The New York Times04/07/2012 | 05h10

Crianças americanas lutam para se adaptar no México

Onda de deportações e leis mais rígidas criaram êxodo em massa de famílias mexicanas

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Crianças americanas lutam para se adaptar no México Shaul Schawrz/The New York Times
Após se mudar para o México, Jeffrey Isidoro sente dificuldades na escola Foto: Shaul Schawrz / The New York Times
Damien Cave


Izucar de Matamoros, México — Jeffrey Isidoro sentou-se perto da porta de sua classe da quinta série, olhando para fora através dos óculos de grife que, como seus tênis e mochila da Nike, indicavam uma vida passada quase inteiramente nos Estados Unidos. Seus pais estão em casa no México, mas Jeffrey está perdido.

Quando a professora perguntou, em espanhol, como os golfinhos se comunicam, um menino ao seu lado se inclinou para soprar a resposta correta. Quando chegou a vez de Jeffrey ler, seus colegas de classe riram e gritaram "en ingles, en ingles" – fazendo Jeffrey corar.

— Houston é meu lar — afirmou Jeffrey durante o intervalo, em inglês. — As casas e as coisas daqui, é tudo um pouco estranho. Eu não me sinto à vontade.

Nunca na história o México viu tantos Jeffreys em suas salas de aula. Nos Estados Unidos, a onda de deportações nos últimos anos, junto a leis estaduais mais rígidas e ao desemprego, criou um êxodo em massa de mexicanos – que vêm deixando o país com seus filhos e filhas americanos.

No total, 1,4 milhões de mexicanos — incluindo cerca de 300 mil crianças nascidas nos EUA — mudaram-se para o México entre 2005 e 2010, de acordo com o censo mexicano. Isso é praticamente duas vezes a taxa de migração para o sul de 1995 a 2000, e dados do governo publicados em junho sugerem que o fluxo não está diminuindo. O resultado é toda uma geração de crianças nas quais não há um limite claro entre mexicano e americano.

— Esse é um fenômeno realmente novo — disse Victor Zuniga, sociólogo da Universidade de Monterrey, no estado de Nuevo Leon, que faz fronteira com o Texas. — É a primeira vez no relacionamento entre México e Estados Unidos que temos uma geração de jovens que compartilham as duas sociedades nos primeiros anos de suas vidas.

Os críticos da imigração celebram essas partidas em massa, mas demógrafos e educadores temem que as escolas que recebem essas crianças no México não estejam equipadas para integrá-las. E, uma vez que pesquisas mostram que a maioria dessas crianças pretende retornar aos Estados Unidos, alguns defendem que o desafio do México hoje será um problema americano amanhã, com uma nova classe de imigrantes: jovens com habilidades limitadas, uma infância problemática e todos os direitos da cidadania americana.

— Esse tipo de mudança é realmente traumático para as crianças — explicou Marta Tienda, socióloga da Universidade Princeton que nasceu no Texas, filha de trabalhadores migrantes mexicanos. — Isso vai ficar com elas.

A situação de Jeffrey é cada vez mais comum. Seu pai, o carpinteiro Tomas Isidoro, de 39 anos, é um dos 46.486 imigrantes deportados na primeira metade de 2011 que declararam ter filhos americanos, segundo um relatório do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas para o congresso. O número corresponde a oito vezes a média semestral para tais remoções de 1998 a 2007.

Isidoro, usando um boné do Dallas Cowboys na cozinha dos pais, disse ainda estar nervoso porque seus 25 anos de trabalho nos EUA não significaram nada; porque ter sido parado com uma lanterna quebrada no carro e sem documentos de imigração significou mais do que ter dois filhos americanos — Jeffrey e seu irmão, Tommy Jefferson, de 2 anos, que recebeu o nome do presidente preferido da família.

Quanto ao presidente Barack Obama, Isidoro preferiu um palavrão.

— Existem todos esses viciados em drogas, traficantes, pessoas que não fazem nada nos Estados Unidos, e vocês expulsam pessoas como eu — afirmou ele. — Por quê?

Representantes da Casa Branca declararam que, sob uma nova política focada em criminosos, menos pais de crianças americanas estão sendo deportados por pequenos delitos. A administração Obama também anunciou que centenas de milhares de imigrantes ilegais que vieram aos EUA ainda crianças receberiam permissão para ficar, sem medo de serem deportados. A política, no entanto, não concede uma situação legalizada, e como quase metade dos 10,2 milhões de adultos ilegais do país tem filhos, especialistas dizem que mais famílias serão inevitavelmente divididas – especialmente se as deportações forem mantidas em 400 mil ao ano.

Para Jeffrey, o impacto da remoção de seu pai, em junho, foi imediato. Suas notas afundaram. Sua mãe, Leivi Rodriguez, de 32 anos, ficou preocupada porque ele havia se tornado mais distante, tanto dos amigos quanto dos estudos. Quase todos os dias, Jeffrey dizia a ela que queria ver o pai.

