The New York Times25/05/2012 | 03h55

Violência mexicana deixa rastro de sofrimento e dúvidas para as famílias das vítimas

País teve 50 mil assassinatos ligados à guerra das drogas nos últimos seis anos

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Violência mexicana deixa rastro de sofrimento e dúvidas para as famílias das vítimas Janet Jarman/NYTNS
Rafael Carrillo visitou o túmulo do irmão: "Dor e impotência, é o que você sente" Foto: Janet Jarman / NYTNS
Randal C. Archibold


Colima, México — Depois que seu filho Alfredo foi assassinado em sua loja de autopeças, no ano passado, Carmen Plascencia de Carrillo percebeu que duas meias-irmãs haviam faltado ao velório e ao funeral.

— Elas sugeriram que talvez meu filho estivesse envolvido com outras coisas — disse Carrillo.

Um irmão da vítima, Rafael Carrillo, notou vizinhos evitando-o. Também lhe disseram que não comparecesse ao casamento de um primo, para não colocar em risco os outros convidados. A barraca de comida de uma irmã perdeu inúmeros clientes.

No México, com 50 mil assassinatos ligados à guerra das drogas nos últimos seis anos, o sofrimento dos sobreviventes não pode ser mensurado. Enquanto choram por seus entes queridos, porém, os enlutados também precisam lidar com as suspeitas de seus amigos e vizinhos – que ficam pensando se as vítimas e seus parentes também poderiam ser criminosos.

— Hoje há mães chorando como viúvas, crianças pequenas que não conhecem seus pais — afirmou Rafael Carrillo. — E além disso, a sociedade decidiu nos atacar com comentários maldosos.

Como é o caso na grande maioria dos assassinatos mexicanos, ninguém sabe quem matou Alfredo Carrillo, de 42 anos, em 12 de fevereiro de 2011. Ele ou um de seus três funcionários (que também foram mortos naquela manhã) estariam envolvidos com o crime organizado? Teriam sido vítimas de extorsão, ou toda a ação seria fruto de uma disputa mais pessoal?

O ataque trazia as conhecidas marcas de muitas chacinas no México. Uma picape chegou à loja, um grupo armado desceu e, após uma saraivada de tiros, três pessoas estavam mortas e outra logo morreria pelos ferimentos.

Alfredo Carrillo possuía a loja há 17 anos, vendendo portas, para-brisas e peças de motor de segunda mão, e também fazendo pequenos consertos.

— Já ligaram para você? — dissera Carrillo a um amigo, dias antes de morrer, explicando um telefonema de extorsão que havia recebido, segundo seu irmão.

Rafael Carrillo, de 47 anos, criminologista que já presenciou seu quinhão de corpos crivados de balas, lembra-se de estar chorando e empurrando amigos na frente da loja, enquanto eles impediam sua entrada. Em algum lugar da procuradoria estadual estão as terríveis fotos do que ele teria visto; hoje ele não consegue olhar.

À distância, o caso poderia ser descrito como parte do ciclo de violência no México que o governo atribui às drogas e ao crime organizado.

Mas a definição de "envolvido" é obscura, e não se sabe quantas das vítimas eram inocentes; muitas vezes, qualquer chacina gera suposições de que as vítimas estavam de alguma forma envolvidas no submundo.

O próprio presidente Felipe Calderón apressou-se a essa conclusão após um massacre de estudantes em Ciudad Juarez, em 2010. Ele voltou atrás após protestos públicos.

— Eles sempre dizem que há uma investigação aberta — afirmou Edgar Cortez, pesquisador do Instituto Mexicano de Direitos Humanos e Democracia, grupo nacional que defende vítimas de crimes. — Depois não tem investigação nenhuma, deixando todas essas dúvidas e suposições, e nenhuma justificativa para dizer que aquela pessoa estava envolvida ou não.

As dúvidas assombram as famílias, e a falta de prisões e condenações priva os sobreviventes de respostas para refutar os inevitáveis rumores e insinuações.

— O México está cheio de histórias como a minha — declarou Rafael Carrillo.

Colima é um pequeno estado costeiro cercado por dois mais violentos, Jalisco e Michoacan, e não costuma aparecer nas manchetes sangrentas, mas uma onda de violência vem irritando os moradores. Em maio, o jornal local Diario de Colima abordou os crescentes temores na primeira página: "Colima não é mais um lugar seguro, dizem cidadãos".

