Vagem roxa. — Feijão-fradinho.

Seus filhos eram "lavradores contratados", disse Malva.

— É por isso que não estão mais aqui. Muita gente da idade dos meus pais trabalhou tão arduamente e ganhava tão pouco com isso que não voltam para a fazenda. É isso que eles me dizem e eu ainda pergunto!

Como inúmeras famílias afro-americanas do Sul dos Estados Unidos, os Kimble plantavam porque era preciso. De que outro modo se poderia alimentar tantos filhos? E plantavam porque podiam: a terra era finalmente deles para plantar o que quisessem.

Plantar aqui não é fácil.

— Eles associam esse tipo de trabalho à escravidão — contou Diana Kimble sobre seus quatro filhos adultos e depois riu: —Eles dizem: 'Eu não sou escravo'.

Determinado tipo de fanatismo também desempenha seu papel na reconstrução da fazenda familiar. Um amigo lhes disse recentemente: "Diana, o pessoal da cidade não acha que você é louca, eles têm certeza". Todavia, somente um lunático tentaria fazer alguma coisa em meio ao calor opressivo de uma tarde da Louisiana às vésperas do verão.

As irmãs muitas vezes passam o meio do dia na cozinha bagunçada da fazenda. É uma velha casa paroquial que as duas compraram por US$ 1 da igreja católica local e levaram para a fazenda. Assim que a estrutura receber eletricidade e água quente, a ideia é ela se tornar um centro de congressos e local de treinamento para lavradores negros envolvidos com agricultura sustentável.

Os amigos já alertaram Kimble de que os parentes perdidos vão reaparecer para reivindicar o fruto de seu trabalho. É justamente isso que ela espera que aconteça.

— Existe terra suficiente para todos voltarem e pegarem sua parte.

Por ora, as crianças que visitam a horta vêm da cidade. Ela e a irmã dão aulas sobre habilidades básicas para alunos da terceira, quarta e quinta séries. No mínimo, eles ficam curiosos com seu cabelo estilo rastafári, o qual cultiva há quase 20 anos.

É uma oportunidade perfeita para conversar sobre a herança africana de todos eles. No começo do ano, Malva passou dois meses em Gana. Depois de ouvir sobre a fazenda na Louisiana, uma amiga ganense pediu que aceitasse um pequeno trecho de terra como presente. Diana quis ver com os próprios olhos. O que daria nela?

Após deixar para os netos a fazenda da família, ela pretende se mudar para a Tanzânia ou, quem sabe, Burkina Faso. Ela não se vê morrendo em Colfax.

O jazigo da família Kimble fica num belo cemitério, mas as sepulturas da família ficam relegadas aos fundos, atrás das famílias brancas com quem dividem o sobrenome. A família de sua mãe, no entanto, jaz ao redor de uma capela na plantação Raven Camp, no sul da cidade, cercada pelos campos que cultivaram como meeiros.

— Já houve algodão que chega nesta vida — ela disse.

A próxima horta será diferente.

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