New York Times13/04/2012 | 02h32

Homem que construiu avião para fugir da Cortina de Ferro mora em hangar deserto

Há quase 30 anos, Ivo Zdarsky ficou conhecido por deixar a Tchecoslováquia comunista pelo ar

Enviar para um amigo
Homem que construiu avião para fugir da Cortina de Ferro mora em hangar deserto John Burcham/NYTNS
Outra aeronave desenvolvida por Ivo Zdarsky mistura funções de avião e helicóptero Foto: John Burcham / NYTNS
John Noble Wilford

Lucin, Utah —Quando um homem escapa de um país da Cortina de Ferro numa aeronave que ele mesmo construiu, talvez não cause espanto, quase três décadas depois, encontrá-lo morando num hangar.

As três pistas de decolagem que cercam o hangar de Ivo Zdarsky não estão em perfeitas condições, apesar da batalha contínua com os texugos, cujas tocas abaixo ameaçam derrubá-las. Porém, ao menos ele conseguiu mantê-las livre de gado. Zdarsky chama este local de Aeroporto Internacional de Lucin, embora o único avião que aterrisse regularmente nesta cidade fantasma, a 290 quilômetros a noroeste de Salt Lake City, seja o dele. (Para quem abastece a despensa em Ogden, a 260 km dali, é bom ter um avião.)

Não pense, porém, que o lar de Zdarsky, que ganha a vida fabricando hélices para avião, seja austero. Seu salão — basicamente o único cômodo — é dominado por grandes tesouros, como um televisor de tela plana de 90 polegadas, com caixas de som de um metro de altura nos cantos do local. Também existe uma bateria, uma escrivaninha e um computador, dois colchões na frente da TV e uma banheira inflável de ponta-cabeça, coberta com um lençol e transformada em canapé.

Você deve ser um grande amigo do cara da UPS, diz esta repórter.

— É o Brent — diz Zdarsky, 51 anos, ainda com sotaque da Tchecoslováquia nativa, voz aguda e um senso de humor ferino e seco. — Ele mora em Ogden. É meu único contato com a civilização.

E sobre a cama e o canapé, como se tivessem sido jogadas como um suéter, estão duas armas de ataque.

— Eu as uso nos texugos porque eles cavam no meu terreno — explica Zdarsky. — Você nem imagina o estrago que esses texugos causam.

Na verdade, ao dar uma olhada, a repórter conta sete armas na sala. Detalhes, por favor.

— Esse é um rifle de franco-atirador .308 — diz Zdarsky. — Esse é um rifle de franco-atirador .223. Tem uma escopeta se os texugos chegarem perto demais. Essa é uma FS2000 belga.

Ele aponta para um pouco de munição numa mesa caseira próxima.

— É isso que nossos homens estão usando no Afeganistão. É muito eficaz contra texugos. E, provavelmente, também contra terroristas.

Também existe roupa de camuflagem. Por que Zdarsky, talvez o único habitante de Lucin, precisa disso?

— Porque não ficam sujas. Além disso, os texugos não as veem.

Existem cidades fantasmas e cidades tão desertas que não têm nem fantasmas. Lucin, no condado de Box Elder, se encaixa no segundo caso. No fim do século XIX, marias-fumaça paravam nas cercanias para se reabastecer de água. Na década de 1970, alguns ferroviários aposentados ainda moravam aqui, mas eles sumiram faz tempo.

O mais importante para Zdarsky é a história militar da área — que pode ser o motivo para ele ter encontrado uma misteriosa pista de 1.220 metros de extensão e 150 de largura na propriedade. Durante a II Guerra Mundial, Wendover, a 130 km ao sul daqui, era uma base de treinamento de bombardeiros e campo de tiro, onde o Enola Gay era abrigado. E o Campo de Testes e Treinamento de Utah fica a uns 80 km da casa de Zdarsky. Agora mesmo, esta repórter percebe a porta lateral sacudir graças a uma explosão sônica.

— Bomba — diz Zdarsky, rindo.

O hangar e a pista de aviação de Zdarsky são rodeados por uma cerca elétrica, com uma bandeira pirata no portão. Quando se está a poucos quilômetros daqui, pode-se notar um prédio alto na propriedade que abriga um farol navegacional da Administração Federal de Aviação, pelo qual a FAA lhe paga um aluguel anual de US$ 2.500.

A casa é dividida em duas áreas de 15 por 15 metros: uma para os aviões, a outra é onde ele mora (o quarto de dormir é separado).

— Vejo que a maioria das pessoas tem uma casa que costuma ser menor do que o meu quarto. E dentro de casa existe um monte de quartinhos, o de dormir, de estar, sei lá. Se quiserem fazer algo num computador, é preciso ir até um deles, ir comer em outro. Eu tenho um só, e posso assistir TV aqui, acompanhar o computador aqui, comer aqui, e não é claustrofóbico.

Ele aponta uma das portas articuladas motorizadas do hangar, que pode subir a três metros do chão.