Rafael Carrillo viveu essa insegurança. Como criminologista, ele vai a cenas de crimes e coleta evidências para os promotores. O trabalho é basicamente limitado a isso; ele não soluciona casos, e nem mesmo fica sabendo dos detalhes após entregar o material.

Quando veio a temida ligação, seu colega relatou apenas um distúrbio na loja de seu irmão – o bastante para Rafael correr ao local. Conforme se aproximava, ele viu os carros da polícia e do médico-legista – e percebeu, com crescente terror, o que havia acontecido.

A chacina apareceu na primeira página de todos os jornais locais, sendo citada também em alguns nacionais.

Apesar das suspeitas, dezenas de pessoas compareceram ao funeral, recordando um homem sociável e de espírito generoso.

Era Alfredo Carrillo, pai de quatro filhos, que organizava e ajudava a preparar as "comidas" de domingo – longas refeições em tardes de lazer – para toda a família, no pequeno restaurante de sua mãe.

Ele não demonstrava preocupações, segundo seu irmão, mas após o funeral um amigo em comum lhe contou sobre o telefonema da extorsão.

Outros membros da família especularam sobre sua ligação às brigas de galo, um hobby. Um amigo que criava as aves com Alfredo – oito delas permaneciam engaioladas numa casa – garantiu que ele nunca apostava, participando apenas por diversão. Mas reconheceu que homens perigosos apareciam nas rinhas, sendo que a última havia sido um dia antes da morte de Alfredo.

Familiares e amigos sugeriram que os atiradores talvez tivessem algum problema com um dos funcionários da loja, embora o fato de todos terem sido assassinados desafiasse essa explicação.

A promotoria não fez comentários além de um comunicado divulgado na ocasião, com o nome e a idade de Alfredo escritos incorretamente, dizendo que a investigação ainda estava aberta. O chefe de polícia, Alejandro Guerrero, não respondeu mensagens de texto ou e-mails.

A loja de Alfredo Carrillo, chamada Yonke El Tukan (uma brincadeira com o nariz proeminente do proprietário, como o de um tucano), também atraía desconhecidos e pessoas que queriam comprar sem questionamentos. Ela fica num bairro pobre, onde os moradores preferem não falar sobre o crime com forasteiros.

Após os assassinatos, Rafael Carrillo foi para os Estados Unidos por alguns meses. No entanto, sem visto de trabalho e com poucas chances de prosseguir com sua carreira por lá, acabou voltando. Outro irmão também foi embora, e continua no Texas.

De novo em casa, Rafael temia aprofundar-se demasiadamente no caso.

— Para dizer a verdade, eu tenho medo — afirmou ele. — Todos nós temos medo de perguntar sobre isso. A resposta está em algum lugar, mas o que acontecerá conosco se ficarmos sabendo? Desejo continuar vivendo em Colima.

Perto do aniversário da chacina, ele criou uma página no Facebook, "Colima Nomasdolor" (Colima chega de dor), em parte para descarregar sua frustração e angústia.

Como a maioria dos parentes de vítimas, porém, ele sofre em silêncio, impedido pelo medo de tornar-se um ativista – como fizeram alguns, ocasionalmente com resultados fatais.

Em dezembro de 2010, em frente a um tribunal no norte mexicano, uma mãe exigindo justiça pelo assassinato de sua filha foi morta a tiros.

Alfredo Carrillo descansa num empoeirado cemitério municipal de 100 anos. Enrolado sobre a sepultura, decorada com três estatuetas de galos, havia um cartaz deixado por uma sobrinha, uma ode ao seu tio.

— Obrigada por preocupar-se comigo, obrigada por me dar confiança.

Num sábado recente, Rafael Carrillo parou diante do túmulo, lutando para resumir seus sentimentos antes de dizer, apenas:

— Dor e impotência, é o que você sente.

Mais tarde, ele compartilhou uma carta que havia escrito ao irmão após o aniversário de sua morte.

"Algum dia estaremos todos juntos novamente", escreveu ele, "mas não haverá aqueles que feriram com seus comentários, especulações e inveja".

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