Assim, seis meses após a deportação do marido, ela mandou Jeffrey para viver com o pai no México, e seguiu com Tommy alguns meses depois.

Foi em dezembro que ele chegou nesta cidade ao sul da Cidade do México, cercada por campos de cana-de-açúcar. Na primeira noite de Jeffrey, ele notou algo estranho em sua cama.

— Papai, o que é aquilo? — perguntou ele.

— Um escorpião — respondeu seu pai.

A escola local também apresentou novos desafios. Jeffrey passou fome no início, pois nem ele e nem seu pai perceberam que, sem uma lanchonete, os alunos dependem dos pais para lhes trazerem o lanche no intervalo.

Na sala de aula, o nível de confusão de Jeffrey tem altos e baixos. Sua professora disse que se esforça para evitar que ele fique sonhando acordado.

— O corpo dele está aqui, mas não sua mente – quem sabe onde ela estará — disse ela.

Em Houston — é para lá que os pensamentos de Jeffrey geralmente divagam. Lá ele tinha amigos, McDonald's, o zoológico. Era onde ele passava pela biblioteca da Escola Elementar Gleason para se atualizar em sua série favorita de livros, "Diário de um Banana". Lá, sua escola tinha um playground; aqui, há apenas uma laje de concreto. Lá, computadores eram comuns; aqui, eles não existem.

— Era apenas melhor — declarou Jeffrey.

As disparidades educacionais entre México e Estados Unidos nem sempre são tão gritantes. No nível primário, algumas das escolas mexicanas estão no mesmo nível — ou acima — das superlotadas e subfinanciadas escolas americanas que atendem muitos filhos de imigrantes, segundo especialistas em educação.

Mas as escolas mexicanas ficam atrás quando se trata do ensino médio. Em muitas regiões do México, especialmente lugares onde a tradição de migração não é tão estabelecida, a burocracia educacional pode dificultar as coisas para recém-chegados como Jeffrey. Não é raro ter alunos americanos impedidos de se matricular, por um ano ou mais, pela falta de documentação adequada.

— As regras estabelecidas para matrícula não precisam ser tão severas — argumentou Armando Reynoso Carrillo, legislador estadual de Malinalco, área rural onde dezenas de crianças americanas chegaram nos últimos anos.

Os problemas ultrapassam a matrícula. Os mexicanos têm um longo histórico de receber os repatriados com ceticismo – pelo abandono do México, ou por se ressentirem com os Estados Unidos, ou por considerarem os que se mudaram para lá materialistas, culturalmente deslocados e arrogantes. O preconceito muitas vezes se estende aos filhos.

Graciela Trevino Gonzalez contou que quando regressou a Malinalco, há três anos (após mais de uma década na Califórnia), foi impossível colocar seu filho americano no time de futebol – pois os treinadores se recusavam a aceitá-lo sem uma identificação mexicana.

— Ele se sentiu rejeitado por todos — completou ela. — As crianças o chamavam de 'leche', 'gringo' – foi terrível.

"Leche" significa leite, e "gringo" pode ser uma referência neutra a um estrangeiro ou um insulto.

Aqui, no estado central de Puebla, as crianças mexicanas são particularmente inclinadas a ver estudantes transnacionais como diferentes, segundo pesquisas da socióloga Zuniga. Alguns vieram ao México devido a deportações. Outros vieram porque parentes estavam doentes ou sem trabalho.

Independentemente do motivo, porém, os estudantes mexicanos tendem a ver seus colegas de educação americana como estranhos. A experiência de Jeffrey é típica: ele é amigável e extrovertido em inglês, mas bastante tímido na escola — onde o espanhol é o único idioma usado.

Tienda, de Princeton, explicou que crianças da idade de Jeffrey têm mais chances de sofrer com uma transição tão difícil.

— Essa é a idade em que eles começam a perceber as diferenças entre um e outro — disse ela. — Eles são pré-adolescentes e sua identidade está sendo cristalizada.

Ela acrescentou que a maneira como esses alunos se sairão em longo prazo deverá variar muito. Alguns farão a transição com facilidade, enquanto outros terão contratempo após contratempo. Isso irá depender de suas habilidades no idioma, escola e dinâmica familiar.

Como muitas outras crianças cujos pais se mudaram para um país desconhecido, Jeffrey parece oscilar entre alcançar seus colegas de classe e ficar ainda mais atrasado. Seus pais estão lutando para encontrar trabalho e manter seu casamento. Jeffrey, em momentos mais calmos, afirmou estar apenas tentando aguentar até poder voltar para casa.

— Eu sonho que estou dormindo nos Estados Unidos — disse ele. — Mas quando acordo, estou no México.

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