— Se precisar de uma janela maior, posso levantá-la.

Ah, sim, só agora a repórter percebeu que a casa não tem janela. Por quê?

— Eu não sabia se queria ou não — Zdarsky explica, rapidamente desprezando o assunto da janela para continuar a falar das alegrias de morar num único cômodo. — E as pessoas normais fazem tudo isso, precisam navegar entre as paredes. Se eu desejar paredes, posso colocá-las aqui, mas não achei motivos para me cercar.

Sempre ávida para abordar o lado psicológico, a repórter oferece uma teoria. Talvez a aversão a paredes venha do fato de ter estado preso num Estado comunista? Apesar de que, pensando bem, muitos viveram sob o domínio comunista e poucos estão aqui.

— Certo — Zdarsky afirma, rindo da teoria. — Não se vê muitos deles por aqui.

Falando na Tchecoslováquia comunista, que hora melhor — agora que Zdarsky está descongelando um pedaço de antílope que matou para o almoço da repórter — para recordar do verão (inverno no Hemisfério Sul) de 1984, e o voo para a liberdade que o tornou famoso por alguns momentos?

Estudante de engenharia de aviação em Praga, Zdarsky projetava hélices para avião e estava desgostoso com um governo que o proibia de dizer o que pensava e de abrir uma empresa. Ao ter o visto de saída recusado, ele construiu sua própria aeronave, combinando uma asa delta e o motor de um Trabant, carro da Alemanha Oriental famoso pela má qualidade. O avião, é claro, devia ser testado e, durante um teste, Zdarsky foi preso pela polícia secreta. Por sorte, ele estava voando para o leste na ocasião e, como conta, pouca gente tentava fugir para a Rússia. Após convencer a polícia de que o avião era um projeto da faculdade, eles o liberaram, prendendo a aeronave numa garagem usada pela polícia local.

A polícia local, aborrecida por ter de estacioná-lo na rua, foi receptiva a uma propina e, às 3h da madrugada de 4 de agosto, Zdarsky pegou três bússolas e decolou do interior tcheco, a pouca distância da fronteira austríaca, e aterrissou em Schwechat, no Aeroporto Internacional de Viena, onde pediu asilo político. Pipocaram manchetes pelo mundo ocidental. A repórter lê uma em voz alta, encontrada numa caixa com recortes antigos: "Homem morcego vence comunistas em voo à luz da lua."

— Na verdade, era uma noite sem luar. Eu não queria lua. Ela pode denunciá-lo.

Não foi como conta o jornal? A repórter continua lendo: "Um jovem cansado da vida atrás da Cortina de Ferro instalou um motor leve e uma hélice num frágil planador caseiro e decolou...".

— Frágil? —, questiona Zdarsky, irritado. Levou-me aonde eu ia.

Após vender seu avião ao museu da Alemanha Ocidental dedicado a veículos de fuga e ao Muro de Berlim, o Haus am Checkpoint Charlie, ele se mudou para Los Angeles, onde abriu uma empresa, a Ivoprop, ainda de sua propriedade, para produzir uma hélice que projetou. Ele também começou a trabalhar numa aeronave experimental que poderia funcionar como helicóptero e avião. Porém, em 1997, se cansou de Los Angeles e começou a procurar uma propriedade onde pudesse desenvolver seu avião. Foi quando encontrou cerca de 160 hectares no deserto de Utah por US$ 99 mil.

— Tente fazer isso em Nova York. Era um negócio muito bom porque ninguém queria viver aqui.

Ele queria a casa o mais próximo possível da pista. Zdarsky estima que custou US$ 500 mil para construir, incluindo US$ 50 mil para o aço do hangar e US$ 100 mil para trazer água e eletricidade. (Felizmente para Zdarsky, o entroncamento de uma companhia telefônica local e um poço já faziam parte da propriedade.)

Mesmo assim, é de se perguntar se ele se sente solitário.

— Todos me perguntam isso. Se ficar solitário, posso ligar minha TV grande ou entrar no avião e ir ver gente. Geralmente é mais ao contrário, estou numa civilização e desejo muito fugir para cá.

Ele tem namorada, embora não queira falar sobre ela. Eles se conheceram num site para encontros online. Ela mora em Provo, a 390 km daqui.

THE NEW YORK TIMES NEWS SERVICE/SYNDICATE

Comentar esta matéria Comentários (0)

Esta matéria ainda não possui comentários

Siga os perfis de ZH no Twitter

  • transitozh

    transitozh

    Trânsito Zero HoraMovimento nas rodovias federais ainda é tranquilo na saída para o feriadão. A @PRF191RS prevê que se intensifique a partir das 15h.há 1 minutoRetweet
  • zerohora

    zerohora

    Zero HoraTrânsito no primeiro dia do feriadão tem filas de 17 quilômetros na BR-101 e movimento intenso nas outras estradas http://t.co/VEkWrnE9Buhá 33 minutosRetweet
clicRBS
Nova busca - outros