Depois de uma década de guerra no Afeganistão, o relatório deixa claro que tais mortes se tornaram o sintoma mais visível de uma aflição muito mais profunda que assola o esforço de guerra: o desprezo que um lado tem pelo outro, sem mencionar o Talibã. A má vontade e desconfiança estão longe de ser superficiais dos dois lados, levantando dúvidas sobre qual papel os Estados Unidos e os aliados podem esperar desempenhar no futuro no Afeganistão.
A violência e o fracasso dos comandantes da coalizão em resolvê-la põem a nu as deficiências dos esforços americanos em criar um exército afegão funcional, um pilar da estratégia da administração Obama para libertar os EUA da guerra no Afeganistão, sustentam oficiais e especialistas que ajudaram a moldar a estratégia.
Para eles, o problema pode deixar os EUA e seus aliados dependentes de uma força afegã permeada de sentimento antiocidental, incapaz de combater o Talibã e outros militantes quando a missão de combate da OTAN terminar em 2014.
Um exemplo do nível geral de antipatia na guerra ganhou uma visibilidade desconfortável recentemente, quando surgiu um vídeo de fuzileiros navais americanos urinando em combatentes mortos do Talibã. Embora os comandantes dos EUA tenham condenado o ato, comentários de fuzileiros e seus defensores em salas de bate-papo e no Facebook cobriam de elogios a profanação.
Porém, o resultado mais problemático tem sido o número crescente de ocidentais mortos por aliados afegãos, eventos qualificados rotineiramente por oficiais da EUA e OTAN como incidentes isolados, obra de soldados perturbados ou agentes infiltrados do Talibã, não sendo um padrão comum. Singularmente direto, o relatório, preparado para um subcomandante americano no Afeganistão oriental, adota uma visão bem diferente. O "Wall Street Journal" noticiou detalhes da investigação ano passado. Uma cópia foi obtida pelo "New York Times".
"Claramente, altercações mortais não são raras nem isoladas; elas refletem um rápido crescimento da ameaça de homicídio sistêmico (com uma magnitude sem precedentes entre 'aliados' na história militar moderna)", afirma o texto. Os pronunciamentos da OTAN afirmando o contrário "parecem insinceros, se não profundamente desonestos em termos intelectuais", assegura o relatório, que minimiza o papel de agentes infiltrados do Talibã nas mortes.
A coalizão se recusou a comentar o relatório secreto. Porém, "incidentes no passado recente nos quais soldados afegãos feriram ou mataram membros da Força Internacional de Segurança (ISAF, na sigla em inglês) são casos isolados e não acontecem rotineiramente", disse o tenente-coronel do exército Jimmie E. Cummings Jr., porta-voz da ISAF.
— Nós treinamos e estamos ligados todos os dias com pessoal afegão e não vemos problemas ou preocupações em nossos relacionamentos.
Os números parecem contar uma história diferente. Embora a OTAN não divulgue o cômputo total das mortes de soldados pelas mãos de soldados afegãos e da polícia, o relatório sigiloso e as notícias divulgadas pela coalizão indicam que as forças afegãs atacaram soldados aliados e dos EUA mais de 30 vezes desde 2007.
Dois membros da Legião Estrangeira Francesa e um soldado americano foram mortos em incidentes separados nas últimas semanas, segundo informações da OTAN.
O relatório secreto descobriu que, entre maio de 2007 e maio de 2011, quando foi concluído, pelo menos 58 militares ocidentais foram mortos em 26 ataques separados por soldados e pela polícia afegã, no país como um todo. A maioria desses ataques vem ocorrendo desde outubro de 2009. De acordo com o relatório, o número de vítimas representava seis por cento de todas as mortes hostis à coalizão durante esse período.
— A sensação de ódio está crescendo rapidamente — disse um coronel do exército afegão. Ele descreveu seus soldados como "ladrões, mentirosos e viciados", mas também afirmou que os americanos eram "brigões arrogantes e rudes que usam linguagem suja".
De modo geral, comandantes de alto escalão conseguem controlar os sentimentos, disse o oficial, que pediu para não ser identificado, pois não tem autorização para falar. Contudo, segundo ele, "infelizmente isso vai virar um problema grande no futuro próximo entre o baixo escalão dos dois exércitos".
Existem casos de sucesso, principalmente entre os comandos de elite afegãos e forças de operações especiais da coalizão, a maioria das quais passou por treinamento cultural minucioso e fala pelo menos um pouco de dari e pachto, os dois principais idiomas do Afeganistão. Porém, como ressalta o relatório sigiloso, na maioria dos casos a familiaridade parece ter gerado principalmente desprezo, o que, por sua vez, solapou os benefícios de juntar as forças.
O problema também foi mencionado em relatórios secretos que acompanham o progresso do esforço de guerra, a maioria dos quais é muito mais negativa do que as declarações públicas de progressos, disse um oficial americano, que pediu para não ser identificado por estar discutindo uma informação secreta.
— Se você juntar duas pessoas de 18 anos de culturas diferentes e colocá-los em Nova York, vai arrumar uma briga de gangue — disse Anthony H. Cordesman, especialista em defesa do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, que orientou os militares americanos quanto à estratégia afegã.
— O que temos aqui são duas culturas muito diferentes com valores diferentes. Eles se tratam com desdém — ele declarou durante entrevista telefônica.
O relatório secreto de 70 páginas da coalizão, intitulado "Uma crise de confiança e incompatibilidade cultural" — originalmente distribuído como documento não confidencial e depois alterado para sigiloso — vai muito além de relatos. Ele foi elaborado por um cientista comportamental que entrevistou 613 soldados e policiais afegãos, 215 soldados americanos e 30 intérpretes afegãos que trabalharam para os americanos.
Embora o relatório se concentrasse em três áreas do Afeganistão oriental, muitos dos soldados afegãos entrevistados serviram em outros lugares do país e o autor acreditava que eles constituíam uma amostra representativa do país como um todo.
"Existem sentimentos generalizados de animosidade e desconfiança por parte do pessoal do exército afegão em relação às forças americanas", disse o relatório.
A lista de reclamações afegãs contra os americanos variava da morte de civis a urinar em público e praguejar.
— Os soldados americanos não escutam, são muito arrogantes — disse um dos soldados afegãos entrevistados, segundo o relatório.
— Eles ficam aborrecidos com baixas do seu lado e descontam em civis durantes as buscas — afirmou outro.
Os americanos foram igualmente mordazes.
— A percepção dos soldados americanos sobre os membros do Exército Nacional Afegão foi extremamente negativa entre as categorias — concluiu o relatório.
Essas categorias incluíam "confiabilidade em patrulha", "honestidade e integridade" e "abuso de drogas".
Os americanos também diziam suspeitar que os afegãos estivessem ligados ao Talibã, problema bem documentado entre a polícia afegã.
— Eles vivem chapados; alguns até durante as patrulhas conosco — um soldado teria dito.
Outro afirmou:
— Eles são muito medrosos em combate; a maior parte da luta fica em nossas mãos.
The New York Times News Service/Syndicate












